O espancamento de um animal como sintoma social

Há fatos que não pedem apenas indignação. Pedem pensamento. A morte brutal de um cão, espancado até o fim, não é apenas um crime contra um animal. É um sintoma. E sintomas não gritam sozinhos: eles denunciam aquilo que já vinha adoecendo em silêncio.

É tentador tratar esse episódio como exceção, localizar o mal em alguns indivíduos, repetir a palavra “monstruoso” e seguir adiante. Esse gesto, tão comum quanto confortável, nos absolve rapidamente. O problema é que ele não explica nada. E pior: impede que pensemos.

Quando jovens são capazes de exercer tamanha violência contra um ser indefeso, não estamos diante de um desvio isolado, mas diante de uma pergunta incômoda sobre a fragilidade daquilo que chamamos de civilização. A ordem social não é uma estrutura sólida e permanente. Ela é um acordo frágil, sustentado diariamente por valores transmitidos, exemplos vividos e limites claros. Quando esse acordo afrouxa, a barbárie não precisa ser inventada. Ela apenas reaparece.

Os dados sobre o aumento de maus-tratos contra animais não surpreendem. Eles acompanham uma época marcada pela banalização da violência, pela dificuldade de sustentar empatia e pela transformação do sofrimento em espetáculo. Vivemos em uma cultura que reage mais rápido à quebra de um celular do que à quebra de um vínculo. A vida vulnerável se tornou descartável demais para uma sociedade que valoriza desempenho, força e visibilidade.

O animal ocupa, nesse cenário, um lugar revelador. Ele sente, mas não argumenta. Confia, mas não denuncia. Depende, mas não reivindica. É a vida exposta em seu grau máximo de vulnerabilidade. E toda sociedade revela seu grau de civilização justamente na forma como trata aqueles que não podem se defender.

Os cães, em especial, nos confrontam com algo que desaprendemos. Eles oferecem presença sem cálculo, afeto sem contrato, lealdade sem garantia. Um cão não pergunta se merece amor. Ele simplesmente confia. Reconhece o rosto, o cheiro, a rotina. Permanece. Essa permanência, tão simples, torna-se desconcertante em um mundo habituado à troca, à condição e ao descarte.

A violência contra um cão não é apenas física. É simbólica. É a negação radical do cuidado. É a ruptura de um pacto silencioso entre quem confia e quem deveria proteger. Quando esse pacto se rompe com tamanha facilidade, algo maior já estava fraturado antes do golpe final.

Trazer leituras psicológicas ou sociais não significa justificar. Explicar não é absolver. Pensar não é amenizar culpa. Pelo contrário. Pensar amplia a responsabilidade. Obriga-nos a sair do conforto da indignação passageira e a olhar para os contextos que permitiram que tal ato se tornasse possível.

Que referências esses jovens receberam sobre limite, empatia e valor da vida. Que exemplos observaram. Que violências foram naturalizadas em casa, na escola, nas telas, nas piadas, nos silêncios. Não se trata de diluir responsabilidades, mas de reconhecer que ninguém se forma no vazio.

A pergunta decisiva não é apenas quem fez. É quem deixou de ensinar. Quem confundiu liberdade com ausência. Quem acreditou que educar era apenas prover, vigiar ou entreter. Pais, educadores, instituições e comunidades inteiras participam, direta ou indiretamente, da construção do campo onde certos atos se tornam possíveis.

Gostamos de acreditar que a barbárie está sempre distante, associada a contextos extremos ou a tempos sombrios já superados. Essa crença nos tranquiliza. Mas a história insiste em mostrar o contrário. A barbárie costuma emergir quando a normalidade segue intacta, quando ninguém interrompe, quando tudo continua funcionando.

Talvez o aspecto mais inquietante desses episódios seja a rapidez com que seguimos adiante depois do choque inicial. A indignação dura pouco. O cotidiano exige retorno. O sistema agradece. E assim vamos nos acostumando a conviver com fissuras éticas profundas, chamando isso de ordem.

Resta, então, a pergunta que não oferece conforto. O que estamos nos tornando quando a vida frágil deixa de nos comover? O que estamos ensinando quando não ensinamos cuidado? O que sobra de humanidade quando a violência contra quem depende de nós encontra espaço para se repetir?

Toda sociedade é julgada, cedo ou tarde, não pela forma como trata os fortes, mas pelo destino que reserva aos vulneráveis. Os animais, silenciosos e confiantes, continuam a nos observar. A pergunta permanece aberta: ainda somos capazes de sustentar a responsabilidade que essa confiança exige?


Orelha tinha dez anos
e sabia pouco do mundo,
mas o suficiente.

Sabia o chão das ruas,
o horário morno do sol,
o som dos passos amigos,
a mão que, às vezes,
vinha sem pedir nada.

Era um cão comunitário,
essa forma bonita
de pertencer a muitos
sem ser posse de ninguém.
Talvez por isso fosse tão inteiro
na maneira de confiar.

Orelha atravessava os dias
com uma alegria discreta,
dessas que não fazem barulho
e por isso passam despercebidas.
Não exigia atenção,
oferecia presença.

Confiava.
E isso, sabemos,
é uma forma delicada de coragem.

Um dia, o mundo falhou.
Não como nas grandes tragédias,
mas como falham as coisas comuns,
por descuido,
por brutalidade sem pensamento,
por mãos que esqueceram
o peso de um gesto.

Encontraram Orelha ferido,
no limiar onde a dor esquece a própria linguagem,
suspenso entre ficar e partir,
mais próximo do silêncio
do que de qualquer promessa de retorno.

Não houve espetáculo.
Houve silêncio.
E uma despedida feita
do jeito que ele sempre viveu:
sem alarde,
sem acusações,
confiando até o fim.

Orelha partiu
como vivem os cães:
oferecendo aquilo que tinham de melhor.

E nós seguimos,
com nossas ruas,
nossos horários,
nossas pressas.

Mas fica uma ausência mansa,
dessas que não gritam,
mas acompanham.

Fica a lembrança
de que cuidar é simples,
mas exige presença.

E fica essa pergunta quieta,
que não acusa,
apenas espera:
que tipo de mundo estamos construindo
quando um cão que confiou
não encontrou quem o protegesse?


Deixe um comentário

Eu sou Renne

Boas vindas! Este não é um site de respostas rápidas, é um espaço de escuta e reflexão…

Aqui, a psicologia e a psicanálise não aparecem como manuais de comportamento, mas como modos de pensar a experiência humana, suas contradições, seus impasses e suas delicadezas.

Então, se quiser, pegue um café ou uma água de coco e deixe que os textos encontrem o seu tempo.