Você ouve o seu cliente?

Entrei na ótica como quem entra num lugar conhecido, quase doméstico. Uso lentes de contato desde os dezoito anos, quando descobri que o mundo tinha bordas borradas e que o astigmatismo exigia um pequeno pacto diário com a técnica. Ao longo dos anos, as lentes se tornaram extensão do corpo: discretas, previsíveis, confiáveis. Mas o tempo começou a acrescentar novas camadas ao olhar. Nos últimos dois anos, a presbiopia se impôs com delicadeza rude: letras que encolhem, telas que se afastam, braços que já não alcançam o foco. Adaptei-me como muitos fazem: lentes de contato para o que é longe, óculos de leitura para o que exige proximidade. Um arranjo funcional, ainda que provisório.

Na última consulta, a médica sugeriu algo diferente: lentes multifocais. Explicou que seriam mais caras, sim, mas que poderiam devolver ao olhar uma continuidade perdida, um gesto único em vez de sobreposições. Saí da consulta curioso, mas cauteloso. Afinal, nunca havia usado multifocais. Havia ali uma promessa e toda promessa carrega um pedido de confiança.

Na ótica, o atendente era expansivo, desses que falam como quem ocupa espaço. Expliquei minha história, minhas dúvidas, meu receio de não me adaptar. Disse que queria saber o valor das lentes multifocais e se havia a possibilidade de um par de teste, prática comum, quase um rito de passagem para quem convive com lentes. Ele ouviu, assentiu, mas respondeu a outra coisa. Falou do preço elevado, do custo-benefício, e então apresentou sua alternativa: a tal monovisão. Uma lente para o astigmatismo, outra para a presbiopia; o cérebro, segundo ele, faria o resto. Uma engenharia do improviso, um acordo entre partes que não se pediram.

Tentei novamente. Disse, com palavras claras, que queria saber o orçamento das multifocais. Ele abriu uma pasta, perguntou a marca. Respondi. Reconheci ali um fio de entendimento possível. Mas o número que veio não era o que eu havia pedido. Era, outra vez, o valor das lentes monovisão. Insisti. E quanto mais eu falava, mais parecia que minhas palavras escorriam pelas laterais da conversa, como água que não encontra recipiente. Eu estava ali, visível, audível e, ainda assim, não era ouvido.

Havia algo de paradoxal naquela cena: um vendedor de lentes que não via, um profissional do foco que não ajustava a escuta. Eu falava, e ele respondia, mas não ao que eu dizia. Respondia ao que já estava pronto dentro dele. Como se minhas palavras fossem apenas o intervalo necessário para que ele retomasse o próprio discurso, afinado, treinado, confiante demais para hesitar.

Não se tratava de má educação. Tampouco de desinteresse. Era algo mais sutil e, talvez por isso, mais frequente: uma escuta colonizada por uma resposta pronta. O atendente já tinha uma solução antes mesmo de ouvir o problema. Já tinha uma narrativa antes mesmo de conhecer a história. Já havia decidido, com uma convicção quase pedagógica, o que seria “melhor” para mim. A conversa, então, não era um encontro, mas um trajeto de mão única e eu estava ali apenas para confirmar o destino.

Toda vez que eu mencionava as lentes multifocais, ele desviava o olhar da pergunta e voltava à tal da monovisão, como quem puxa o assunto de volta para casa. Talvez acreditasse sinceramente estar ajudando. Talvez estivesse apenas sendo eficiente, no sentido mais contemporâneo da palavra: rápido, resolutivo, econômico. Afinal, para que perder tempo escutando se já existe uma resposta disponível?

Essa é a obstinação silenciosa do nosso tempo: a convicção que impede a percepção. Quando alguém está tão seguro do que sabe que já não vê o que está diante dos olhos. Quando ouvir deixa de ser um gesto de atenção e passa a ser apenas a espera educada pela própria vez de falar. O outro se transforma em ruído de fundo, um detalhe incômodo entre uma explicação e outra.

Vivemos cercados por discursos que se oferecem como soluções, pacotes prontos, atalhos bem-intencionados. Como observa Byung-Chul Han, o excesso de positividade, essa compulsão por eficiência, desempenho e resposta imediata, atropela o espaço da escuta. Escutar exige pausa, exige falha, exige admitir que talvez não saibamos ainda. E isso, convenhamos, anda fora de moda.

Talvez por isso ouvir tenha se tornado um recurso raro. Não porque faltem ouvidos, mas porque sobram certezas. Não porque as pessoas não escutem, mas porque já escutam com a resposta em mãos como quem mede o mundo com lentes que só permitem ver aquilo que confirma o grau já conhecido.

Houve um momento em que percebi que não adiantava repetir. As palavras já haviam cumprido seu trajeto e voltavam sem destino, como cartas devolvidas por endereço inexistente. Quanto mais eu insistia, mais a conversa se tornava um exercício de desencontro educado. Eu falava das lentes multifocais, ele retornava à monovisão. Eu perguntava sobre orçamento, ele oferecia convencimento. Não era mais uma troca. Era uma coreografia automática.

A irritação não veio em forma de explosão. Veio como cansaço. Aquele tipo de exaustão que nasce quando se percebe que não se está sendo ouvido não por falta de clareza, mas por excesso de certeza do outro. Algo ali se fechou. E quando algo se fecha por dentro, o corpo costuma decidir antes da mente.

Agradeci, chamei o atendente pelo nome e disse, com um tom calmo demais para a situação, que não deixaria o numéro do meu telefone porque não havia gostado do atendimento. Não houve elevação de voz. Não houve acusação. Apenas um limite colocado com precisão. Foi nesse instante que algo mudou no ambiente. O fluxo de palavras cessou. O rosto dele perdeu a prontidão treinada. Pela primeira vez desde que eu entrara na loja, instalou-se um silêncio.

Curiosamente, foi ali que fui ouvido. Não quando expliquei minhas necessidades, não quando formulei minhas perguntas, não quando tentei negociar possibilidades. Fui ouvido quando anunciei a retirada. Quando deixei claro que a conversa não continuaria nos termos que haviam sido impostos. A escuta surgiu não como atenção, mas como reação à perda.

Levantei-me, agradeci novamente e saí. Sem cenas. Sem dramatizações. Apenas a constatação silenciosa de que, muitas vezes, só se escuta o outro quando ele já não está mais ali. Quando o vínculo se rompe. Quando a oportunidade passou. Como se a escuta fosse acionada não pelo encontro, mas pelo risco.

Esse talvez seja um dos paradoxos mais desconcertantes das relações contemporâneas. Em um mundo saturado de discursos, conselhos e soluções, ouvir o outro parece exigir uma ameaça de ausência. Só quando alguém se vai é que se percebe que havia algo a ser escutado.

Saí da primeira ótica sem pressa e sem drama, mas com aquela sensação estranha de ter sido atravessado por algo maior do que uma simples compra. Caminhei alguns metros pelo corredor do shopping e entrei na loja concorrente. O espaço era semelhante, as vitrines também exibiam promessas de nitidez e conforto. O que mudou não foi o cenário, mas o modo como fui recebido.

A atendente me cumprimentou, perguntou o que eu buscava e, desta vez, esperou. Havia ali uma pausa verdadeira, não aquela suspensão ansiosa de quem aguarda apenas a própria vez de falar. Contei a mesma história, mencionei as multifocais, falei do receio de adaptação, da diferença de valores, da curiosidade misturada com cautela. Ela ouviu. Não interrompeu. Não desviou o assunto. Não tentou me conduzir para uma solução alternativa antes de compreender a demanda.

As perguntas vieram depois, no tempo certo. Explicou as lentes de teste, os prazos, as possibilidades de adaptação. Não havia urgência em convencer, apenas disposição para esclarecer. O resultado foi quase anticlimático de tão simples. Fiz a compra. Comecei o período de teste. Ganhei um brinde de boa qualidade, desses que não parecem estratégia, mas cuidado. Saí da loja com a sensação de ter sido reconhecido, não apenas atendido.

Christophe Dejours nos lembra que o reconhecimento não é um luxo relacional, mas um elemento fundamental dos vínculos humanos. Quando alguém se sente ouvido, algo se reorganiza internamente. O gesto de escutar valida a experiência do outro, confere existência à sua palavra. Não se trata de concordar, mas de admitir que há ali um sujeito, e não apenas um obstáculo a ser contornado por uma resposta pronta.

Talvez por isso a decisão de compra tenha se tornado quase secundária. O que estava em jogo não era apenas o preço das lentes, mas a experiência de ser considerado na própria singularidade. A escuta, quando acontece de fato, cria vínculo. E o vínculo, muitas vezes, antecede qualquer transação.

Alguns dias depois, já usando as lentes multifocais de teste, percebi que a adaptação havia sido surpreendentemente boa. A leitura fluía. O olhar se acomodava. Havia ali uma continuidade reencontrada. Mas, mais do que enxergar melhor, eu carregava comigo a confirmação silenciosa de que ser ouvido muda tudo. Inclusive o modo como vemos.

Talvez o que tenha acontecido naquela primeira ótica não seja um desvio, mas um sintoma. Um pequeno retrato do modo como temos nos relacionado uns com os outros. Em tempos de excesso de informação, de discursos incessantes e soluções prontas, ouvir tornou-se um gesto raro. Não porque faltem palavras, mas porque falta disponibilidade para ser atravessado pelo que o outro traz.

Byung-Chul Han descreve esse cenário como um mundo saturado de positividade. Tudo precisa funcionar, render, resolver. O tempo da escuta, com suas pausas, hesitações e incertezas, parece improdutivo demais. Escutar exige suspensão, exige admitir que ainda não se sabe. E, numa cultura que valoriza respostas rápidas, a dúvida se torna quase uma falha moral.

Nesse contexto, o outro deixa de ser alguém a ser encontrado e passa a ser alguém a ser gerido. A fala do outro não inaugura uma relação, apenas ativa um protocolo. O atendente da ótica talvez não quisesse impor nada. Talvez estivesse apenas cumprindo uma lógica de eficiência. A questão é que, quando a eficiência ocupa todo o espaço, o encontro desaparece.

Hartmut Rosa ajuda a aprofundar esse ponto ao falar da perda de ressonância. Para ele, a relação viva com o mundo acontece quando algo nos afeta e nos responde de maneira imprevisível. A escuta verdadeira é um desses momentos de ressonância. Ela não controla o resultado. Não antecipa o fim da conversa. Ela se arrisca ao contato.

Quando não há ressonância, tudo vira ruído. As palavras passam, mas não tocam. As pessoas falam, mas não se encontram. A relação se acelera, mas empobrece. E, pouco a pouco, o mundo vai se tornando funcional, eficiente e estranhamente silencioso por dentro.

Talvez seja por isso que tantas interações hoje produzam cansaço em vez de vínculo. Não estamos exaustos de ouvir demais, mas de não sermos ouvidos. Não nos falta comunicação, mas escuta. O paradoxo é que, quanto mais falamos, menos nos encontramos.

Escutar, nesse cenário, torna-se quase um gesto de resistência. Um ato simples, mas profundamente contracultural. Um modo de desacelerar o mundo o suficiente para que o outro possa existir, não como problema a ser resolvido, mas como presença a ser reconhecida.

Talvez o mais inquietante nessas cenas de não escuta não seja o desencontro em si, mas aquilo que se perde sem fazer ruído. Algo escapa silenciosamente quando o outro fala e não encontra acolhida. Não é apenas a informação que se dissipa, mas a possibilidade de relação. A palavra não ouvida não cai no chão. Ela se dissolve no ar, como se nunca tivesse existido.

Há uma delicadeza própria no ato de escutar que passa despercebida. Escutar é aceitar ser um pouco desorganizado pelo que vem de fora. É permitir que o outro desestabilize nossas categorias, nossos atalhos mentais, nossas soluções prontas. Quando não escutamos, preservamos a ordem interna, mas ao custo de empobrecer o mundo.

Em muitos contextos, a escuta falha não por desatenção, mas por julgamento. Julga-se a demanda antes de compreendê-la. Julga-se a capacidade do outro antes de ouvir seu desejo. Às vezes, o julgamento é sutil, quase invisível. Outras vezes, ele se ancora em marcadores mais duros, como a aparência, a origem, a cor da pele. A escuta, então, deixa de ser um gesto aberto e passa a obedecer a hierarquias silenciosas.

Mesmo quando não nos sentimos diretamente julgados, sabemos que esse campo existe. Ele atravessa relações de consumo, ambientes profissionais, instituições, consultórios, famílias. Há quem fale e seja imediatamente ouvido. Há quem precise repetir. Há quem jamais encontre escuta. Não porque fale baixo, mas porque o mundo não aprendeu a ouvir certas vozes.

Talvez por isso a escuta tenha se tornado uma experiência tão rara quanto transformadora. Quando acontece, ela produz algo próximo do alívio. Como se, por um instante, não precisássemos nos explicar tanto. Como se fosse possível existir sem justificar cada palavra. Ser ouvido não resolve tudo, mas organiza algo por dentro. Dá contorno à experiência.

Há um saber silencioso que se transmite quando alguém escuta de verdade. Um saber que não se aprende em manuais nem em técnicas. Ele se constrói na disposição de sustentar a presença do outro sem reduzi-la. E talvez seja esse gesto, tão simples e tão exigente, que prepara o terreno para uma ética mais profunda do encontro.

Talvez escutar seja uma das formas mais discretas de responsabilidade. Não aquela responsabilidade grandiosa, anunciada em discursos, mas a que se exerce no nível mínimo do encontro. Escutar é aceitar que o outro não cabe inteiro nas nossas categorias, nos nossos cálculos, nos nossos graus previamente ajustados. É admitir que há algo ali que não sabemos ainda.

Ver melhor nem sempre depende de lentes mais sofisticadas. Às vezes, o problema não está na nitidez, mas no excesso de certeza. Olhamos demais para confirmar o que já pensamos e ouvimos pouco para descobrir o que ainda não sabemos. A escuta verdadeira exige uma ética da atenção, uma disposição para sustentar o intervalo entre a pergunta e a resposta.

Escutar alguém é, de certo modo, conceder-lhe existência. É reconhecer que aquela palavra merece pouso, que aquela experiência não será imediatamente traduzida, corrigida ou descartada. Quando não escutamos, o outro se torna função, estatística, obstáculo ou cliente. Quando escutamos, ele volta a ser pessoa.

Há algo de profundamente humano nesse gesto. Escutar implica desacelerar, abdicar do controle, aceitar que o encontro pode nos transformar. Não é um ato neutro. Toda escuta verdadeira desloca. Toda escuta verdadeira cobra um preço. Talvez por isso seja tão evitada.

No fundo, a pergunta não é apenas se ouvimos nossos clientes, nossos pacientes, nossos parceiros ou nossos filhos. A pergunta é mais radical e mais incômoda. Estamos dispostos a abrir mão da nossa resposta pronta para acolher a pergunta do outro? Estamos dispostos a ver sem já saber o que estamos vendo?

Escutar, afinal, não é um talento raro. É uma escolha ética. Uma forma de estar no mundo que reconhece no outro não um problema a ser resolvido, mas uma presença que merece atenção. E talvez seja justamente aí, nesse gesto simples e exigente, que algo do humano ainda resista.

  • Han, B.-C. (2015). A sociedade do cansaço.
  • Han, B.-C. (2020). Psicopolítica: O neoliberalismo e as novas técnicas de poder.
  • Rosa, H. (2019). Ressonância: Uma sociologia da relação com o mundo.
  • Dejours, C. (2011). A banalização da injustiça social.

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