No meio do bloco, ninguém pede cartão de visitas.
O crachá perde a validade
no primeiro pingo de suor.
O advogado vira pirata
com argumentação de rum barato.
A médica receita sereia
e mergulha sem prontuário.
O tímido, ah, o tímido…
vira constelação portátil,
glitter espalhado no escuro
como quem descobre que também brilha.
E por algumas horas
a hierarquia dissolve
feito açúcar na caipirinha.
Mas há um detalhe curioso:
a máscara não esconde
ela faz confidência.
Tem quem beba
para soltar o que sempre esteve engarrafado.
Tem quem dance
como quem renegocia contrato com o próprio quadril.
Tem quem beije
como quem testa se o coração ainda tem bateria.
Carnaval é exagero, sim.
Mas exagero de quê?
Do desejo guardado em gaveta trancada?
Da coragem que só aparece fantasiada?
Ou da vontade antiga
de desobedecer o espelho?
Tem santo descendo do andor
para aprender a sambar.
Tem juiz perdendo o juízo
e achando que foi a banda a empurrar.
E a cidade, cúmplice discreta,
finge que não vê
o que sempre soube.
Porque no meio do bloco
ninguém quer saber seu nome inteiro
só quer saber
se você sabe o refrão.
Talvez seja a festa do reprimido,
o ensaio geral do proibido,
o laboratório onde o desejo
faz estágio supervisionado.
Ou talvez seja só isso mesmo:
um grito em technicolor
dizendo sem muita gramática
“eu também existo, doutor”.
No meio do bloco
a pergunta não é “quem você é?”
Isso fica pra quarta.
A pergunta é outra, mais malandra:
quanto de você
aguenta sambar
antes de pedir licença?



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