Há dias em que o mundo parece falar alto demais. Cada voz se quer definitiva, cada opinião carrega a fome de um veredito. Vivemos cercados de convicções instantâneas — certezas embaladas a vácuo, prontas para o consumo rápido. A pressa se tornou o novo credo. E no meio dessa pressa, sinto o pensamento se perder, feito pássaro que esqueceu o caminho de volta ao ninho.
Penso em Edgar Morin, e em sua velha e ainda jovem ideia de uma cabeça bem-feita. Não aquela cheia de saberes empilhados como caixas num depósito — mas uma cabeça que saiba fazer ligações, desenhar pontes, reconhecer o parentesco entre as coisas. Hoje, talvez, sofremos de um outro tipo de miséria: o excesso de informação e a carência de sentido. Sabemos de tudo e compreendemos quase nada. A inteligência, desnutrida de reflexão, tornou-se músculo exibido. Pensar virou performance.
Montaigne dizia que mais vale uma cabeça bem-feita do que uma cabeça bem-cheia. Mas hoje, as cabeças estão tão cheias que quase não há espaço para o ar. As ideias não respiram; apenas se repetem. E a dúvida — esse pequeno sopro que faz o pensamento se mover — foi transformada em suspeita, em fraqueza, em hesitação. Ninguém duvida mais. E quando alguém duvida, o mundo grita: “decida-se!”.
Mas a dúvida é a respiração da alma. É ela quem impede o pensamento de apodrecer em certezas.
Leopold Nosek, psicanalista que pensa com a liberdade de quem sonha, disse que vivemos uma epidemia de convicções. E é verdade: as crenças se multiplicam, mas a fé nas perguntas desaparece. As pessoas não querem mais compreender — querem confirmar. E nesse desejo de confirmar, acabam perdendo o horizonte. Nosek fala em “multidão de precarizados”: não apenas precarizados de renda, mas de sentido. Gente sem norte, sem demora, sem pausa.
Há uma imagem dele que não me sai da cabeça: a dos nômades que, ao retornar à aldeia, param antes de entrar, esperando a alma chegar. O corpo chega primeiro, a alma vem depois. Talvez seja isso o que vivemos — uma defasagem entre corpo e alma, entre o ritmo do mundo e o tempo do entendimento. As notícias, as imagens, as catástrofes, as opiniões — tudo chega antes de nós. E nossa alma, cansada, tenta nos alcançar correndo.
A cabeça bem-feita seria, então, esse intervalo necessário entre o acontecimento e o sentido. Um modo de pensar que sabe esperar. Que sabe duvidar. Que sabe desmontar e remontar as próprias equações.
Porque pensar não é resolver: é organizar o caos. E é isso que a psicanálise faz — ela não cura a alma de seus enigmas, apenas os reordena. Nosek chama de “montar a equação”. Uma análise, diz ele, melhora a qualidade das perguntas. É um modo bonito de dizer que o pensamento é feito de perguntas bem-feitas, não de respostas prontas.
Eu diria que uma cabeça bem-feita é uma cabeça que aceita não saber. Que entende que há perguntas que não se respondem, apenas se vivem. Essa é a arte da complexidade de Morin — uma arte de costurar o diverso, de perceber o invisível, de transitar entre o que parece contraditório. Uma cabeça bem-feita não teme a contradição, porque sabe que nela mora a verdade mais viva.
Quando penso nisso, lembro que o mundo anda com pressa de decidir tudo.
O amor, o ódio, a política, o outro. As redes pedem urgência, pedem sentenças curtas, pedem que a gente saiba — mesmo sem saber. E a dúvida, exilada, vagueia pelas entrelinhas.
Mas a cabeça bem-feita é aquela que ainda se permite errar o caminho. Que para antes de entrar, como o nômade de Nosek, esperando que o corpo e a alma se reencontrem.
Penso que o futuro, se quiser continuar humano, precisará reaprender a fazer perguntas. Talvez o novo humanismo comece com uma pedagogia da incerteza. Ensinar as crianças — e os adultos — a duvidar do sabido, a des-saber o sabido, como dizia Juan de Mairena. A duvidar da própria dúvida, se preciso. Porque só assim nasce uma crença verdadeira: aquela que vem depois do abismo.
O sonho, lembra Nosek, é o primórdio do pensamento. Ele é o que pensamos antes de pensar. E talvez o pensamento do futuro precise sonhar de novo. Sonhar com o que ainda não sabemos dizer, mas já sentimos chegar. A cabeça bem-feita é essa que sonha e pensa ao mesmo tempo: que duvida, que organiza, que desmonta e remonta o mundo em silêncio.
Hoje, quando tudo parece fragmentado — a política, a verdade, o tempo, a fé — talvez o ato mais revolucionário seja não ter certeza. Ser capaz de dizer: “não sei, mas quero compreender”. Talvez essa seja a única honestidade possível num tempo em que todos fingem saber demais.
Morin tinha razão: mais vale uma cabeça bem-feita. Mas Nosek me convence do porquê — porque uma cabeça bem-feita é a que monta sua própria equação, sabendo que ela nunca estará resolvida.
E eu penso — ou talvez sonhe — que o mundo não precisa de mais certezas.
Precisa de gente que saiba esperar a alma chegar.

Referências
Morin, E. (2025). A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento (Edição comemorativa). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
Pascal, B. (1670/2005). Pensées [Pensamentos].
Montaigne, M. de. (1580/2006). Os ensaios.
Machado, A. (1929/2017). Juan de Mairena: sentencias, donaires, apuntes y recuerdos de un profesor apócrifo.
Nosek, L. (2025, 3 de outubro). Leopold Nosek critica pensamentos rasos: ‘A psicanálise é a antítese da autoajuda’. Veja São Paulo, edição nº 2964.
Disponível em: https://vejasp.abril.com.br/cultura-lazer/leopold-nosek-critica-pensamentos-rasos-a-psicanalise-e-a-antitese-da-autoajuda/


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