A morte do eu que ainda insiste em existir

Já imaginou se tudo começasse a ruir ao mesmo tempo, sem aviso e sem intervalo para respirar? Primeiro um revés financeiro, depois perdas que não pedem licença, dívidas que crescem enquanto a vida encolhe. Aos poucos, o cotidiano vai ficando estreito, repetitivo, quase automático, como se você estivesse apenas cumprindo um roteiro que não escreveu. Até que, num gesto que parece pequeno, mas não é, você decide desaparecer por alguns dias, sem celular, sem rastro, sem ninguém para te localizar.

Leva consigo o pouco que restou e, talvez mais por exaustão do que por esperança, arrisca tudo em um jogo qualquer desses que prometem o improvável. E então acontece. O dinheiro vem. Não pouco, mas o suficiente para redesenhar completamente a sua vida, para que nunca mais seja preciso calcular cada escolha ou medir cada desejo. Só que, no caminho de volta, algo desloca tudo de lugar: encontraram um corpo, não puderam identificar, e decidiram que era você. Deram um fim à sua história sem que você estivesse presente.

O susto é imediato, a revolta também, mas logo surge outra coisa, mais silenciosa e mais perigosa: a possibilidade. Se todos acreditam que você morreu, o que exatamente ainda te prende à vida que era sua? Você pode trocar de nome, de cidade, de aparência, pode se instalar longe de tudo e de todos, com dinheiro suficiente para não prestar contas a ninguém. A pergunta parece simples, mas não é: o que você faria?

É dessa fissura que parte O Falecido Mattia Pascal, de Luigi Pirandello. Mas reduzir essa história a uma fantasia de recomeço é perder o essencial. Porque o problema nunca foi apenas a vida que desmorona, e sim o que acontece quando ela, de repente, deixa de existir para os outros, mas continua existindo em você.

Vivemos hoje como se estivéssemos sempre à beira de uma outra vida possível, constantemente tentados pela ideia de que bastaria um evento, uma decisão, um golpe de sorte para finalmente começar de verdade. Enquanto isso, vamos nos moldando a exigências que nem sempre escolhemos, exibindo versões cada vez mais ajustadas de nós mesmos, medindo valor em desempenho, visibilidade e aprovação. E, mais recentemente, alimentando uma expectativa quase infantil de que o reconhecimento virá rápido, de que bastará uma exposição certeira, uma “lacrada” bem calculada, um vídeo que viraliza para que a vida mude de patamar.

Não é difícil encontrar exemplos disso. Celebridades de internet que surgem quase do nada, acumulam seguidores, contratos, cifras que parecem irreais. Histórias que se espalham como prova de que o sucesso pode ser imediato, acessível, quase inevitável para quem souber jogar o jogo certo. O que raramente se discute é o custo invisível dessa lógica, nem o quanto ela sustenta um imaginário que desloca o sujeito da própria experiência para colocá-lo numa espera contínua por um acontecimento salvador. Enquanto isso, a vida concreta, aquela que exige tempo, repetição, frustração e elaboração, vai sendo adiada.

Diante disso, a hipótese de simplesmente sumir ganha um brilho ainda mais sedutor. Não como fuga covarde, mas como promessa de liberdade e, quem sabe, de reinvenção bem-sucedida. Só que essa promessa carrega um equívoco que raramente encaramos: sair da própria vida não significa sair de si mesmo. E talvez o que mais nos aprisiona não esteja no nome que carregamos, nem no endereço que ocupamos, mas nas formas silenciosas pelas quais aprendemos a existir e a nos medir.

Se ninguém souber quem você foi, o que sobra de você?
Se não houver mais ninguém para confirmar sua história, ela ainda se sustenta?
E, mais desconfortável ainda, será que a vida que você imagina começar seria de fato outra, ou apenas a repetição da mesma lógica em outro cenário, agora com novos aplausos, novos números e a mesma dependência de ser visto?

A força do romance de Pirandello não está em oferecer respostas, mas em desmontar essa fantasia com uma precisão quase cruel. Ele não se interessa pelo que você faria com uma segunda chance, porque desconfia, com razão, de que você faria mais ou menos o mesmo, ainda que em outro cenário, com outro nome, talvez até com outra aparência.

O problema não está na vida que você leva, nem nas circunstâncias que te cercam, mas na maneira como você insiste em habitá-las. Você pode mudar de cidade, de história, de destino. Pode até desaparecer aos olhos do mundo. Mas não há disfarce que resolva o incômodo mais persistente: o de continuar sendo, ainda assim, você. E talvez seja por isso que a ideia de recomeço seduz tanto, porque ela evita uma pergunta bem menos confortável, quase indecente.

Não é sobre começar de novo.

É sobre o que ainda te impede de começar, sem a desculpa de esperar que o mundo, o acaso ou alguma versão futura de si mesmo façam o trabalho por você.


3 respostas a “A morte do eu que ainda insiste em existir”

  1. […] April 10, 2026 Versão em Português […]

  2. Avatar de Priscilla Nazareth
    Priscilla Nazareth

    Simplesmente maravilhoso! Vivemos exatamente assim no dia dia… como se tudo tivesse errado, como se não tivéssemos vivendo a vida que deveríamos… pensando nas possibilidades…

    1. Avatar de rennenunes

      Priscilla, obrigado pelo comentário. De fato, a gente vive como se estivesse sempre em dívida com uma vida ideal, como se a que está em curso fosse só um rascunho esperando a versão definitiva. O problema é que, enquanto isso, a vida real vai acontecendo e passando. Talvez a questão nem seja encontrar outra possibilidade, mas conseguir sustentar a que já está diante de nós.

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