Olha o bloco dobrando a esquina,
olha a vida fazendo sinal.
A cidade põe flor na rotina
e chama isso de Carnaval.
Eu, cidadão tão ajuizado,
tão correto, tão exemplar,
já deixei o pudor guardado
pra ver no que isso vai dar.
Tem doutor virando pirata,
tem poeta pedindo refrão,
tem quem jure que é só bravata
mas ninguém samba em vão.
Vou vestir qualquer fantasia
que não pese demais no meu bem,
porque às vezes o que a gente anuncia
é o que queria ser também.
Se eu dançar fora do passo,
culpa da banda, dirão.
Mas todo mundo sabe: o compasso
já batia no meu coração.
Prometo que é só quatro dias,
terça acaba, eu volto ao normal.
Mas me explique, com simpatia:
quem é que define o tal?
Se quarta-feira me chama
com gravata e opinião,
talvez eu leve na trama
um pouco dessa explosão.
Porque o bloco passa ligeiro,
mas deixa uma dúvida no ar:
se eu gostei do meu descontrole,
será que eu quero voltar?



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