Trabalhar é prazer.
Pelo menos é o que dizem — geralmente os mesmos que inventaram o imposto de renda, o sapato apertado e a “festa obrigatória” da firma.
Há décadas ouvimos a ladainha: “Se você ama o que faz, nunca terá que trabalhar um único dia na vida.” Fofo, não? Até perceber que esse slogan funciona mesmo é para quem recebe seus esforços convertidos em dividendos. A verdadeira questão talvez não seja se o trabalho pode dar prazer. Talvez seja se apenas aprendemos a chamar de “prazer” aquilo que é suportável o bastante para nos fazer atravessar a segunda-feira sem tacar fogo na impressora do escritório.

1. Freud na linha de frente
Muito antes dos escritórios modernos — com sua luz fluorescente, aplicativos de bem-estar corporativo e PowerPoints intermináveis — o prazer era um assunto bem mais simples. Para Freud, tudo começava nos primeiros estágios da vida: a satisfação do bebê ao mamar (oral), o orgulho do controle (anal), as primeiras curiosidades excitantes do corpo (fálico), a espera silenciosa e interminável (latência) e, por fim, a orquestra completa do desejo na vida adulta (genital).
Prazer era visceral, tátil, descaradamente egoísta. Sentia-se na boca, na pele, nos músculos, nos ossos. Depois, à medida que crescemos e as regras da civilização apertaram o cinto, essa alegria bruta foi sendo redirecionada — domesticada, envernizada. O desejo precisou vestir terno e aprender a apertar mãos.
Mesmo no trabalho, vestígios desses prazeres primários persistem. O frio na barriga de “possuir” um projeto. A satisfação de controlar tarefas, prazos ou pessoas. O alívio depois de cumprir uma meta — tão físico quanto aliviar uma necessidade corporal. Achamos que estamos perseguindo produtividade, mas, na verdade, seguimos caçando ecos desses prazeres infantis, agora traduzidos em jargão corporativo.
E aí vem a virada: assim como o bebê descobria a delícia de movimentar suas próprias mãos, o adulto descobre a alegria de manipular a própria mente. É aqui que o prazer corporal dá lugar ao prazer mental — elegante, higienizado, pronto para virar célula de planilha.
2. Do gozo sensorial ao prazer produtivo
Assim como o corpo buscava prazer em saciar fome ou curiosidade, a mente aprende a encontrá-lo em criar, resolver problemas, deixar marcas. O artesão que lixa a madeira, o programador que encontra uma linha de código elegante, a professora que vê o brilho nos olhos do aluno — no fundo, não são tão diferentes da criança que se encanta com o barulho do chocalho. O meio muda; o circuito de satisfação continua o mesmo.
O problema começa quando esse prazer intelectual/produtivo é sequestrado. O que era alegria de criar vira obrigação de entregar. A euforia de terminar um projeto se reduz ao alívio ansioso de evitar bronca. Entre a arte de fazer e a pressão de produzir, o prazer é aparado, empacotado e vendido de volta como “estratégia de motivação”.
Aqui, Sloterdijk entra com sua leitura do cinismo moderno: sabemos que o jogo é manipulado — mas seguimos jogando. Sabemos que o tal “propósito” é narrativa enfeitada para transformar exploração em “realização pessoal”. Não somos ingênuos, somos cúmplices. Como jogadores de caça-níquel, puxamos a alavanca porque, vez ou outra, ainda sentimos aquele estalo de satisfação autêntica.
E é assim que chegamos à era atual: um tempo em que não basta trabalhar, é preciso exibir prazer enquanto trabalha. Um tempo em que o prazer não é só algo que você sente — é algo que precisa performar.
3. A sociedade do desempenho — Byung-Chul Han encontra Baudrillard
Era uma vez o trabalho disciplinar: chegar, cumprir, obedecer. Hoje isso não basta. Agora você precisa ser sua própria marca, seu próprio gestor, seu próprio departamento de marketing. Não basta trabalhar — é preciso performar. E, como todo bom artista, aparentar estar feliz com o espetáculo.
Byung-Chul Han chama isso de sociedade do desempenho: um mundo onde o chicote não está mais na mão do chefe, mas implantado na sua cabeça. Você se cobra mais do que qualquer capataz. E a exaustão? Não é sintoma de colapso, mas medalha de ouro — um troféu no LinkedIn.
É aí que Baudrillard entra rindo de canto: muito do prazer que dizemos sentir no trabalho é simulado. Não é o real, é cópia da ideia de prazer — uma encenação corporativa.
Selfies sorridentes no coworking. Fotos de “sexta casual” com cerveja artesanal. Treinamentos motivacionais com hashtags. A aparência de alegria cuidadosamente arrumada sobre o zumbido mecânico da engrenagem.
Postamos, curtimos, acreditamos — o suficiente para manter a roda girando. Mas, no fundo, sabemos: não é o mesmo prazer. É cenografia, luz cênica disfarçando a engrenagem fria.
E, de vez em quando, a cortina cai. É aí que surge a história que vou contar: a de alguém que pensava amar o trabalho — até descobrir que estava apenas decorando a própria cela.
4. Uma pequena fábula irônica
Conheça o Daniel. Trinta e dois anos, criativo, talentoso. Acreditava no trabalho como crianças acreditam em mágica — total, sem ironia. Ficava até tarde não porque precisava, mas porque queria. Falava de “projetos” com a mesma empolgação que outros reservam para viagens ou amores.
Até que, numa terça qualquer, Daniel acordou com uma suspeita incômoda: seu “prazer” não passava de síndrome de Estocolmo de gravata. A percepção não foi explosiva, mas um friozinho que entra pela janela mal fechada.
Às 9h, a reunião de alinhamento onde ninguém se alinha. Às 10h30, a sexta revisão do mesmo slide porque “a gerência não sentiu firmeza”. Às 15h15, a notificação do app corporativo de bem-estar: “Trabalhe em silêncio e deixe o sucesso fazer barulho.” Daniel olhou para a tela e se perguntou por que esse sucesso falava sempre com voz alheia.
À noite, fechando o laptop, percebeu: nada do que fazia mudava o mundo — apenas a planilha do acionista. E não sentiu raiva nem traição. Só cansaço. Um cansaço que fim de semana não cura.
Não pediu demissão. Não ainda. Mas, dali em diante, o café durava mais, o sorriso nas fotos de equipe parecia um esgar, e, de vez em quando, ele saía para um almoço demorado só para observar pombos no parque. Não era liberdade, mas uma rachadura no muro.

5. Reflexão final — entre prazer e sobrevivência
Voltamos à pergunta: existe prazer no trabalho ou só aprendemos a gostar de uma versão domesticada, microchipada e aprovada pelo RH?
Freud, sempre o convidado inconveniente, lembraria que a civilização exige esse tipo de troca: abrir mão de instintos crus em nome da convivência. Mas ele também acreditava nos prazeres da ciência, da arte, da criação — alegrias que não só distraem da sobrevivência, mas a justificam. Prazeres que não se dobram a relatórios trimestrais. Tente colocar a alegria de pintar à meia-noite num formulário de avaliação. Coragem.
Talvez essa seja a diferença: o prazer que cabe num KPI raramente é o que tira o fôlego. O sorriso planilhável nunca alcança a malícia silenciosa de fazer algo só para si. O poema escrito entre duas reuniões de orçamento. A tarde preguiçosa aprendendo uma música que ninguém vai ouvir. A delícia clandestina de sair para tomar café sem celular, sabendo que há um “responder a todos” pegando fogo na caixa de entrada.
No fim, talvez a única liberdade real no trabalho seja essa: reconquistar pedaços dele em silêncio, sem alarde. Sair da ribalta corporativa e, ainda que por minutos, se esconder nas coxias, onde ninguém aplaude e, finalmente, poder ouvir os próprios pensamentos.
Se o trabalho liberta — como proclamavam slogans sombrios — talvez a chave esteja em usar essa liberdade para, de vez em quando, escapar. Sem pedir licença. Sem avisar para onde vai.
E o mais perturbador é isso: a ideia de que o prazer — o prazer real, indomável — talvez não tenha nada a ver com o que nos pagam para fazer. Que ele viva em outros cantos, secretos, roubados, indiferente a cargos e missões institucionais.
E surge a pergunta incômoda: se amanhã você acordasse e descobrisse que nada do que faz importa para ninguém além de você… continuaria fazendo? Ou finalmente lembraria daquilo que sempre quis fazer?
Referências
Baudrillard, J. (1994). Simulacra and simulation (S. F. Glaser, Trans.). University of Michigan Press. (Original work published 1981)
Freud, S. (2010). Civilization and its discontents (J. Strachey, Trans.). W. W. Norton & Company. (Original work published 1930)
Han, B.-C. (2015). The burnout society (E. Butler, Trans.). Stanford University Press. (Original work published 2010)
Sloterdijk, P. (1987). Critique of cynical reason (M. Eldred, Trans.). University of Minnesota Press.


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