I.
No início,
apenas o tempo respirava.
Um fio tênue,
quase inaudível,
esticado entre o que ainda não era
e o que já pressentia o fim.
O gesto era mínimo.
O sentido, suspenso.
O tempo se oferecia como promessa não dita,
como se prometer fosse indecente
diante da delicadeza do instante.
Tudo cabia ali.
O desejo,
a espera,
a ilusão de que durar
era uma virtude natural.
II.
Aos poucos, o som ganhou corpo.
Camadas se sobrepuseram
como decisões nunca assumidas.
A harmonia começou a ceder
ao acúmulo.
Chamaram isso de maturidade.
Chamaram isso de percurso.
Mas o tempo não evoluía.
Ele se repetia com vocabulário mais sofisticado.
A esperança tornou-se método.
A espera, sistema.
O adiamento, ética.
E o que era promessa
passou a exigir fidelidade
sem jamais se cumprir.
III.
Então o ruído.
Nada mais se encaixava.
As notas já não buscavam consonância.
Cada gesto afirmava o contrário do anterior
com igual convicção.
O tempo mostrou seu artifício:
não cura,
não ensina,
não redime.
Administra.
Neutraliza.
Normaliza o insuportável.
A dor tornou-se funcional.
O vazio, tolerável.
O sofrimento, silencioso o suficiente
para não interromper o fluxo.
Aqui, forças inconciliáveis
ocupam o mesmo espaço
sem jamais se tocar.
Uma exige avanço,
outra dissolve o chão.
Nenhuma vence.
Nenhuma cede.
O corpo permanece suspenso
entre impulsos incompatíveis,
incapaz de escolher
sem trair algo essencial.
Tudo vibra,
tudo cansa,
tudo insiste
sem direção.
IV.
E então, a queda.
O peso do que não foi
assentou-se com solenidade.
Não como lamento,
mas como constatação.
O tempo revelou sua face sombria:
indiferente,
impessoal,
divinamente alheia.
Para chegar ao que não se sabe,
atravessa-se a ignorância.
Para possuir o que não se tem,
abandona-se a posse.
Para ser o que não se é,
passa-se pelo lugar
onde nada reconhece ninguém.
O que resta não é verdade.
É resíduo.
Não sobrevive o melhor,
nem o mais justo,
nem o mais amado.
Sobrevive o que se exauriu
por último.
V.
O som começa a rarear.
O excesso se dissolve.
A dissonância se cansa de si mesma.
Já não há pergunta.
Já não há acusação.
Apenas o reconhecimento tardio
de que o tempo
não era caminho,
mas desgaste.
Não era linha,
mas espiral.
Não levava a lugar algum.
Apenas aprofundava.
VI.
O metrônomo insiste
em um último pulso.
Breve.
Exato.
Irrecuperável.
Nesse intervalo mínimo,
algo se revela
sem se formular.
Não há linguagem
para o que se sabe ali.
Não há retorno
para quem soube.
O som falha.
Não conclui.
Cessa.
A luz diminui lentamente,
como se respeitasse
a gravidade do instante.
A cortina desce
sem gesto,
sem resposta,
sem testemunhas.
O tempo não encerra.
Retira-se.
E aquilo que se compreendeu
no último compasso
permanece inacessível
aos que ainda respiram.
Silêncio.

Nota do autor
Este poema foi escrito ao som de Casta Diva, na voz de Maria Callas.
Não como inspiração direta, mas como atmosfera.
A intenção não foi narrar o tempo,
mas deixá-lo respirar, acumular-se, fraturar-se e retirar-se.
Acompanhar seu movimento da promessa à saturação,
do excesso ao resíduo,
do som à suspensão.
O que se desenha aqui não é uma história,
mas uma sequência de estados:
a delicadeza que cede à tensão,
a tensão que se curva ao peso,
o peso que se dissolve em silêncio.
Se algo se revela ao final,
não se oferece como partilha.
Há compreensões que pertencem apenas
ao instante exato em que acontecem.
O resto é eco.


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