Há algo de estranho na forma como consumimos tragédias hoje. Elas chegam como notificações: rápidas, intensas, irresistíveis. Antes que possamos sentir, já deslizamos o dedo, seguimos para o próximo vídeo, o próximo escândalo, o próximo corpo exposto na arena digital. É um espetáculo sem intervalo. E, enquanto a vida se desenrola em segundos, algo silenciosamente se perde: o tempo de pensar, o espaço da dúvida.
Carmen, a cigarreira indomável de Bizet, não pertence mais à Sevilha de 1875. Ela está nos feeds, dançando uma habanera para milhares de seguidores, desafiando quem tenta aprisioná-la. Sua liberdade não cabe em legendas, mas sua imagem cabe perfeitamente em stories de alguns segundos. Quando Don José a mata, não é apenas um homem destruindo uma mulher: é a câmera que registra, o público que comenta, os algoritmos que multiplicam. Carmen não morre sozinha. Ela morre em rede, em looping, eternamente replicada.
Do outro lado, distante do sangue explícito, está Capitu. Seus olhos, “oblíquos e dissimulados”, continuam a nos encarar do século XIX, não por meio de uma foto, mas de uma pergunta que nunca se resolve: traiu ou não traiu? Capitu vive na penumbra da dúvida, onde o silêncio é mais ruidoso do que qualquer grito.
É curioso pensar que, se Bentinho e Capitu vivessem hoje, talvez não houvesse mistério algum. Haveria prints, áudios vazados, threads inflamadas. A dúvida se perderia em hashtags: #TeamCapitu, #TeamBentinho. A beleza do “não saber” seria engolida pelo apetite voraz da opinião instantânea. No lugar do enigma, teríamos enquetes no Instagram, porcentagens, certezas fabricadas por votos digitais. O tribunal popular não deixaria espaço para devaneios — apenas para veredictos.
Carmen e Capitu são opostos complementares. Carmen é o corpo que explode, a tragédia sem metáforas. Capitu é a sombra que insinua, o veneno lento da suspeita. Entre elas, talvez estejamos nós, habitantes de um mundo binário, onde tudo precisa ser sim ou não, certo ou errado, 0 ou 1. As redes sociais não suportam nuances. A dúvida não gera engajamento suficiente. O silêncio não produz likes.
E, no entanto, o humano nasce exatamente desse lugar cinzento. É na incerteza que florescem a criatividade, a arte, a psicanálise, a poesia. Quando Carmen lê as cartas e vê a morte, ela aceita seu destino com a coragem dos que sabem que não há como voltar atrás. Mas nós, que já não consultamos cartas, vivemos como se o destino estivesse programado pelos algoritmos.
Não vemos símbolos, vemos notificações. Não vemos o presságio, vemos a estatística.
Talvez por isso estejamos todos um pouco entorpecidos. Não é que faltem tragédias — pelo contrário, elas estão por toda parte, em telas pequenas que carregamos no bolso. O que falta é o intervalo, a respiração. No século XIX, Bentinho passava anos remoendo uma dúvida, transformando-a em narrativa, em linguagem, em loucura poética. Hoje, bastam dois minutos para que a dúvida seja esmagada por uma avalanche de comentários. A tragédia, quando se torna instantânea, deixa de ser experiência e vira consumo.
Quantas Carmens já vimos morrer hoje, enquanto rolávamos a tela? Quantas Capitus foram julgadas, inocentadas ou condenadas antes mesmo que alguém pudesse ouvir sua voz? Há algo de profundamente inquietante nesse tempo em que tudo se mostra e nada se revela. A exposição extrema não ilumina — ela cega. Talvez por isso a dúvida seja hoje um ato de resistência. Duvide do vídeo editado, do post viral, da narrativa perfeita. Duvide até mesmo da sua própria certeza, tão bem alimentada por bolhas digitais.
Carmen nos lembra que a liberdade tem um preço, e muitas vezes ele é cobrado em sangue. Capitu nos sussurra que a verdade nunca é absoluta, e talvez nem exista. E nós, espectadores, precisamos escolher: seremos a multidão que grita na arena, pedindo o próximo espetáculo, ou teremos coragem de sustentar o silêncio desconfortável da dúvida?
No fim, talvez não haja resposta.
A dúvida não se resolve, apenas se habita.
Como na última nota da ópera, Carmen jaz no chão e a multidão aplaude, sem saber se celebra ou lamenta.
Como na última página de Dom Casmurro, quando ainda sentimos os olhos de Capitu nos fitando, oblíquos, de algum lugar entre a ficção e a nossa própria consciência.
E talvez este texto seja também um espetáculo barato,
um fio de voz perdido na ventania,
um ruído entre milhões de ruídos.
Ou, quem sabe, uma hashtag qualquer, afogada em um mar de outras.
Talvez seja só dúvida.
Ou pior: talvez seja uma certeza disfarçada, esperando por aplausos ou cancelamentos.
Eu não sei.
Você sabe?
Ou prefere deslizar a tela e seguir adiante, como quem troca de cena,
sem perceber que, enquanto você rola,
talvez seja você quem está sendo lido?

Referências
- Machado de Assis. Dom Casmurro. (1899).
- Georges Bizet. Carmen. Opera premiered in 1875.


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