Acabei de ler O estrangeiro, de Albert Camus, e ainda estou tentando entender o que esse livro deixou em mim. Não foi uma leitura que terminou quando fechei a última página. Alguma coisa ficou ali, meio seca, meio incômoda, como se o romance continuasse trabalhando em silêncio. Talvez porque Camus escreva sem tentar nos consolar. Ele não explica demais, não entra em longas justificativas psicológicas, não faz esforço para tornar Meursault mais aceitável. O personagem simplesmente aparece diante de nós: trabalha, come, dorme, fuma, deseja, vai à praia, responde quando perguntam, cala quando não vê motivo para falar. E, diante de quase tudo, parece viver sob uma frase que atravessa o livro inteiro, mesmo quando não é dita exatamente assim: tanto faz.
Esse “tanto faz” me parece uma das zonas mais inquietantes do livro. Meursault não é apenas frio, cruel ou insensível. Isso seria pouco para explicar o desconforto que ele produz. O que me perturba é sua maneira de estar no mundo sem realmente fazer mundo com o mundo. A morte da mãe, o desejo de Marie, a amizade ambígua com Raymond, o trabalho, o crime, o julgamento, a própria condenação: tudo passa por ele, mas quase nada parece se alojar. A vida o atravessa com uma brutalidade quase banal, como se tocasse sua superfície e escorresse antes de virar experiência.
Logo no início, Meursault recebe a notícia da morte da mãe. Ela vivia em uma casa de repouso. Ele vai ao enterro, não chora, não quer ver o corpo. Fuma, toma café, sente sono, repara no calor, na luz, nos gestos dos outros. No dia seguinte, encontra Marie, vai à praia, nada, deseja, ri, assiste a um filme de comédia. A cena incomoda porque deixa o luto sem sua gravidade habitual. A morte da mãe não abre uma fenda, não convoca uma memória, não parece desalojar nada dentro dele. Entra em sua vida quase como um fato administrativo, um deslocamento físico, uma mudança banal na ordem dos dias. Meursault não aparece apenas como alguém que sofre de maneira singular; aparece como alguém para quem a perda mal chega a se constituir como perda.
E aqui Camus começa a nos empurrar para um lugar desconfortável. Porque o leitor percebe a inadequação de Meursault, mas também percebe a pressa dos outros em transformá-la em prova moral. Ele não chorou. Então não amava. Não quis ver o corpo. Então era monstruoso. Foi ao cinema no dia seguinte. Então era indigno. O romance vai nos mostrando, com uma secura brilhante, que uma sociedade pode suportar muitas coisas, menos alguém que não represente direito os sentimentos que ela espera ver.
Depois vem a praia. O sol. O calor. A luz excessiva. O encontro com o árabe. O revólver. Os disparos. Meursault mata um homem e, quando tenta explicar o que aconteceu, a justificativa parece absurda: foi por causa do sol. O leitor sabe que isso não basta. Não deve bastar. Um homem foi morto. E aqui há uma questão que não pode ser varrida para baixo do tapete: esse homem é um árabe quase sem nome, quase sem rosto, quase sem história. O romance se passa na Argélia colonial, e esse detalhe não é decorativo. O morto aparece como figura lateral, sombra incômoda, presença reduzida. Camus constrói uma obra poderosa, mas dentro dela também pulsa esse apagamento. O tribunal fala muito de Meursault e pouco do homem que morreu. E talvez isso diga tanto sobre o personagem quanto sobre o mundo ao redor dele.
O julgamento é uma das partes mais inquietantes do livro. Meursault está ali acusado de assassinato, mas o tribunal parece farejar outra culpa. Interessa-se por sua alma, por seu rosto, por sua expressão, por sua falta de arrependimento visível. O crime cometido na praia permanece no centro formal do processo, embora a acusação insista em voltar ao velório, ao café, ao cigarro, ao cinema, a Marie. O que se julga, no fundo, não é apenas o homem que matou; é o homem que não chorou, não se explicou, não representou a dor como se deve. Meursault não sabe parecer humano do modo esperado.
Isso é terrível. E é terrível em mais de uma direção. De um lado, porque um assassinato real parece perder centralidade diante de uma moral da aparência. De outro, porque Meursault também não ajuda ninguém a salvá-lo. Ele não performa culpa. Não inventa sentimentos. Não oferece ao tribunal aquilo que o tribunal deseja ouvir. Não diz que estava devastado, se não estava. Não diz que se arrepende nos termos em que esperam que ele se arrependa. Há algo quase insuportável nessa honestidade sem calor. Ele não mente para parecer melhor. Mas também não parece alcançar a gravidade do que fez.

Foi desconfortável perceber que, em algum momento, eu já não estava apenas horrorizado com Meursault. Eu também estava contra a guilhotina. A culpa dele permanecia ali, pesada, impossível de apagar. Ainda assim, o sistema que o julgava começava a revelar uma violência própria, mais interessado em punir sua falha de encenação afetiva do que em encarar o crime em sua verdade. Meursault não chorou quando deveria. Não amou quando deveria. Não se explicou quando deveria. Não se ajoelhou diante das palavras certas. Ficou fora da peça. E uma sociedade organizada em torno dos rituais de aparência costuma cobrar caro de quem se recusa, ou não consegue, representar o papel esperado.
Pensei nisso também a partir da clínica, sem transformar Meursault em diagnóstico, porque isso seria uma violência contra a literatura. Personagens bons não servem para caber em categorias. Eles servem para abrir problemas. E Meursault abre um problema que me parece muito atual: a vida no modo “tanto faz”. Não falo daquela indiferença passageira, de quem está cansado, irritado ou tentando sobreviver a uma semana ruim. Falo de algo mais fundo: pessoas que seguem funcionando, mas já não parecem implicadas na própria vida. Trabalham, respondem mensagens, cumprem compromissos, transam, viajam, compram, postam, fazem planos, desfazem planos, mas algo nelas parece desligado. Nada convoca muito. Nada fere muito. Nada entusiasma de verdade. Tudo é meio substituível.
Hartmut Rosa chama de ressonância essa possibilidade de sermos tocados pelo mundo e de respondermos a esse toque. Uma vida viva não se mede apenas por eficiência, organização ou sucesso. Mede-se também pela capacidade de entrar em relação com aquilo que nos atravessa. Ressonância não é felicidade permanente, essa fantasia pobre de propaganda de banco. Às vezes, aquilo que ressoa dói, perturba, desorganiza. Uma música, uma conversa, um amor, um luto, uma paisagem, um livro, uma sessão de análise, um silêncio. Algo nos alcança, rompe a superfície e encontra resposta. Sem isso, a vida até funciona, mas vai perdendo espessura.
Meursault parece viver quase sem essa vibração. Ele percebe o calor, a luz, o corpo, o sono, o desejo físico. Mas a relação com o outro, com a perda, com a culpa, com o amor e com a morte parece não ganhar profundidade simbólica. Marie pergunta se ele a ama. Ele responde que isso não significa nada, mas talvez não. Ela pergunta se ele quer se casar. Ele diz que tanto faz. Se ela quiser, podem se casar. Há uma sinceridade brutal aí, mas também uma pobreza assustadora. O problema não é ele não amar Marie segundo um ideal romântico. O problema é que a pergunta dela parece não abrir nada nele. Não há conflito, não há hesitação real, não há espanto. Só uma resposta plana.
Byung-Chul Han, por outro caminho, ajuda a entender por que essa apatia contemporânea não vem apenas da falta de sentimento. Pode vir também do excesso. Excesso de estímulos, de imagens, de positividade, de convites ao desempenho, de exposição, de comunicação. Somos convocados o tempo inteiro a reagir, opinar, produzir, desejar, escolher, mostrar, melhorar, performar bem-estar, performar indignação, performar autenticidade. Em algum momento, a alma começa a economizar energia. Reduz a intensidade, fecha algumas portas, corta a corrente de certas zonas sensíveis. O sujeito se anestesia para continuar.
Nesse sentido, o “tanto faz” de hoje pode ser menos uma liberdade e mais um sintoma. Tanto faz responder ou sumir. Tanto faz amar ou trocar. Tanto faz escutar ou apenas esperar a própria vez de falar. Tanto faz lembrar ou deixar o algoritmo oferecer outra distração. Tanto faz se comprometer ou manter tudo em aberto, essa forma supostamente elegante de não se responsabilizar por nada. A indiferença vira um tipo de proteção. Só que protege mal. Protege como uma parede protege uma casa sem janelas: impede a invasão, mas também impede a entrada de ar.
O curioso é que Meursault não parece deprimido no sentido comum. Ele não se lamenta, não faz grandes discursos sobre o vazio, não reivindica sofrimento. Ele não tem sequer a vaidade de parecer profundo. Isso o torna ainda mais perturbador. Ele não é o sujeito que sofre dramaticamente por não encontrar sentido. Ele simplesmente vive como se o sentido fosse uma questão mal colocada. As coisas existem. O sol arde. O corpo deseja. A mãe morreu. O patrão oferece uma mudança. Marie quer casar. Um homem está morto. A guilhotina virá. E, no entanto, tudo parece permanecer sob uma mesma camada de evidência opaca.
O livro continua atual porque alguma coisa de Meursault atravessa o nosso tempo. Seria simplista demais dizer que estamos todos nos tornando como ele. A questão é mais sutil: vamos perdendo a capacidade de sermos afetados sem correr para alguma saída rápida: a ironia, o consumo, a explicação, a distração, a troca imediata por outra coisa. Permanecer diante do que nos acontece até que aquilo vire experiência tem se tornado cada vez mais raro. Vivemos acontecimentos demais e experiências de menos. Muita coisa passa por nós, pouca coisa se deposita. O mundo nos toca, mas nem sempre encontra alguém em casa.
A psicanálise ajuda a recolocar a questão. Ninguém precisa aprender a chorar corretamente no velório, como se existisse uma etiqueta universal do sofrimento. O ponto é mais fundo: a vida psíquica depende de ligação. Sofrer também liga. Amar liga. O luto nos mantém, por algum tempo, atados àquilo que foi perdido. A culpa, quando não vira esmagamento moral, pode nos ligar às consequências dos nossos atos. Até a angústia, quando encontra escuta, indica que algo em nós ainda reage. Onde nada disso acontece, a serenidade é só aparência. Por baixo, começa a desertificação.
Meursault incomoda porque parece desértico. E, ainda assim, há nele uma estranha fidelidade a si mesmo. Ele não finge. Não se adapta ao teatro sentimental. Não se curva à religião no fim apenas para aliviar os outros. Recusa a mentira reconfortante. Isso dá ao personagem uma grandeza árida. Mas essa grandeza não o absolve. E aqui está uma tensão importante: não precisamos escolher entre condenar Meursault como monstro ou celebrá-lo como herói da autenticidade. Ele é mais interessante justamente porque escapa dessas duas soluções fáceis. É um homem que recusa fingir, mas também parece incapaz de responder eticamente ao outro. Não encena sentimentos falsos, mas tampouco sustenta plenamente a gravidade dos vínculos reais.
Esse incômodo não fica preso ao livro. Ele escapa para o nosso tempo. Em nome da recusa à hipocrisia, podemos estar desaprendendo a sentir. Em nome da liberdade diante das convenções, podemos estar empobrecendo nossa capacidade de compromisso. Há uma diferença decisiva entre não se dobrar ao teatro dos afetos obrigatórios e tratar toda relação como descartável, toda perda como detalhe, todo amor como opção reversível, toda dor como ruído a ser silenciado.
No fim, a guilhotina aparece como destino concreto de Meursault. Mas, para nós, talvez ela funcione melhor como imagem. Não a guilhotina da praça pública, da lâmina visível, da sentença jurídica. Uma guilhotina mais discreta. A que corta aos poucos nossa capacidade de ressoar. A que separa o corpo da experiência, a palavra do afeto, o gesto da consequência, o desejo da responsabilidade. Continuamos andando, trabalhando, respondendo mensagens, dizendo “está tudo bem”, combinando cafés que talvez nunca aconteçam. A cabeça segue no lugar. A agenda também. Mas alguma coisa já foi decepada.
Camus nos deixa diante de uma evidência desconfortável: sentir demais, amar demais, sofrer demais não esgota os perigos da vida. Existe também o risco de ir sentindo cada vez menos e, aos poucos, transformar esse empobrecimento em virtude. A pessoa se implica pouco, se deixa afetar pouco, mantém distância de quase tudo, e começa a chamar essa retirada de maturidade. Confunde defesa com liberdade, anestesia com equilíbrio, indiferença com inteligência emocional. Há muitas formas de morrer antes da morte. Algumas chegam com estrondo. Outras falam baixo, organizam a agenda, respondem mensagens, seguem funcionando. E, quando perguntadas sobre a vida, dizem apenas: tanto faz. A lâmina desce melhor quando ninguém percebe.
Referências
Camus, A. (2019). O estrangeiro. Rio de Janeiro: Record. Original publicado em 1942.
Freud, S. (2010). Luto e melancolia. In Obras completas, volume 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914–1916). São Paulo: Companhia das Letras. Original publicado em 1917.
Han, B.-C. (2015). Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes.
Han, B.-C. (2022). A expulsão do outro: Sociedade, percepção e comunicação hoje. Petrópolis: Vozes. Original publicado em 2016.
Rosa, H. (2019). Resonance: A sociology of our relationship to the world. Cambridge: Polity Press. Original publicado em 2016.


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