Não é preciso ser especialista para ser influente. Basta ser reconhecível. Foi essa a provocação lançada por Michel Alcoforado, ao lembrar que o influenciador não fala para todos, fala para um pequeno grupo que se vê nele, que se reconhece nele, que descansa nele. A influência, nesse sentido, não nasce da autoridade clássica do saber, mas da intimidade construída pela repetição, pela exposição cotidiana e pela sensação de proximidade. Não é o conhecimento que persuade; é o vínculo.
Os números apenas confirmam aquilo que já intuíamos com o polegar cansado de rolar a tela: grande parte das decisões diárias é tomada com base na opinião de alguém que nunca conhecemos pessoalmente, mas que parece nos conhecer muito bem. Confiamos porque nos sentimos vistos. Porque alguém nomeia algo que sentimos, organiza o caos em três tópicos, oferece uma rotina, uma dica, uma resposta possível. Pensar dá trabalho. Delegar alivia.
Há, porém, algo de inquietante nessa economia da confiança. Quanto mais complexa se torna a vida, mais desejamos atalhos. Quanto mais ambíguo o mundo, mais buscamos certezas prontas. A influência prospera justamente aí: onde a dúvida incomoda, onde a escolha pesa, onde sustentar uma pergunta exige tempo, silêncio e frustração. O influenciador surge como esse operador elegante do alívio cognitivo, alguém que escolhe por nós, pensa por nós, decide por nós, enquanto seguimos acreditando que estamos exercendo autonomia.
Quando esse mecanismo opera no campo do consumo, seus efeitos costumam ser relativamente inofensivos: um produto decepciona, outro agrada, a vida segue. Mas quando o mesmo modelo se desloca para territórios como saúde física e saúde mental, algo muda de escala. Não se trata mais de gosto, estilo ou preferência. Trata-se de sofrimento, de corpo, de subjetividade. E talvez seja justamente aí que a pergunta precise ser feita, não para condenar quem fala, mas para interrogar por que estamos tão dispostos a não pensar.
Influência não é fama, é proximidade
A influência contemporânea não se confunde com fama, nem depende de grandes audiências. Ela opera em escala menor e mais íntima, muitas vezes invisível para quem não participa daquela comunidade. Um influenciador é influenciador para quem o acompanha, para quem reconhece seu estilo, sua linguagem, sua forma de enquadrar o mundo. Essa dinâmica ajuda a entender por que especialização e influência não caminham necessariamente juntas. O que garante adesão não é apenas o conteúdo em si, mas a sensação de que aquilo foi dito “para mim”, a partir de um lugar próximo e quase doméstico.
Essa proximidade não se constrói por títulos, certificados ou tempo de carreira, e sim pela repetição da presença. Ela se fabrica no cotidiano transformado em narrativa, na intimidade compartilhada em doses calculadas, no tom confessional, no recorte de fragilidades “editadas com cuidado”, na estética da autenticidade. O influenciador aparece como alguém que está ao lado, não como alguém que fala de um púlpito. Ele não devolve perguntas, não demora na ambiguidade, não se perde em nuances. Oferece uma síntese pronta para uso. Em um mundo saturado de informação, isso não é um defeito. É um ativo.
Talvez por isso a influência cresça exatamente onde a complexidade aumenta. Quanto mais decisões a vida exige, mais confortável parece seguir alguém que já decidiu antes. A influência raramente se impõe de modo explícito; ela sugere, acolhe, aproxima, cria pertencimento. E, sem precisar soar autoritária, vai deslocando o centro de gravidade: o que antes era um exercício de reflexão e escolha passa a ser um movimento de adesão e repetição. Não é necessário supor ingenuidade coletiva. É mais simples e mais incômodo reconhecer a fadiga: pensar exige tempo, energia e tolerância à dúvida, e muitos de nós preferimos poupar esse esforço quando o mundo já parece pesado demais.

Números que pensam por nós
Os dados ajudam a dimensionar o fenômeno, mas sobretudo expõem sua contradição central. Pesquisas da Youpix, em parceria com a Nielsen, indicam que mais de dois terços dos consumidores brasileiros afirmam estar cansados do excesso de publicidade feita por influenciadores. Ainda assim, cerca de 80% admitem já ter comprado algum produto recomendado por eles. O cansaço não impede a adesão. Pelo contrário. Parece torná-la ainda mais automática.
Não se trata de incoerência nem de ingenuidade estatística. Trata-se de um funcionamento psíquico bastante conhecido. Quando estamos saturados de estímulos, buscamos atalhos. Quando a oferta é excessiva, a escolha vira peso. Nesse contexto, a recomendação personalizada funciona como um alívio. Não é apenas publicidade. É alguém filtrando o mundo por nós. Alguém decidindo o que importa. Alguém poupando nosso esforço.
Outro dado merece atenção especial. Uma parcela expressiva dos consumidores afirma sentir-se segura ao utilizar produtos indicados por influenciadores. A palavra é essa: segurança. Não desejo, não curiosidade, não impulso. Segurança. Seguir alguém reduz a angústia da escolha individual. Se a experiência for frustrante, o erro não é inteiramente meu. A decisão não foi solitária. A responsabilidade se dilui. O risco é compartilhado. Ou, de forma mais precisa, transferido.
Há ainda um dado mais revelador do que todos os outros. Muitos consumidores se lembram mais do influenciador do que da marca anunciada. A mercadoria perde centralidade. O vínculo permanece. Isso desloca completamente a lógica da persuasão. Já não se trata de convencer por argumentos, mas de sustentar uma presença contínua que inspira confiança. A autoridade não vem do que se diz, mas de quem diz. Não do conteúdo, mas da familiaridade.
Quando observados com cuidado, esses números dizem menos sobre consumo e mais sobre pensamento. Eles mostram o quanto estamos dispostos a delegar decisões, terceirizar critérios e suspender o juízo crítico em nome do conforto. A influência não prospera apesar do cansaço. Ela prospera por causa dele. Em meio ao excesso de informação, deixar que alguém pense por nós pode soar como alívio, como ganho de tempo, como eficiência. O ponto sensível surge quando esse alívio deixa de ser circunstancial e passa a organizar não apenas o que compramos, mas a forma como cuidamos do corpo, da mente e da própria vida.
O sucesso como credencial simbólica
Na economia da influência, o sucesso funciona como uma espécie de certificado informal de autoridade. Não é preciso dizer que se sabe. Basta mostrar que se venceu. O apartamento bem iluminado, o carro recém-adquirido, o corpo disciplinado, a rotina produtiva, o filho sempre sorridente. Tudo isso compõe uma narrativa silenciosa, mas eficaz. Se a vida deu certo, presume-se que o método funcione. E, se funcionou para alguém, por que não funcionaria para todos?
Esse raciocínio, embora sedutor, é perigosamente simplificador. Ele transforma trajetórias singulares em modelos universais e converte contingências em fórmulas. O sucesso deixa de ser efeito de múltiplas variáveis e passa a ser tratado como prova de competência geral. Não importa mais o que se estudou, quanto tempo se levou ou quais mediações foram necessárias. O que importa é o resultado exibido. A autoridade se constrói menos pelo percurso e mais pela vitrine.
Há, nesse ponto, uma inversão curiosa. A formação, com sua lentidão, suas dúvidas e seus impasses, perde valor simbólico. Ela demora. Não rende boas imagens. Não cabe em stories. Já o sucesso performado é instantâneo, visualmente convincente e facilmente replicável como promessa. O currículo deixa de estar nos livros, nos processos ou nas experiências acumuladas. Ele passa a habitar o feed.
Essa lógica não se limita ao consumo ou ao estilo de vida. Ela avança sobre campos mais delicados, como o cuidado de si, as escolhas existenciais e a saúde mental. Quem aparenta estar bem se torna, automaticamente, alguém autorizado a ensinar como se chega lá. A vida organizada vira argumento. O bem-estar exibido vira evidência. Pouco importa se aquilo que se mostra é fruto de recorte, edição ou privilégio. A imagem convence mais do que qualquer reflexão.
O efeito disso é sutil, mas profundo. O sucesso passa a valer mais do que o pensamento. A performance, mais do que a elaboração. Não se segue alguém porque ele problematiza, mas porque ele encarna uma promessa. Uma promessa de que a vida pode ser simplificada, otimizada e resolvida em etapas claras. Em um mundo exausto de complexidade, o sucesso visível funciona como resposta pronta. E respostas prontas, como se sabe, dispensam perguntas.
Por que a influência prospera onde o pensamento falha
Pensar não é apenas um ato intelectual; é um trabalho psíquico. Exige sustentar dúvidas, tolerar contradições, adiar conclusões e aceitar que a realidade raramente cabe em explicações rápidas. Pensar desorganiza antes de reorganizar. Em um cenário de aceleração constante, esse trabalho se torna oneroso. É aí que a influência encontra terreno fértil: ela promete economia cognitiva, organiza o mundo em pacotes, entrega escolhas prontas, reduz a fricção interna que acompanha qualquer decisão verdadeira.
Byung-Chul Han oferece uma chave importante para compreender por que discursos fechados circulam melhor do que reflexões complexas. Em um ambiente orientado pelo desempenho e pela positividade, a negatividade do não saber, do erro, da hesitação e do limite perde valor. A dúvida vira ineficiência. A nuance vira dispersão. O silêncio vira ausência. O discurso que se impõe é o afirmativo, o seguro, o conclusivo. A certeza tranquiliza. A complexidade cansa. A influência prospera porque fala a língua do alívio.
No campo da saúde mental, esse funcionamento tem um efeito específico: aquilo que exige opacidade, tempo e elaboração é convertido em conteúdo rápido, narrativas inspiradoras e soluções replicáveis. Fala-se muito de sentimentos, mas elabora-se pouco. Expõe-se bastante, mas escuta-se pouco. O risco não está em falar do sofrimento, mas em tratá-lo como algo que precisa ser imediatamente traduzido em orientação, como se dor fosse problema técnico e subjetividade fosse projeto de otimização.
Ressonância sem reflexão
Uma das razões pelas quais a influência é tão eficaz não está na força do argumento, mas na capacidade de produzir eco. Confiamos em quem faz algo vibrar em nós, em quem parece nomear um sentimento difuso, organizar um mal-estar que ainda não ganhou forma. A noção de ressonância, proposta por Hartmut Rosa, ajuda a compreender esse fenômeno para além de julgamentos apressados: ressonância é resposta afetiva, não verificação racional. Algo me chama, eu respondo, algo se movimenta em mim, e isso é profundamente humano.
O problema surge quando a ressonância substitui a reflexão, quando aquilo que toca passa a valer como critério suficiente de verdade, correção e cuidado. Nas redes sociais, a ressonância é amplificada e acelerada. Um relato pessoal bem montado, uma confissão calibrada, uma história de superação narrada no tempo certo produz identificação imediata. Não porque seja necessariamente falsa, mas porque é eficaz: atravessa defesas, encurta mediações e cria a sensação de que alguém finalmente disse aquilo que eu sempre senti. Nesse instante, a confiança se instala antes que o pensamento tenha tempo de chegar.
Recentemente, deparei-me com uma influenciadora que se apresentava como psicanalista e anunciava uma “consulta gratuita” para seus seguidores, disponibilizada em rede social. Prometia uma orientação decisiva que resolveria grande parte dos problemas de quem a escutasse e, como contraponto, lembrava que no consultório o valor seria outro. Não menciono nomes porque o ponto não é pessoal; é estrutural. A orientação era rasa, daquelas que caberiam em um livreto apressado de autoajuda, mas o que mais chamava atenção era a postura: um tom seguro demais, afirmativo demais, levemente condescendente, como se a complexidade humana fosse um erro de execução. A mensagem implícita era disciplinadora: se você fizer exatamente como digo, melhora; se não melhorar, é porque você não fez direito. Nesse tipo de promessa, a singularidade desaparece. A história, os limites e as circunstâncias do sujeito são comprimidos para caber na fórmula. O cuidado vira performance. A escuta, dispensável.
É aí que a ressonância mostra seu ponto cego. Aquilo que ressoa não necessariamente compreende. Aquilo que emociona não necessariamente escuta. A ressonância cria adesão, mas não garante elaboração; aproxima, mas não distingue. Quando confundimos ser tocado com ser cuidado, abrimos espaço para prescrições que confortam no curto prazo e empobrecem no longo, porque dispensam exatamente o que o sofrimento exige: tempo, mediação, diferença e responsabilidade.
Vivência não é universalização
Um dos argumentos mais recorrentes no universo da influência é também um dos mais frágeis: funcionou para mim, logo pode funcionar para você. A experiência pessoal é apresentada como prova suficiente; a vivência vira credencial; o relato íntimo assume o lugar do critério. O que começou como testemunho termina como prescrição, e isso costuma acontecer sem que o salto lógico seja reconhecido. A vivência passa a falar em nome do universal como se isso fosse natural.
Edgar Morin ajuda a nomear o problema: pensar de forma complexa implica reconhecer que um mesmo fenômeno pode produzir efeitos radicalmente distintos dependendo do sujeito, do contexto e das relações em jogo. Transformar experiência em regra geral é um empobrecimento intelectual e também ético, porque apaga singularidades e reduz o outro a um caso que cabe no mesmo molde. No campo da saúde mental, esse apagamento é particularmente perigoso: sofrer não torna alguém automaticamente apto a orientar o sofrimento do outro; atravessar uma crise não equivale a sustentar a escuta de uma crise.
Donald Winnicott oferece aqui um contraponto fundamental: confiança não se constrói pela invasão do outro com respostas prontas, mas pela capacidade de oferecer um espaço onde algo possa emergir sem ser imediatamente colonizado por fórmulas. Quando vivência vira manual, esse espaço se fecha. O sujeito deixa de ser escutado para ser enquadrado, e a orientação passa a funcionar como substituto apressado da elaboração.
Quando a influência deixa de ser inofensiva
Há uma diferença decisiva entre influenciar escolhas de consumo e influenciar modos de cuidar do corpo e da mente. No primeiro caso, o dano costuma ser limitado; no segundo, pode ser profundo. Orientar não é acompanhar; recomendar não é sustentar consequências. A influência opera por alcance e impacto imediato; o cuidado exige responsabilidade prolongada, escuta continuada e disposição para lidar com efeitos imprevistos, inclusive quando não há solução rápida.
Christophe Dejours é útil aqui porque mostra como discursos normativos sobre sofrimento tendem a individualizar aquilo que muitas vezes é estrutural, relacional e histórico. A lógica da dica rápida frequentemente cai na personalização excessiva do mal-estar: ajuste sua rotina, mude seu mindset, organize-se melhor, pense positivo. Essas orientações podem não ser completamente falsas, mas são frequentemente insuficientes; e a insuficiência apresentada como solução produz um efeito cruel, porque gera culpa. Se você não melhorou, o problema é você. Se você não conseguiu, faltou disciplina. Se você fracassou, você executou errado.
Há ainda um elemento ético que permanece fora do quadro quando o cuidado vira conteúdo: quem influencia raramente responde pelos efeitos. Quem recomenda não acompanha. Quem orienta não sustenta o desdobramento. A lógica do alcance substitui a lógica da responsabilidade. O vínculo pode ser intenso, mas é assimétrico e efêmero. E é por isso que a pergunta sobre formação, especialização e limites não é mero corporativismo; ela é, antes de tudo, uma pergunta sobre prestação de contas, sobre reconhecimento do não saber e sobre a recusa em transformar o desconhecido em mercadoria.
Epílogo para quem prefere não pensar
Há algo profundamente tranquilizador em quem parece não ter dúvidas. A certeza organiza, promete ordem, oferece direção em um mundo instável. Nas redes sociais, essa certeza se apresenta em fórmulas irresistíveis: emagreça em trinta dias, aprenda inglês em três meses, siga vinte passos para o sucesso, conquiste sua liberdade financeira, alcance sua paz mental. As promessas variam, mas a estrutura é a mesma: um problema complexo é reduzido a roteiro numerado, executável, vendável. A vida vira projeto, e o sofrimento vira obstáculo técnico.
O conforto dessa estética é evidente, e é justamente por isso que ela merece suspeita. Ela vende previsibilidade, e com ela vende uma moral silenciosa: se o método é bom e o guia é confiável, o fracasso só pode ser individual. A certeza protege o discurso e isola o sujeito. Quando a promessa falha, a culpa recai sobre quem não fez direito, não seguiu corretamente, não teve disciplina suficiente. O método permanece intacto, e a experiência humana é tratada como erro de execução.
Talvez o maior triunfo da influência contemporânea não seja vender produtos ou estilos de vida, mas oferecer dispensa: dispensa de escolher, de sustentar perguntas, de suportar a incerteza que acompanha qualquer decisão real. A obediência aqui não é imposta; é voluntária e confortável. Em um mundo exausto, seguir é quase um gesto de autopreservação. Mas a pergunta ética começa exatamente quando essa economia mental deixa de ser um recurso e vira um modo de existir, quando o pensamento passa a ser terceirizado por padrão, e a pergunta é ocupada antes mesmo de nascer.
Não se trata de demonizar quem fala ou compartilha experiências. Trata-se de desconfiar do conforto excessivo, especialmente quando ele se oferece como cuidado. Trata-se de perguntar quem ganha quando você abre mão de elaborar, quando você reduz sua história a um método e sua dor a um checklist. Pensar não é eficiente, não é rápido e não garante resultado. Ainda assim, talvez seja a única forma de não entregar ao outro aquilo que ninguém pode fazer por nós sem violência: escolher, sustentar a dúvida, assumir o risco de não ter certeza. A vida não vem em passos. E a ética começa onde os roteiros falham.
Referências
Alcoforado, Michel. (2026). É preciso ser especialista para ser influente? Podcast. Spotify.
https://open.spotify.com/episode/5bDTY5ms36ubVoHJlQaZoL
Dejours, Christophe. (2007). Subjectivity, work and action. Routledge.
Han, Byung-Chul. (2015). The burnout society. Polity Press.
Han, Byung-Chul. (2017). Transparency society. Stanford University Press.
Han, Byung-Chul. (2018). Psychopolitics: Neoliberalism and new technologies of power. Verso.
Morin, Edgar. (2008). On complexity. Hampton Press.
Morin, Edgar. (2014). Teaching to live: Manifesto for changing education. Bloomsbury.
Rosa, Hartmut. (2019). Resonance: A sociology of our relationship to the world. Polity Press.
Winnicott, Donald W.. (1971). Playing and reality. Tavistock.
Youpix & Nielsen. (2025). Influência: 80% dos consumidores compram produtos sugeridos por creators. Meio & Mensagem.
https://www.meioemensagem.com.br/marketing/influencia-80-dos-consumidores-compram-produtos-sugeridos-por-creators


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