Resident Alien: um alienígena entre alienados

Terminei de assistir a Resident Alien, na Netflix, e fiquei com vontade de escrever sobre algumas das nossas esquisitices, vistas pelos olhos de um alienígena. Harry tem motivos profissionais para evitar amizades: veio à Terra exterminar a humanidade. Um acidente o deixa preso no Colorado, onde assume a identidade do médico Harry Vanderspeigle e passa a conviver com os moradores de Patience. Criada por Chris Sheridan, a série mistura comédia, ficção científica e investigação, com Alan Tudyk no papel desse médico improvisado que precisa cuidar justamente de quem deveria eliminar.

Ri muito vendo Harry tentar entender nossos costumes. Algumas de suas confusões, aliás, me pareceram bastante justificadas. Perguntamos se está tudo bem e torcemos para que a resposta não atrase a conversa. Pedimos sinceridade já imaginando o que gostaríamos de ouvir. Harry se atrapalha com essas conveniências, e eu teria dificuldade em ajudá-lo. Precisaria explicar, por exemplo, por que dizer exatamente o que se pensa pode fazer com que ele nunca mais seja convidado para jantar.

Gostar de Asta, interpretada por Sara Tomko, atrapalha os planos de Harry. Ele quer que ela fique bem e descobre, contrariado, que isso pode pesar mais do que a missão que recebeu. A série dá a essa amizade o espaço que tantas histórias reservam ao romance. Harry continua se irritando com os humanos, mas agora há alguém entre eles que ele não quer perder.

Freud escreveu, em Introdução ao narcisismo, que precisamos começar a amar para não adoecer. Nossa vida psíquica precisa encontrar investimentos fora do eu, em pessoas e coisas que despertem nosso interesse. Leio essa passagem pensando no orgulho com que tantas vezes anunciamos não precisar de ninguém. O ideal de autossuficiência parece ignorar o quanto devemos aos vínculos que nos constituem, inclusive àqueles que já terminaram. Muito do que reconhecemos como nosso foi se formando na relação com alguém.

Esse investimento tem consequências que Harry começa a experimentar. A partir do momento em que alguém importa, já não decidimos tudo sozinhos sobre nosso bem-estar. Uma ausência pode estragar o dia; uma palavra, devolver-lhe o gosto. Sentir-se amado dá coragem e também nos deixa expostos à perda. Podemos ser adultos bastante competentes, capazes de resolver assuntos complicadíssimos, e passar a tarde à espera de uma voz.

Nosso apreço por relações fáceis de entender e rápidas de resolver acompanha a exigência de acesso direto à experiência que Anna Kornbluh examina em Immediacy, or The Style of Too Late Capitalism. Sua crítica aponta para a desvalorização das mediações pelas quais compreendemos o que vivemos, como a linguagem e o trabalho de interpretação. Queremos que a experiência seja compreensível de imediato, sem precisar elaborá-la. Transportada para as relações, essa exigência nos leva a cobrar do outro uma clareza que nem sempre temos sobre o que sentimos.

Alain Badiou observa que podemos procurar alguém tão semelhante a nós que a relação nos permita permanecer exatamente como somos. A afinidade passa a servir também como garantia de que não precisaremos rever nossas escolhas. A pessoa nos interessa, desde que seus desejos se ajustem aos nossos e sua presença não altere demais a vida que organizamos. Essa preocupação em preservar tudo como está deixa pouco espaço para decidir alguma coisa juntos. Diante de uma divergência, podemos até acusar o outro de não saber o que quer, quando o incômodo está justamente na clareza com que ele deseja algo que contraria nossos planos.

Também chegamos cansados às relações. Depois de passar o dia resolvendo problemas e respondendo mensagens, podemos gostar muito de alguém e torcer para que a conversa seja breve. Às vezes, até escutar exige mais do que conseguimos oferecer naquela hora. Chamar isso de superficialidade desconsidera o quanto o trabalho consome nossa atenção, inclusive depois do expediente. Falar do amor como resistência envolve questionar essa obrigação de estar sempre disponível para trabalhar. Precisamos de tempo para conviver, sem a sensação de que deveríamos estar terminando alguma coisa ou nos preparando para o dia seguinte.

Harry gosta de Asta, mas nem sempre consegue levar a sério o que ela quer. Jessica Benjamin, em Os laços de amor, examina a tensão entre precisar do reconhecimento de alguém e aceitar que essa pessoa tenha desejos independentes dos nossos. Queremos ser importantes para o outro e podemos acabar cobrando que ele abandone algo que deseja para nos provar isso. Ele cede, ficamos tranquilos e, na próxima divergência, esperamos a mesma concessão. O afeto convive com uma exigência de submissão que custa reconhecer como nossa.

Por isso, chamar o amor de resistência exige perguntar o que fazemos em seu nome. A duração de um vínculo pode abrigar cuidado ou consolidar submissão. Importa saber quem pode discordar, quem precisa ceder sempre, de quem é o tempo sacrificado. O reconhecimento dá trabalho porque inclui o limite: às vezes, amar exige suportar uma recusa sem convertê-la em ofensa. Em outras, exige sair. A disposição para se deixar afetar precisa conviver com a possibilidade de continuar existindo em nome próprio.

Por esse caminho, o amor pode resistir à imediatez ao reservar lugar para o que ainda não sabemos fazer juntos. Uma conversa retomada depois de uma briga exige mais do que a descarga de tudo o que sentimos. Precisa de palavras que o outro consiga receber, de alguma distância em relação à própria certeza. Esse trabalho de dar forma ao afeto permite que ele dure para além do instante em que nos tomou. Harry aprende aos tropeços o que às vezes julgamos dispensável só porque nascemos aqui.

Amar alguém não nos torna automaticamente atentos ao sofrimento dos outros. Podemos ser muito cuidadosos em casa e indiferentes às condições de vida de quem trabalha para nós. Por isso, pensar o amor como resistência exige examinar também essas contradições. O cuidado pode orientar escolhas concretas, como respeitar o descanso de outra pessoa ou repartir uma responsabilidade que sempre recai sobre ela. Nessas situações, começamos a reconhecer que as necessidades que nos comovem em alguém próximo também existem em pessoas com quem não temos qualquer intimidade.

Gosto da falta de cerimônia com que Resident Alien põe em dúvida nossa competência para viver. Os moradores de Patience tentam ensinar Harry a se comportar enquanto tropeçam nos próprios problemas. É divertido acompanhar esse convívio, inclusive porque a ficção nos deixa observar de fora comportamentos que, numa conversa sobre nós mesmos, provavelmente defenderíamos com bastante seriedade. O extraterrestre oferece uma ocasião para desconfiarmos das explicações que repetimos há anos sem precisar prestar muita atenção nelas.

Harry chega com opiniões firmes sobre os humanos e acaba vivendo coisas que não consegue resolver com o que sabe. Pode conhecer nossa anatomia e continuar sem entender por que sente falta de alguém. A amizade com Asta o envolve em preocupações que atrapalham seus planos, e sua inteligência pouco adianta quando ele precisa admitir que tem medo de perdê-la. Vejo sua humanização nesse aprendizado de se importar. Uma vida que lhe parecia dispensável passa a ocupar seus pensamentos e a interferir em suas decisões, mesmo quando seria mais conveniente seguir com a missão.

Entre as nossas esquisitices, eu teria dificuldade de explicar a Harry o orgulho com que aprendemos a dispensar uns aos outros. Ao se despedir da Terra, ele fala do amor enquanto vemos pessoas amparando outras, inclusive desconhecidas. Aquela sequência me deixa pensando no quanto ainda precisamos aprender com algo que já somos capazes de fazer. Admiramos esses gestos; propor que o cuidado oriente a vida comum costuma merecer o sorriso condescendente que reservamos aos ingênuos.Entender como o mundo funciona deveria nos ajudar a reconhecer o que podemos mudar. Quanto sofrimento continuamos aceitando como inevitável porque enfrentá-lo exigiria rever as nossas prioridades?



Benjamin, J. (2026). Os laços de amor: Psicanálise, feminismo e o problema da dominação. Quina Editora.

Freud, S. (1914). Introdução ao narcisismo. In Obras completas (Vol. 12, pp. 13–50). Companhia das Letras.

Kornbluh, A. (2025). Imediatez: Ou o estilo do capitalismo tardio demais. Boitempo.

Petitjean, C. (2016, 23 de agosto). Entrevista com Alain Badiou. LavraPalavra.

Sheridan, C. (Produtor executivo). (2021–2025). Resident Alien [Série de televisão]. Universal Content Productions; Amblin Television; Dark Horse Entertainment.

Uma resposta para “Resident Alien: um alienígena entre alienados”

  1. […] September 15, 2026 Versão em Português […]

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