Há decisões que não nascem quando a cabeça está cheia. Elas aparecem quando o excesso cansa, quando os argumentos se repetem, quando a lógica começa a girar em falso. É curioso: passamos anos acreditando que decidir bem é acumular razões, juntar dados, ouvir opiniões, fazer listas. Mas a vida, às vezes, escolhe outro caminho. Ela espera o silêncio.

Rubem Alves dizia que a cabeça vazia não é oficina do diabo, mas um quarto de brinquedos. Um lugar onde as palavras deixam de ser ferramentas e voltam a ser brinquedos. Onde pensar não é explicar, mas brincar. Onde a gravidade cede lugar ao riso e, por alguns instantes, o mundo se desarruma. Talvez seja justamente aí que as decisões mais importantes comecem a se formar.
Porque ninguém muda de cidade no auge da certeza. Ninguém sai de um casamento de trinta anos depois de fechar uma planilha emocional. Ninguém abandona uma religião, aceita uma proposta que vai virar sua rotina do avesso, decide ter ou não ter um filho, faz uma tatuagem definitiva, muda de país ou de profissão apenas porque “faz sentido”.
Essas decisões costumam surgir quando o sentido já não dá conta.
Elas surgem quando a mente se esvazia o suficiente para que outro registro possa falar, quando deixamos de tentar explicar o que sentimos e nos permitimos sentir. Quando algo aprendido de cor, no sentido antigo da palavra, enraizado no próprio coração, começa a pulsar. A mente pode esquecer, lembrava Rubem Alves, mas aquilo que é aprendido com o coração não se esquece nunca.
Talvez por isso decidir seja menos um ato de coragem do que um gesto de escuta. Escuta do corpo, do cansaço, do desejo, daquilo que insiste mesmo quando tentamos calar. Decidir, nesses momentos, não é escolher o melhor caminho, mas reconhecer aquele que já não pode ser evitado.
Rubem Alves brincava com as palavras como quem joga pedrinhas para o alto. Ao caírem, elas nunca voltavam iguais. Explicar, ele nos lembrava, vem de explanare: tornar plano. Alisar montanhas, preencher abismos, eliminar mistérios. Mas a vida não gosta muito de ser explicada. Ela prefere as dobras, os riscos, os precipícios. Prefere as escolhas que não cabem em frases bem organizadas.
Talvez por isso haja pessoas que adiam decisões por anos, esperando o momento em que tudo estará claro. Mas o claro, muitas vezes, é só um mundo excessivamente iluminado, sem sombras, sem relevo, sem espanto. E há decisões que só aparecem quando aceitamos caminhar sem mapa, confiando mais no tato do que na visão.
Mudar de emprego, sair de um relacionamento, abandonar um projeto antigo, dizer não a algo que sempre foi esperado de nós, tudo isso exige um tipo de sabedoria que não se mede pela quantidade de informações, mas pela capacidade de sentir o gosto das coisas. Saber quando algo já não alimenta. Quando o que antes fazia sentido agora pesa. Quando continuar custa mais do que mudar.
No fundo, toda decisão importante traz consigo um luto discreto, quase invisível. Decide-se e, com isso, deixam-se para trás vidas que poderiam ter sido vividas, versões de nós que não seguirão adiante, futuros que jamais encontrarão o caminho do presente. Talvez seja por isso que decidir doa. Não porque tenhamos errado, mas porque toda escolha implica uma perda. E talvez amadurecer não seja aprender a evitá-la, mas encontrar um modo ético de sustentá-la.
Rubem Alves gostava de bagunçar o mundo arrumado. De virar sonhos de perna para o ar. Talvez escrever e decidir sejam parentes próximos. Ambos pedem um certo esvaziamento. Um abandono momentâneo da gravidade. Um retorno breve à infância, onde brincar era coisa séria.
No fim das contas, talvez decidir seja isso:
jogar as pedras para o alto
e aceitar que, ao caírem,
elas nunca voltam iguais
nem o mundo,
nem nós.
Referência
Alves, R. (2021). Ao professor, com carinho: a arte do pensar e do afeto (pp. 65–71). São Paulo, SP: Planeta.


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