Há momentos em que a vida parece compreensível.
Não porque seja simples, mas porque, por algum tempo, conseguimos narrá-la. As coisas se organizam em torno de uma ideia de continuidade, de projeto, de antes e depois. Existe um certo acordo silencioso entre o que sentimos, o que pensamos e o que fazemos.
Até que algo acontece.
Nem sempre algo grandioso. Às vezes, uma notícia atravessada, uma ausência que se instala, um diagnóstico que muda o vocabulário da casa, uma mudança que não pediu licença, um nascimento que chega antes do preparo, uma perda que não encontra palavras. De repente, aquilo que parecia firme se desloca. O pensamento demora a acompanhar. O corpo sente primeiro. A vida sofre uma espécie de convulsão.
Gosto da palavra francesa bouleversement justamente por isso. Ela não sugere apenas mudança. Carrega a ideia de algo que vira, que derrama, que desorganiza a forma anterior. Não é uma simples reviravolta elegante, dessas que cabem em narrativas otimistas. É um movimento que atinge por dentro, que bagunça o eixo, que exige reorganização quando ainda não há mapa.
É geralmente nesses momentos que a pergunta irrompe. Ela não chega organizada nem delicada. Aparece quando um médico muda o tom de voz, quando um telefone toca fora de hora, quando alguém que sempre esteve ali deixa de estar. A pergunta atravessa o corpo antes de virar pensamento e revira tudo por dentro: o que é isso que estamos vivendo? O que estamos fazendo aqui? O que sustenta uma vida quando aquilo que parecia seguro já não se sustenta?
Outro dia, pensando justamente sobre isso, me veio à memória uma história que li há pouco tempo, contada por Rubem Alves. Ele narrava seu desconforto ao assumir a coordenação da seleção de alunos de doutorado. Como decidir, em vinte minutos, se alguém estava apto a seguir aquele caminho? Diante desse impasse, propôs aos colegas uma pergunta simples para todos os candidatos: “fale sobre o que você quer falar”. A intenção era desarmar o ritual, abrir espaço para o desejo, para aquilo que realmente mobiliza alguém.
A pergunta, no entanto, produziu o efeito inverso em uma jovem candidata. Em vez de falar de si, ela se perdeu em citações, bibliografias, frases bem ensaiadas. Rubem conta que a interrompeu com delicadeza e explicou que aquilo que estava nos livros a banca já conhecia. O que ele queria ouvir era como ela pensava, o que a inquietava, quais perguntas a habitavam. A jovem não conseguiu. Travou.
Essa história ainda ecoa em mim, talvez porque diga menos sobre a universidade e mais sobre a vida. Quando acreditamos que a pergunta será simples, muitas vezes é ali que o não saber se impõe. E há algo de profundamente desconcertante em reconhecer que, apesar de todo esforço por controle, compreensão e antecipação, sabemos muito pouco sobre o essencial.
Essa constatação pode assustar. Há quem se apresse em preenchê-la com respostas prontas, sistemas fechados, certezas emprestadas. Há também quem se paralise diante do vazio. Mas existe algo de vivo nessa fresta. É ali que a curiosidade respira, que o encantamento se torna possível, que o pensamento se move sem a obrigação de chegar a um ponto final.
Não sei qual é o sentido da vida. Digo isso sem drama e sem falsa modéstia. Também não me proponho a responder a partir da fé ou da religião, campos que reconheço como importantes, tanto para o sentido individual quanto para a organização coletiva, mas que não são o lugar de onde falo aqui. O que me interessa é outro plano: o do desejo, daquilo que nos faz levantar todos os dias, insistir, tentar de novo, mesmo quando não há garantias.
Somos atravessados por múltiplas dimensões. Biológicas, psíquicas, sociais. Alguns nascem com um corpo que responde bem, outros enfrentam limitações severas desde cedo. Alguns contam com redes de apoio, recursos, oportunidades. Outros crescem em ambientes marcados por escassez, violência ou abandono. Ainda assim, não há uma relação direta entre ter ou não ter e desejar ou não a vida. Pessoas que parecem ter tudo podem não encontrar sentido algum. Outras, mesmo diante de inúmeras restrições, insistem, criam, vivem.
Talvez seja por isso que tantos pensadores tenham se debruçado sobre a existência sem jamais encerrá-la. Uns mais sombrios, outros mais afirmativos, todos atravessados pela mesma inquietação. A psicanálise, por sua vez, nos lembra que a realidade não é um dado neutro, mas algo filtrado pela história de cada um, pelas lentes que aprendemos a usar para olhar o mundo. E quando observo o tempo em que vivemos, vejo sujeitos cada vez mais fechados em suas telas, informados sobre tudo e distraídos de quase todos, sabendo muito sobre o mundo e pouco sobre si e sobre o outro que caminha ao lado.
O que é viver, então?
Não tenho resposta universal. O que posso compartilhar é aquilo que, para mim, sustenta. Há um sentido profundo em ouvir. Em acompanhar alguém que se debruça sobre suas próprias perguntas, enfrenta suas dores, se confunde, recua, avança, cresce. Há algo de muito potente em ver uma pessoa se autorizar a pensar por si, a sentir com mais liberdade, a viver com mais inteireza.
Há sustento também no aprendizado. Não apenas no acúmulo de saberes, mas no deslocamento que ele provoca. Ler algo que desorganiza, ouvir um pensamento que incomoda, perceber que aquilo que parecia óbvio não era tão simples assim. Aprender idiomas, errar inúmeras vezes até que, em algum momento, o ouvido se abre e a compreensão acontece quase sem aviso, como quem atravessa uma porta sem perceber.
Há sentido nas experiências que não pedem explicação. O riso espontâneo de uma criança, o olhar devotado de um cachorro, a alegria de alguém querido ao alcançar algo que desejava. Há sentido em viajar para além da fotografia, em escutar o que um lugar conta, suas histórias, suas marcas, suas mudanças. Há sentido na arte, na música, no teatro, nos livros que nos fazem companhia quando as palavras faltam.
Se eu tivesse que dizer algo a você, (des)conhecido, diria isso: viver parece menos sobre acertar e mais sobre se implicar. Menos sobre controlar e mais sobre estar presente. Menos sobre justificar e mais sobre sentir. O sentido, quando aparece, costuma ser discreto. Às vezes chega sem aviso, em meio ao caos, no meio da tarde, apesar de tudo…. ou apesar de nada!



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