A valsa

Pina Bausch

As luzes se acendem como se o tempo respirasse. O salão é vasto, e o ar traz um perfume antigo de verniz e expectativa. Os pares se formam pouco a pouco — uns se procuram com os olhos, outros esperam, imóveis, que alguém atravesse a distância e estenda a mão. A orquestra afina os instrumentos, e por um instante há silêncio: o breve instante antes de qualquer começo, onde o mundo parece conter a respiração.

Então, o primeiro compasso. Um, dois, três.
E o chão começa a girar.

A valsa é isso: uma conversa sem palavras, uma entrega que exige escuta. Dois corpos que se movem como se o universo, por alguns minutos, tivesse apenas aquele centro — a frágil linha que liga um olhar ao outro. Não há valsa possível sem confiança: quem conduz precisa sentir o peso e o impulso do outro, quem é conduzido precisa confiar na direção invisível de um gesto. O erro de um vira o tropeço dos dois. Mas quando o compasso se acerta, o tempo desaparece. Só resta o giro — a fluidez que faz do movimento uma forma de oração.

Dançar é aceitar o convite da vida para o imprevisto. Podemos nos preparar, escolher a roupa, ensaiar os passos, decorar o compasso, mas jamais saberemos qual música tocará quando o baile começar. Às vezes somos quem convida; noutras, quem espera o convite. Há noites em que o salão se abre inteiro para nós, e outras em que dançamos sozinhos, ao som que só o coração ouve. O segredo não está em prever, mas em se deixar mover.

Talvez o mundo corporativo seja um desses bailes que se esqueceram da música. Lá, muitos dançam apenas para não parecer parados. Cumprimentam, giram, repetem coreografias aprendidas em manuais de etiqueta profissional, temendo perder o ritmo imposto por quem segura o metrônomo invisível da produtividade. As voltas são tantas que se esquece de sentir o chão. Confunde-se movimento com sentido. E o corpo — esse instrumento primeiro da dança — torna-se uma máquina que gira sem alma, um par de sapatos que gira por costume. O baile segue, mas já não há valsa: há cálculo, há pressa, há metas que não sabem o que é melodia.

O casamento também é uma forma de valsa — não aquela dos salões dourados, mas a que se dança na cozinha, entre o café e o cansaço. No início, há o encanto dos giros e das descobertas: dois aprendizes de harmonia, tropeçando e rindo juntos. Depois vêm os dias de ritmo desigual, quando um quer dançar e o outro apenas repousar; quando a música muda e o corpo não acompanha. Amar é continuar dançando mesmo quando o compasso se perde — às vezes conduzindo, às vezes sendo conduzido, às vezes apenas sustentando o silêncio até que o ritmo volte. A valsa da convivência é lenta, imperfeita, cheia de pausas que são também formas de permanecer.

E há a dança maior — a da própria vida. Um baile sem ensaio, onde o maestro é o acaso. Podemos estudar os passos, planejar as entradas, sonhar com a próxima música, mas sempre há algo que escapa ao controle. O chão pode se abrir, o parceiro pode se ausentar, o som pode falhar. E ainda assim, é preciso continuar girando. Porque viver é isso: um ato de coragem ritmado pelo inesperado. A cada giro, algo em nós se perde e algo se encontra. Cada passo contém o risco e o milagre do desequilíbrio.

Há quem queira transformar a vida em coreografia perfeita — sem tropeços, sem improvisos, sem quedas. Mas a beleza da valsa está justamente no imponderável. É o quase que nos sustenta. O giro só existe porque há atrito entre os corpos e o chão. A graça não está no controle, mas na vulnerabilidade partilhada — no instante em que se percebe que o outro também teme, também erra, também gira tentando não cair. A dança é, antes de tudo, um pacto de humanidade.

Às vezes penso que o mundo perdeu a noção do compasso. Corremos demais, giramos sozinhos, tentando provar que não precisamos de par. Mas a valsa — como a vida — não se dança em solidão. Mesmo quando o outro falta, há sempre algo que nos convida: o vento, a música distante, o rumor do próprio coração. Dançar é aceitar esse chamado, é responder com o corpo ao que a alma sussurra: continue.

E talvez, no fim de tudo, o baile seja apenas isso — uma metáfora do existir. Viemos ao salão sem saber quem seremos nessa noite: se o que conduz, o que segue, ou o que observa. A música começa sem aviso, e quando percebemos, já estamos girando, atraídos por uma força que é anterior a qualquer escolha. Giramos até que o corpo se canse, até que o som se desfaça no ar, e o salão volte ao silêncio. E nesse instante, antes que as luzes se apaguem, compreendemos: não dançávamos sobre o chão, mas sobre o tempo.

Porque dançar — viver — é estar em movimento.
E o movimento, ainda que breve, é a forma mais bonita que o efêmero encontrou para existir.


À mulher que aceitou dançar a vida comigo — sem saber o ritmo, sem prometer o passo certo, e que, todos os dias, acredita no riso breve e na vertigem de existir em par.

Uma resposta a “A valsa”

  1. Avatar de The Waltz – Renne Nunes

    […] November 3, 2025 Versão em Português […]

    Curtir

Deixe um comentário

Eu sou Renne

Boas vindas! Este não é um site de respostas rápidas, é um espaço de escuta e reflexão…

Aqui, a psicologia e a psicanálise não aparecem como manuais de comportamento, mas como modos de pensar a experiência humana, suas contradições, seus impasses e suas delicadezas.

Então, se quiser, pegue um café ou uma água de coco e deixe que os textos encontrem o seu tempo.