Outro dia, me deparei com uma matéria da Folha de S.Paulo, assinada por Nathalia Durval, cujo título chama atenção de imediato: “Homens afeminados são desejados por mulheres cansadas de ‘hétero top’”. Ao terminar a leitura, tive aquela sensação conhecida de quem pensa: é hora de voltar a falar sobre masculinidades. Mais uma vez.
Não porque o tema esteja em alta ou porque virou tendência, mas porque ele insiste em reaparecer nos lugares onde menos se grita e mais se sente. No consultório, nas conversas atravessadas de silêncio, nos desencontros afetivos, nas tentativas frustradas de se aproximar sem saber exatamente como. Talvez o que mude não seja o assunto em si, mas a forma como ele se apresenta. Antes, o homem precisava provar o quanto era macho. Agora, muitos parecem se perguntar se não estão duros demais, fechados demais, exaustos demais.
É nesse movimento que surgem novos nomes, novas categorias, novas expectativas. O termo “afeminado”, por exemplo, aparece na matéria quase como elogio, associado à sensibilidade, ao cuidado, à abertura emocional. Ainda assim, vale uma pausa. Afeminado em relação a quê? Ao se contrapor ao “hétero top”, será que não corremos o risco de apenas inverter o sinal, mantendo intacta a lógica que sempre colocou o feminino como referência de algo menor, estranho ou fora do lugar?
Mesmo quando a intenção é positiva, essa palavra carrega uma longa história de piada, de insulto, de desqualificação. Durante décadas, chamar um homem de afeminado foi uma forma eficaz de colocá-lo para fora do jogo. Um aviso claro de que ele havia falhado na performance esperada da masculinidade. Afeminado não dizia apenas respeito a gestos ou roupas, mas funcionava como acusação moral: você se aproximou demais do feminino, logo perdeu valor.
Quando hoje esse termo retorna revestido de desejo, talvez a pergunta mais honesta não seja se ele é bom ou ruim, mas o que exatamente está sendo elogiado. A sensibilidade em si ou o afastamento de um modelo machista? E, mais ainda, por que seguimos precisando nomear como “afeminadas” qualidades como empatia, escuta, delicadeza e afeto, como se elas não pudessem ser simplesmente humanas?
Esse incômodo não é novo para mim. Ele vem se desenhando há algum tempo, em diferentes reflexões, textos e contextos, sempre que me deparo com homens tentando se orientar em um terreno que já não oferece mapas confiáveis. Aos poucos, foi ficando evidente que a crise não dizia respeito apenas a um modelo específico de masculinidade, mas à própria ideia de que exista uma forma correta, desejável ou segura de ser homem.
Este texto se propõe a deslocar o foco das categorias como “afeminado” ou “hétero top” para uma reflexão mais ampla sobre o esgotamento dos enquadramentos rígidos de masculinidade e sobre o que começa a emergir quando essas estruturas deixam de se sustentar.

Masculinidade nunca foi uma coisa só
Uma das ilusões mais persistentes quando falamos de masculinidade é a ideia de que, em algum momento da história, existiu um modelo estável e compartilhado do que significava “ser homem”. Como se houvesse um manual original que, de repente, se perdeu. A história mostra o contrário.
A masculinidade sempre foi construída, disputada, ensinada e vigiada. Não nasce pronta no corpo masculino, mas se aprende no olhar do outro, nas regras explícitas e, sobretudo, nas silenciosas. Elisabeth Badinter já mostrava isso ao afirmar que a identidade masculina não é um dado natural, mas um processo contínuo de provas, renúncias e afirmações. Ser homem, nesse sentido, nunca foi apenas ser, mas demonstrar.
Demonstrar força, controle, virilidade, distância do feminino. E aqui é importante dizer com clareza: o problema nunca foi a força ou a virilidade em si, mas o modo como elas foram organizadas contra tudo aquilo que se associava ao feminino. Pierre Bourdieu mostra como a dominação masculina não pesa apenas sobre as mulheres, mas também sobre os próprios homens, obrigados a se encaixar em um ideal estreito, competitivo e frequentemente violento.
Quando falamos hoje em “hétero top” ou “machão”, estamos falando de uma herança longa. Um modelo que associa masculinidade a domínio, desempenho sexual, invulnerabilidade emocional e controle. Um modelo que não surgiu do nada e tampouco se manteve por acaso. A virilidade foi sendo inventada ao longo dos séculos, atravessando discursos médicos, militares, morais e políticos. O corpo masculino foi moldado para produzir, guerrear e comandar.
O que parece acontecer agora não é exatamente o colapso da masculinidade, mas o esgotamento de um de seus mitos centrais. Olivia Gazalé chama isso de armadilha da virilidade. Uma armadilha porque promete poder, reconhecimento e desejo, mas cobra um preço alto: silenciamento emocional, dificuldade de intimidade, medo da dependência e uma relação empobrecida com o próprio corpo e com o outro.
Diante desse esgotamento, surgem movimentos de recusa. Homens que não se reconhecem nesse modelo. Mulheres que se cansam de se relacionar com ele. Novas narrativas que tentam apontar saídas. O risco, no entanto, é transformar essa recusa em um novo ideal rígido. Trocar o homem invulnerável pelo homem sensível como obrigação, e não como possibilidade.
Talvez o desafio contemporâneo não seja definir qual masculinidade é a correta, mas sustentar a ideia de que elas sempre foram plurais. E que a crise atual não exige uma nova performance, mas algo mais difícil: a capacidade de habitar contradições sem precisar resolvê-las rapidamente.
O corpo em cena e o medo de errar
Quando a masculinidade entra em crise, o corpo costuma ser o primeiro a denunciar. No jeito de sentar, de andar, de se vestir, de falar, de ocupar espaço. Durante muito tempo, esse corpo foi treinado para ser forte, resistente, endurecido. Um corpo que aguenta, que não adoece, que não reclama, que exibe músculos como sinal de valor e controle. Força física, rigidez e aparência de invulnerabilidade funcionaram, por décadas, como garantia de pertencimento ao masculino.
Hoje, esse mesmo corpo passa a ser atravessado por novas exigências. Roupas mais coloridas, gestos mais soltos, cuidado estético, choro visível, uma voz que não precisa se endurecer o tempo todo. Tudo isso começa a ser lido como sinal. E, em um terreno instável, sinais rapidamente viram critérios de julgamento.
O corpo masculino, antes autorizado a ser apenas funcional, produtivo e forte, agora se vê diante de uma exigência paradoxal: expressar-se, mas não demais; diferenciar-se, mas sem exagero; ser sensível, mas sem perder o lugar; cuidar de si sem parecer frágil; abandonar a casca grossa sem ficar exposto demais. O problema não está na roupa, no gesto ou na estética em si, mas no fato de que eles passam a funcionar como certificados identitários.
Antes, um corpo rígido e musculoso garantia pertencimento. Agora, um corpo expressivo e consciente parece garantir legitimidade. Em ambos os casos, o corpo vira palco de performance. Isso produz efeitos claros. Muitos homens relatam um medo difuso de errar o tom, o gesto, a fala. De parecer machista demais ou sensível demais. De ser lido como ultrapassado ou artificial.
Talvez seja importante lembrar algo simples: não existe corpo neutro. Todo corpo carrega história, desejo e contradição. O problema começa quando ele precisa se justificar o tempo todo. Quando fortalecer-se, cuidar-se, vestir-se ou sentir deixam de ser experiências e passam a funcionar como estratégias de aceitação.

Afeto, desejo e o recuo silencioso
Se o corpo é o primeiro lugar onde a crise aparece, os vínculos afetivos são onde seus efeitos se tornam mais dolorosos. Muitos homens têm recuado do amor não por falta de desejo, mas por excesso de medo e exaustão. Amar implica risco. Implica não saber exatamente como será lido ou interpretado. E, num cenário em que os códigos parecem mudar o tempo todo, esse risco se torna alto demais.
Esses homens não se reconhecem no modelo machão, mas também não se sentem confortáveis performando uma sensibilidade exigida. Ficam no meio do caminho. Não sabem se podem desejar sem parecer invasivos, se podem se mostrar sem se expor demais. O resultado, muitas vezes, é o silêncio. O adiamento. Relações superficiais ou evitadas.
Curiosamente, isso acontece num momento em que se fala muito sobre escuta e empatia. Mas falar não é o mesmo que sustentar. A intimidade exige tempo, falhas e mal-entendidos. Quando o erro se torna insuportável, o vínculo vira ameaça.
Esse recuo cobra seu preço. A solidão masculina costuma ser discreta, racionalizada, camuflada em trabalho ou ironia. Mas ela cresce à medida que os homens sentem que não há lugar seguro para experimentar o desejo sem precisar se explicar o tempo todo.
Muitas masculinidades, poucos lugares para existir
Dizer que existem múltiplas masculinidades virou quase um consenso. Mas, na prática, essa multiplicidade nem sempre gera mais liberdade. Muitas vezes, ela se organiza como um novo cardápio identitário, no qual o sujeito precisa escolher um lugar e permanecer coerente com ele.
O problema não é reconhecer a diversidade, mas transformá-la em exigência. Quando cada masculinidade vira categoria fechada, o espaço para a contradição diminui. O homem precisa se definir. Se explicar. Se alinhar. Quem hesita, fica à margem.
Talvez o ponto mais crítico seja este: quando a masculinidade precisa ser constantemente performada, mesmo em versões supostamente libertárias, ela deixa de ser experiência e vira tarefa. O sujeito desaparece atrás do esforço de manter uma imagem coerente.

Talvez não seja sobre ser homem, mas sobre poder existir
Talvez, no fundo, essa conversa nunca tenha sido apenas sobre masculinidades. Talvez seja sobre a possibilidade de existir sem pedir licença o tempo todo. Ser homem, hoje, parece exigir tradução permanente. Traduzir o corpo, o desejo, o afeto. O cansaço talvez venha daí.
Há algo profundamente humano em querer ser reconhecido sem ser reduzido. Em poder circular entre força e fragilidade sem que isso vire falha moral. Quando chamamos um homem de afeminado para elogiá-lo, talvez seja hora de perguntar por que ainda precisamos desse deslocamento. O problema não está no feminino, mas na dificuldade histórica de reconhecê-lo como valor sem hierarquia.
O verdadeiro gesto de ruptura não está na criação de novos rótulos, mas na abertura de zonas de indeterminação. Lugares onde o sujeito possa existir antes de ser classificado. Onde o afeto não precise de legenda.
No fim, talvez a pergunta não seja “que homem devo ser?”, mas outra, mais incômoda e ética: em um mundo tão ansioso por definir, rotular e corrigir, ainda é possível existir sem precisar se defender o tempo todo?
Referências
Badinter, E. (1993). XY: De l’identité masculine. Paris, França: Odile Jacob.
Bourdieu, P. (1998). La Domination masculine. Paris, França: Éditions du Seuil.
Corbin, A., Courtine, J.-J., & Vigarello, G. (2013). Histoire de la virilité: De l’Antiquité aux Lumières; Le Triomphe de la virilité; La virilité en crise? XX–XXI siècle (3 vols.). Paris, França: Éditions du Seuil.
Durval, N. (2026, 25 de janeiro). Homens afeminados são desejados por mulheres cansadas de “hétero top”. Folha de S.Paulo.
Gazalé, O. (2017). Le mythe de la virilité: Une piège pour les deux sexes. Paris, França: Robert Laffont.
Nunes, R. (2025). The modern man: navigating the shifting landscape of masculinity.
Nunes, R. (2025). Manhood for sale: the comic tragedy of being a man.


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