Já era fim de tarde, daqueles momentos em que tudo parece meio suspenso, o café já não está tão quente, mas continuo segurando a xícara como se ainda estivesse. Coloco uma música, depois outra, sem muita intenção. É mais um deixar acontecer do que propriamente ouvir. E, em algum momento, sem perceber direito quando, me dou conta de um pensamento meio incômodo, meio banal, desses que parecem simples mas não são: a gente não sabe quase nada… e, ainda assim, vive como se soubesse. Ou pior, como se precisasse saber.
Fico ali, girando nisso.
A primeira música me puxa para um lugar estranho. Esse “se eu soubesse” [Si j’avais su]. Sempre no passado. Sempre depois. Como se a vida tivesse esse pequeno atraso embutido, essa espécie de descompasso entre o que acontece e o que a gente consegue entender do que aconteceu. Não é falta de informação. Não é ignorância no sentido mais óbvio. É outra coisa. Talvez uma dificuldade de estar inteiro enquanto ainda não há certeza nenhuma. Parece que no fundo, a gente até sabe algumas coisas, mas sabe tarde.
Sabe quando já não adianta mais dizer.
Quando o gesto perdeu o momento.
Quando a pessoa já não está ali do mesmo jeito.
E o curioso é que isso não impede a repetição. A gente segue vivendo como se, da próxima vez, fosse ser diferente. Como se fosse possível antecipar aquilo que, por definição, só aparece depois.
A segunda música [Ces gens-là] muda o tom. Não tem esse peso do arrependimento. Tem outra coisa, mais seca. Ali não parece haver nem tentativa de saber. As coisas simplesmente são como são. Ninguém questiona muito, ninguém se move muito. Tudo meio encaixado, meio repetido, meio aceito sem precisar ser dito. E isso me desconcerta mais do que o “se eu soubesse”.
Porque no primeiro caso ainda existe uma espécie de abertura. Um reconhecimento de que algo escapou. No segundo, não. É como se nem houvesse o que escapar. Como se a vida já viesse com um formato pronto, e qualquer desvio fosse desnecessário ou até perigoso.
Fico pensando que talvez a gente transite entre esses dois lugares sem perceber muito. Às vezes correndo atrás de entender, de prever, de não ser pego de surpresa. Às vezes se acomodando em pequenas zonas onde nada precisa ser revisto, onde as coisas seguem mais ou menos como sempre foram.
Parece-me que o ponto não seja exatamente o não saber. Talvez seja o que a gente faz com isso. Porque saber, de verdade, nunca vem sozinho. Ele mexe, desloca, desorganiza um pouco. Não é confortável. Não é algo que se acumula como quem junta informação. Tem um custo ali. E, de algum jeito, a gente sente isso E então, a gente inventa atalhos, explicações rápidas, certezas meio frágeis, ideias que ajudam a sustentar o dia sem exigir muita mudança. Não para entender melhor, mas para conseguir continuar.
No fim, fico com a impressão de que a gente vive nesse intervalo meio estranho. Entre aquilo que ainda não conseguimos ver e aquilo que, no fundo, evitamos olhar. O café já esfriou completamente e eu ainda estou aqui, com a sensação de que entender demais talvez não seja exatamente o que a gente procura. Será?



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