O corpo em vigília: uma crônica sobre ansiedade

Ela acorda antes do dia.
Não há barulho algum na rua, nenhuma sirene, nenhum passo apressado, nenhum motivo aparente que justifique o susto do corpo. Ainda assim, o coração bate mais rápido, como se tivesse recebido uma notícia ruim que a consciência não leu. As mãos estão frias. O peito, apertado. O pensamento corre, mas não chega a lugar nenhum.

A madrugada costuma ser assim. Um território onde o silêncio não acalma, apenas amplia. O corpo desperta primeiro, sempre ele. A mente vem depois, tentando organizar o que já está fora de ordem. Há um ritual conhecido. A gaveta que se abre sem acender a luz. O copo d’água que espera no mesmo lugar. O remédio que promete conter aquilo que não tem nome exato, mas pesa.

Quando o dia finalmente chega, ela levanta como quem atravessa um campo minado invisível. Nada parece errado por fora. A padaria é a mesma. O cheiro de pão quente insiste em lembrar que a vida segue seu curso simples. Ainda assim, o corpo reage. O coração acelera diante do balcão. As mãos suam ao contar o troco. Há sempre a sensação de que algo pode acontecer, mesmo quando nada acontece.

No caminho, encontra um conhecido. Um convite casual para um café, feito sem intenção, mas recebido como desafio. O sorriso vem, educado, quase automático. Por dentro, o corpo já está em alerta. O peito aperta de novo. A respiração encurta. Ela responde que talvez, quem sabe, outro dia. Segue andando com a impressão de ter escapado de um perigo que não saberia explicar.

Há dias em que a ansiedade não precisa de grandes tragédias. Ela se infiltra nas cenas pequenas, nas escolhas banais, nos encontros comuns. Não grita. Sussurra. Ocupa o corpo como uma vigília permanente. Não impede a vida de acontecer, mas a atravessa com tensão, como se cada gesto exigisse um esforço a mais.

Ela sabe que não está sozinha nisso. Ainda assim, sente como se estivesse. Porque a ansiedade tem esse efeito estranho de isolar por dentro, mesmo quando tudo parece normal por fora.

Talvez, em algum ponto dessa cena, você tenha se reconhecido. Não necessariamente na madrugada, mas naquele aperto que surge sem aviso, no corpo que reage antes do pensamento, na sensação de estar sempre um pouco em estado de prontidão.

Você já se percebeu assim, diante de algo que, em tese, não deveria causar tanto desconforto? Uma entrevista marcada. Um encontro novo. Uma mudança no trabalho. Uma mensagem que demora a ser respondida. Um convite simples que, por algum motivo, parece grande demais.

Como seu corpo responde quando o inesperado se aproxima?
O coração acelera?
A respiração encurta?
As mãos esfriam, o estômago se fecha, o pensamento antecipa cenários que ainda nem existem?

Há pessoas que dizem “sou ansioso” como quem descreve um traço de personalidade. Outras evitam a palavra, como se nomeá-la fosse dar mais força ao que já incomoda. Mas a verdade é que a ansiedade atravessa a experiência humana de formas muito diferentes. Às vezes aparece como medo. Em outras, como irritação, cansaço, insônia, dificuldade de decidir, necessidade de controle.

Nem sempre ela se apresenta de maneira evidente. Muitas vezes, veste-se de excesso de responsabilidade, de preocupação constante, de uma vigilância que parece cuidado, mas cansa. E o corpo, fiel ao que não foi dito, responde.

Talvez a pergunta não seja apenas se você se viu em alguma dessas cenas, mas como você tem convivido com isso. Se tenta silenciar os sinais, se negocia com eles, ou se, em algum momento, já se perguntou o que essa ansiedade tenta comunicar.

Quando falamos em ansiedade, é comum imaginar algo que acontece apenas na mente. Um excesso de pensamentos, uma preocupação que não descansa, uma antecipação constante do que pode dar errado. Mas a ansiedade não começa no pensamento. Ela começa no corpo.

Do ponto de vista fisiológico, trata-se de um mecanismo antigo, profundamente ligado à sobrevivência. O organismo humano foi moldado para reconhecer ameaças e reagir rapidamente a elas. Diante de um possível perigo, o sistema nervoso entra em estado de alerta, o coração acelera, a respiração se torna mais curta, o fluxo sanguíneo se redistribui, preparando o corpo para agir. É o que a medicina descreve com precisão ao estudar o funcionamento do sistema nervoso autônomo, como detalhado no Guyton and Hall Textbook of Medical Physiology.

O problema não está nesse mecanismo em si. Ele é necessário, adaptativo, vital. O problema surge quando o corpo passa a reagir como se estivesse em risco constante, mesmo na ausência de uma ameaça concreta. O organismo não distingue, com tanta clareza quanto gostaríamos, o perigo real do perigo imaginado, simbólico ou emocional. Para o corpo, ambos podem soar igualmente urgentes.

Do ponto de vista psicológico e psiquiátrico, a ansiedade aparece como uma resposta antecipatória, um estado de expectativa tensa diante do que ainda não aconteceu. Não se trata apenas de medo, mas de uma vigilância contínua, muitas vezes difusa, que se instala e passa a acompanhar o sujeito em sua rotina. Essa compreensão é amplamente descrita nos manuais clínicos, como no Kaplan & Sadock’s Synopsis of Psychiatry, que apontam para o impacto funcional da ansiedade quando ela deixa de ser pontual e passa a organizar a experiência cotidiana.

Ainda assim, mesmo essas descrições não dão conta de tudo. Porque a ansiedade não se reduz a um circuito neuroquímico nem a uma lista de sintomas. Ela se manifesta como experiência vivida. Como sensação corporal. Como uma forma particular de estar no mundo, marcada por tensão, antecipação e, muitas vezes, por um cansaço que não se explica apenas pelo excesso de tarefas.

É nesse ponto que a ansiedade deixa de ser apenas um fenômeno fisiológico ou diagnóstico e passa a ser também uma questão subjetiva. Algo que fala da história de cada um, das marcas deixadas pelas experiências, das situações que não puderam ser elaboradas no tempo em que aconteceram. O corpo, então, assume a tarefa de avisar. E avisa do modo que sabe: acelerando, apertando, interrompendo o sono, dificultando o simples.

A ansiedade, antes de ser um erro do organismo, pode ser compreendida como um sinal. Um sinal de que algo pede escuta.

Na psicanálise, a ansiedade não é tratada apenas como algo a ser eliminado, contido ou corrigido. Ela é escutada como um sinal. Um sinal que emerge quando algo da experiência psíquica não encontrou ainda palavras, forma ou destino.

Desde Sigmund Freud, a ansiedade é pensada como uma resposta do eu diante de um excesso. Um excesso de excitação, de exigência interna, de conflito. Não raro, ela surge quando o sujeito se vê diante de algo que ameaça sua organização psíquica, seja uma perda, uma separação, uma mudança, seja o retorno de conteúdos antigos que permanecem ativos, ainda que não conscientes.

Mais tarde, outros autores ampliaram essa compreensão. Donald Winnicott nos ajuda a pensar a ansiedade como efeito de falhas precoces no ambiente, momentos em que o indivíduo precisou se adaptar cedo demais, sustentar-se sem apoio suficiente, organizar-se antes de estar pronto. Nesses casos, o corpo aprende a vigiar, a antecipar, a não relaxar completamente. A ansiedade, então, não é apenas reação ao presente, mas memória viva de um passado que não pôde ser plenamente vivido.

Wilfred Bion oferece uma imagem ainda mais precisa para certos estados ansiosos. Quando experiências emocionais intensas não encontram um espaço psíquico capaz de transformá-las em pensamento, elas permanecem brutas, não digeridas. O que não pôde ser pensado retorna como tensão corporal, angústia difusa, inquietação sem nome. A ansiedade aparece, assim, como tentativa de descarga de algo que ainda não pôde ser simbolizado.

Sob essa perspectiva, não se trata de perguntar apenas “como diminuir a ansiedade”, mas de escutar o que ela carrega. Que histórias estão ali condensadas. Que medos antigos reaparecem em situações aparentemente simples. Que inseguranças, traumas ou vivências não elaboradas encontram no corpo o único meio possível de expressão.

A ansiedade, nesse sentido, não é inimiga do sujeito. É um mensageiro incômodo, insistente, por vezes exaustivo, mas que aponta para algo que precisa ser cuidado. Silenciá-la rapidamente pode até trazer alívio momentâneo, mas não necessariamente transforma aquilo que a sustenta.

É nesse ponto que o trabalho analítico se diferencia em sua proposta. Não pela negação do sofrimento, mas pela aposta de que ele pode ser compreendido, elaborado e transformado a partir da escuta, do tempo e do vínculo.

O trabalho psicanalítico não parte da pressa de apagar o sintoma, mas da disposição de permanecer com ele o tempo suficiente para compreendê-lo. Isso exige algo que nem sempre é fácil em um mundo habituado a respostas rápidas: constância, presença e continuidade.

A análise cria um espaço onde a ansiedade pode ser experimentada sem que o sujeito precise, imediatamente, se defender dela. Um espaço em que o corpo, aos poucos, deixa de estar sozinho na tarefa de sustentar o que dói. A regularidade das sessões não é um detalhe técnico, mas uma condição essencial para que algo se organize. É na repetição do encontro, no ritmo estável, que o excesso começa a encontrar forma, palavra e sentido.

Nesse processo, o vínculo com o analista ocupa um lugar central. Não como relação de dependência, mas como campo de confiança. É nesse campo que conteúdos difíceis, muitas vezes antigos, podem emergir sem que o sujeito se desorganize por completo. A ansiedade, que antes surgia como invasão súbita, passa a ser reconhecida, nomeada, localizada. Aquilo que era vivido como ameaça difusa começa a ganhar contornos.

O analista não oferece atalhos nem soluções prontas. Oferece escuta, presença e capacidade de sustentar o que ainda não pode ser dito claramente. Essa experiência, ao longo do tempo, permite que o paciente desenvolva recursos internos para pensar o que antes apenas se manifestava no corpo. Não se trata de eliminar o medo, mas de torná-lo menos tirânico. Não de prometer controle absoluto, mas de ampliar a capacidade de suportar, elaborar e escolher.

É um trabalho que demanda comprometimento do paciente e experiência do analista. Demanda tempo, não como demora improdutiva, mas como condição para que mudanças profundas aconteçam. Aquilo que se construiu ao longo de uma vida não se reorganiza sem atravessar sua própria história.

Aos poucos, a ansiedade deixa de ocupar o centro da cena. Não desaparece por completo, porque faz parte da condição humana, mas perde o poder de interromper a vida. O sujeito passa a reconhecer seus sinais, suas origens, seus limites. E isso modifica, de maneira silenciosa e consistente, a forma de estar no mundo.

Um ano depois, ela acorda antes do dia.
A madrugada ainda existe, o silêncio também. Mas algo mudou.

O coração bate, como sempre bateu, mas não dispara. Há pensamentos, sim, porém eles já não a empurram para fora de si. Ela permanece alguns instantes na cama, sentindo o corpo, reconhecendo o que vem. Não há corrida até a gaveta. O gesto não é mais automático. Às vezes, o remédio continua ali, como possibilidade. Outras vezes, não é necessário.

O dia começa. Ela sai de casa. A padaria segue a mesma, com o mesmo cheiro de pão quente, o mesmo balcão gasto. Ainda há tensão, mas ela passa. As mãos já não tremem tanto. O corpo aprende, pouco a pouco, que nem toda situação exige fuga. Que nem todo encontro é ameaça.

No caminho, encontra alguém conhecido. Um convite para um café surge, simples, sem peso. Ela sente o aperto inicial, reconhece o movimento interno, respira. Diz sim. O café acontece. Não é perfeito, não é tranquilo o tempo todo, mas é possível e real.

A ansiedade não desapareceu. Em alguns dias, retorna com mais força. Em outros, apenas roça. A diferença é que ela já não governa as decisões, não interrompe o sono com a mesma violência, não impede a vida de seguir. Há uma história que pôde ser contada, pedaços que encontraram lugar, experiências que deixaram de ser apenas carga.

A análise não retirou o medo do mundo. Mas permitiu que ele fosse atravessado. A personagem segue humana, com limites, inseguranças e dúvidas. Ainda assim, há algo novo. Uma capacidade maior de sustentar o que sente, de escolher com menos urgência, de confiar um pouco mais no próprio ritmo.

Talvez seja isso que muda quando a ansiedade encontra escuta. Ela deixa de ser um alarme constante e passa a ser um sinal entre outros. Um aviso que pode ser ouvido, pensado e, muitas vezes, atravessado.


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