Há algo no trabalho que escapa às planilhas, aos manuais, às metas bem formuladas. Algo que não aparece nos relatórios, mas insiste no corpo. Uma tensão que se acumula nos ombros. Um cansaço que não se explica apenas pelo número de horas. Um incômodo difuso, por vezes silencioso, que não encontra facilmente palavras.
Trabalhar não é apenas executar tarefas. É enfrentar o real. E o real, como nos lembra Christophe Dejours, é aquilo que resiste ao que foi previsto. O que falha. O que escapa. O que exige improviso, inteligência prática, invenção cotidiana. Entre o que é prescrito e o que efetivamente acontece, abre-se uma lacuna. É ali que o sujeito entra em cena.
Nenhum trabalho funciona apenas pela obediência. Se todos seguissem rigorosamente as normas, muitas organizações simplesmente parariam. O trabalho acontece porque alguém acrescenta algo de si. Um gesto, uma decisão, um ajuste fino, uma solução encontrada no corpo antes mesmo de ser formulada em pensamento. Esse acréscimo é invisível, mas decisivo.
É também nesse ponto que o sofrimento começa a se insinuar.
Não porque trabalhar seja, em si, patológico. Mas porque o trabalho convoca o sujeito inteiro. Corpo, afetos, desejo, medo, inteligência. Trabalhar é se expor. É aceitar não saber tudo de antemão. É correr o risco do erro, da crítica, do fracasso. É investir energia psíquica em algo que nunca está totalmente sob controle.
Quando esse investimento encontra reconhecimento, cooperação e sentido, o trabalho pode se tornar um operador de construção subjetiva. Quando encontra silêncio, negação ou violência simbólica, ele se transforma em desgaste, cinismo ou adoecimento.
Há trabalhos que pedem muito e devolvem pouco. Há outros que devolvem números, mas retiram dignidade. Há ambientes em que o esforço é tratado apenas como obrigação, nunca como inteligência. E há contextos em que o sofrimento precisa ser negado para que a engrenagem continue girando.

O problema é que o sofrimento não desaparece quando é negado. Ele apenas se desloca.
O corpo percebe antes que o discurso se organize. Ele registra tensões, acumula sinais, responde por vias que antecedem a consciência. Quando não encontra espaço de elaboração, o que foi vivido no trabalho retorna sob a forma de fadiga persistente, irritabilidade, apatia ou sintomas que parecem individuais, mas carregam uma história coletiva.
Dejours insiste em algo incômodo para as lógicas tradicionais de gestão: o trabalho mobiliza um corpo que não é apenas fisiológico, mas também pulsional, afetivo, atravessado por desejo e excitação. Trabalhar é dar destino à energia psíquica. É transformar tensão em gesto, impasse em solução possível, angústia em criação. Quando esse destino é bloqueado, a energia não se dissolve. Ela retorna, muitas vezes de forma mais dura.
Por isso, reduzir o trabalho a desempenho é empobrecer a experiência humana. Medir resultados sem olhar para o caminho que os produziu é ignorar o essencial. Entre o que aparece e o que sustenta, há uma distância que costuma ser paga pelo sujeito.
E aqui surge um ponto decisivo: ninguém trabalha sozinho, mesmo quando parece trabalhar sozinho.
Todo trabalho é, em alguma medida, coletivo. Depende de outros, dialoga com outros, entra em fricção com outros. A cooperação não é apenas um recurso organizacional. É uma forma de civilidade. Um modo de viver junto. Cooperar exige confiança, renúncia, negociação, reconhecimento das diferenças. Exige aceitar que o outro vê o real de um lugar que não é o meu.
Quando a cooperação falha, emergem defesas. Silêncios estratégicos. Cinismos compartilhados. Ideologias que anestesiam. O coletivo deixa de ser espaço de sustentação e passa a funcionar como campo de sobrevivência. Trabalha-se, mas não se fala. Produz-se, mas não se reconhece. Vive-se, mas com laços frágeis.
Nesse ponto, o trabalho deixa de ser apenas uma atividade econômica e se torna um problema ético e político.
Porque o modo como trabalhamos molda o modo como convivemos. Não apenas dentro das organizações, mas fora delas. O empobrecimento dos espaços de deliberação no trabalho empobrece também a vida democrática. Aprende-se a obedecer mais do que a pensar junto. Aprende-se a cumprir mais do que a discutir o real.
É aqui que o pensamento de Edgar Morin se mostra particularmente fecundo. Morin nos lembra que o humano é complexo, contraditório, tecido de dimensões inseparáveis. Separar técnica de ética, eficiência de experiência subjetiva, é uma simplificação confortável e perigosa.
O trabalho é um desses lugares em que a complexidade se impõe. Nele convivem criação e repetição, autonomia e submissão, prazer e sofrimento. Reduzi-lo a uma única lógica é violentar o real.
Pensar o trabalho exige aceitar a incerteza. Exige abandonar respostas prontas. Exige sustentar perguntas que não cabem em formulários:
O que este trabalho faz com quem o realiza?
Que tipo de sujeito ele produz?
Que silêncios ele exige?
Que renúncias ele impõe, e a quem?
Honrar a vida pelo trabalho, como propõe Dejours, não é romantizar o esforço nem transformar sofrimento em virtude. É reconhecer que o trabalho é um dos lugares em que a vida se decide. Onde o sujeito pode se ampliar ou se reduzir. Onde pode encontrar reconhecimento ou se afastar de si.
Talvez um dos maiores riscos contemporâneos não seja apenas o excesso de exigência explícita, mas a naturalização do desgaste. A transformação do cansaço em norma. A estética da sobrecarga. A crença de que bastam motivação e resiliência para sustentar qualquer contexto.
O corpo, no entanto, não é infinito. O desejo não é inesgotável. E o silêncio cobra seu preço.
Este texto não pretende oferecer respostas fechadas nem soluções imediatas. Ele propõe uma pausa reflexiva. Um convite a olhar o trabalho para além do que é mensurável, a escutar o que insiste no corpo, a reconhecer o que se passa nos coletivos e a recolocar o trabalho no centro de uma reflexão ética sobre a vida comum.
Pensar o trabalho com seriedade é aceitar que ele pode adoecer ou emancipar, empobrecer ou enriquecer, calar ou produzir palavra. Entre esses destinos, há escolhas, arranjos, responsabilidades e possibilidades que não são neutras.
E é justamente aí que começa algo essencial.
Referências
- Dejours, C. (2015). A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez.
- Dejours, C. (2022). Trabalho vivo I: sexualidade e trabalho. São Paulo: Blucher.
- Dejours, C. (2022). Trabalho vivo II: trabalho e emancipação. São Paulo: Blucher.
- Dejours, C. (2025). O que há de melhor em nós: trabalhar e honrar a vida. São Paulo: Blucher.
- Morin, E. (2015). Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegra: Sulina.
- Morin, E. (2018). Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez.


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