A quarta-feira passou com gosto de cinza.
Não só no calendário.
A cidade acordou varrendo o que pôde
confete, latinha, promessa exagerada.
Mas glitter é traiçoeiro.
Ele fica.
No canto do olho, no banco do carro,
na memória que insiste.
Na quinta, já teve gente dizendo:
“acabou, agora é foco”.
Como se foco fosse produto de prateleira
e não negociação diária.
Na sexta, dobramos as fantasias com cuidado.
A peruca volta pra caixa.
O short brilhante some no fundo da gaveta.
A gravata reaparece,
pendurada como quem nunca saiu de cena.
Os corpos ainda doem.
As fotos circulam em silêncio estratégico.
Alguns juram que exageraram.
Outros juram que nem lembram.
Dizem que o ano começa depois do Carnaval.
Talvez comece mesmo.
Porque o Brasil é especialista em recomeçar.
Recomeça dieta.
Recomeça academia.
Recomeça projeto.
Recomeça vida.
Mas quase nunca continua.
Voltamos às roupas neutras,
aos e-mails acumulados,
à indignação cronometrada,
à disciplina performática.
E então fingimos que aqueles quatro dias
foram apenas intervalo.
Mas não foram.
Quando a máscara cai,
ou você agradece por recuperar o controle
ou percebe que estava mais vivo quando perdeu.
Segunda-feira já aparece no horizonte,
impaciente,
organizada,
convencida de que manda.
A pergunta não é moral.
É desconfortável:
O que, daquilo que dançou na avenida,
vai sobreviver até o próximo Carnaval?
Ou será que a coragem dura quatro dias
e o resto do ano é que é fantasia?



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