Depois que terminei de ler o livro Um hino à vida, passei também a ler Eu nunca mais vou te chamar de pai, de Caroline Darian. Filha de Gisèle e Dominique Pelicot, protagonistas de um caso que, em 2024, ganhou o mundo quando Gisèle decidiu tornar público o julgamento. Caroline escreve a partir de um lugar raro: aquele em que a história não se organiza, apenas se impõe. Ao acompanhá-la, não me vi apenas diante de um relato de violência. O que apareceu foi algo mais difícil de sustentar: o colapso de uma origem.
Há experiências que não se deixam nomear de imediato. Antes disso, elas desarrumam. Acompanhar Caroline é estar diante de uma filha que descobre que o pai, figura discreta que sustentava a arquitetura silenciosa da vida, é também aquele que a compromete desde dentro. Não se trata apenas de perder um pai. Trata-se de perder a tranquilidade de reconhecer, no próprio passado, alguma forma de continuidade.
Ela não escreve como quem já compreendeu. Escreve como quem se detém, hesita, volta atrás. Há uma cautela no modo como suas palavras avançam, como se cada frase precisasse testar o chão antes de seguir. Não há promessa de superação, nem o conforto de uma narrativa organizada. O que há é tentativa. Escrever, nesse caso, parece menos um gesto de resolução do que uma forma de não se dispersar por completo.
E talvez tenha sido esse o ponto mais perturbador. Uma coisa é sofrer a violência. Outra, muito diferente, é descobrir que ela sempre esteve ali, silenciosa, no interior da própria família.
Há um momento em que a escrita de Caroline passa a pesar de outro modo. Não apenas pelo que revela, mas pelo lugar de onde ela fala. Filha da vítima. Filha do agressor. As duas posições se impõem ao mesmo tempo, sem possibilidade de síntese. É justamente aí que algo se rompe de forma mais profunda. Já não se trata apenas de lidar com a violência que vem à tona, mas de suportar o desmoronamento das referências que organizavam a própria existência. Pai deixa de ser um lugar reconhecível. Família deixa de ser um espaço de continuidade. E o passado, antes coeso, passa a se apresentar em fragmentos que já não se sustentam entre si.
Ao longo do livro, esse colapso não aparece como um gesto dramático ou definitivo, mas como um processo lento, irregular, por vezes contraditório. Caroline tenta se situar, retorna às próprias lembranças, revisita cenas que antes pareciam banais e que agora ganham outra densidade. Há um esforço constante de compreensão, acompanhado pelo reconhecimento de que certas perguntas não encontram resposta. E talvez seja isso que mais atravessa a leitura: a tentativa de reorganizar uma vida que já não se deixa organizar nos mesmos termos.
Nesse percurso, outro conflito emerge e complexifica ainda mais a experiência. Não se trata apenas da relação com o pai, mas também da relação com a mãe. Em vários momentos, Caroline se vê diante de algo que lhe escapa: a possibilidade de que Gisèle, vítima direta de toda a violência, ainda sustente algum tipo de preocupação com o homem que a violentou. Perguntas surgem, incômodas, difíceis de suportar. Como pode haver espaço para compaixão? Como é possível ainda se perguntar se ele está bem, se está aquecido, se está suportando a prisão? Para Caroline, isso se aproxima de uma forma de negação. Para a mãe, pode ser outra coisa. E é nesse desencontro que se revela mais uma camada do trauma: não apenas a perda de um pai, mas a impossibilidade de partilhar com a própria mãe uma mesma leitura do que aconteceu.
Esse deslocamento é decisivo porque rompe também a ideia de que o sofrimento produz necessariamente uma posição única. O que aparece são formas distintas de lidar com o insuportável. Nenhuma delas se apresenta como plenamente resolvida. Caroline escreve a partir de um lugar atravessado por raiva, incredulidade e necessidade de ruptura. A mãe, por sua vez, parece sustentar um vínculo que resiste de outro modo, talvez menos visível, talvez mais ambíguo. Entre as duas, não há síntese possível. Há tensão.
A escrita passa a operar de outro modo. Já não se orienta pela expectativa de esclarecer tudo, nem pela pretensão de organizar definitivamente o que aconteceu. Ela se mantém próxima do que não se resolve. Quando Caroline evoca a ideia de que escrever é se dedicar à escuridão que se carrega, não se trata de superação, mas de enfrentamento. A escrita não dissipa a experiência; ela a contorna, nomeia alguns de seus limites, aproxima-se sem a exigência de converter tudo em sentido. Talvez seja isso que a sustente: não a promessa de clareza, mas a possibilidade de não se perder completamente no meio do que ainda resiste à palavra.
O que se aprende em silêncio
Ao mergulhar nessa história, percebo que algo deixa de caber no campo do individual e passa a tocar uma zona menos confortável. Em algum momento, já não se trata apenas de acompanhar o que aconteceu com uma família, mas de reconhecer que as condições que tornaram essa violência possível não surgem do nada.
Existe uma forma de construção do masculino que opera de maneira discreta, quase imperceptível. Não começa no extremo, nem no crime. Começa muito antes, em gestos pequenos, em permissões sutis, em modos de olhar que não são interrogados. Um aprendizado que não se declara, mas se transmite. Um modo de ocupar o mundo no qual o outro, sobretudo o corpo feminino, pode ser reduzido sem que isso seja imediatamente percebido como redução.
Nada disso se impõe de forma evidente. Ao contrário, muitas vezes se apresenta como normalidade. Está na linguagem, nas expectativas, nos silêncios. Está no que se tolera, no que se relativiza, no que se deixa passar. E, pouco a pouco, vai se constituindo uma continuidade na qual certos limites deixam de ser claros.
Diante disso, torna-se difícil sustentar uma leitura que coloque essa história apenas no campo da exceção. Há algo nela que interpela de forma mais direta. Não porque todos façam o mesmo, mas porque todos, em alguma medida, foram formados dentro de uma estrutura que permite que certas coisas aconteçam sem serem imediatamente interrompidas.
Escrever a partir desse lugar não é confortável, porque exige abrir mão de uma distância que, muitas vezes, protege. Em algum momento, já não é possível falar apenas de um homem específico, nem de um caso isolado. Há um ponto em que a reflexão retorna, inevitavelmente, para quem lê. Permanecer nesse ponto, sem deslocar a questão para fora, talvez seja uma das tarefas mais difíceis e necessárias.
Então…
Eu termino esse percurso com a impressão de que não é possível permanecer no mesmo lugar. E não digo isso no sentido de um impacto momentâneo, daqueles que se dissipam com o tempo, mas de um deslocamento mais lento, mais difícil de contornar. Há algo nessa história que não permite que eu a mantenha apenas no campo do acontecimento, como se dissesse respeito apenas a uma família ou a um homem específico.
Porque, em algum ponto, a questão deixa de ser apenas o que um homem foi capaz de fazer e passa a tocar algo mais desconfortável: o que, na forma como o masculino é aprendido, transmitido e legitimado, torna certas violências possíveis antes mesmo de se tornarem visíveis? E isso não se sustenta apenas no extremo. Ao contrário, parece organizar-se em continuidades mais discretas, em modos de relação que atravessam o cotidiano, muitas vezes sem serem interrogados, até que deixam de ser apenas sinais e passam a produzir ruptura.
Eu me vejo, então, diante de um impasse que não é simples de resolver. Porque não se trata de assumir uma culpa difusa, nem de buscar uma forma rápida de posicionamento que produza alívio. Trata-se de reconhecer que não há reflexão possível sobre esse tipo de violência que se sustente completamente fora de alguma implicação. E essa implicação não é confortável. Ela exige olhar para aquilo que se aprendeu sem perceber, para aquilo que se repete sem intenção explícita, para aquilo que foi naturalizado a ponto de já não se apresentar como problema.
Se este livro me deixa com algo, não é uma conclusão, mas uma exigência: a de não reduzir essa história a um caso extremo, nem me permitir a segurança de localizá-la inteiramente fora de mim. Porque, no fim, a pergunta que permanece não diz respeito apenas ao que aconteceu com eles. Diz respeito ao que, entre nós, ainda sustenta, em silêncio, formas de relação que tornam o outro possível de ser atravessado.
E talvez o ponto mais difícil seja este: não o de compreender, mas o de decidir o que fazer com aquilo que, uma vez visto, já não pode mais ser ignorado.



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