Ó céus, ó vida… tudo sob controle!

Havia uma dupla curiosa nos desenhos dos anos 60: Lippy the Lion & Hardy Har Har, criação da Hanna-Barbera. De um lado, Lippy, o leão que parecia sempre um passo à frente da realidade, sustentado por um entusiasmo imune ao que de fato acontecia. Do outro, Hardy, a hiena que carregava um pressentimento constante, como se o fracasso não fosse uma possibilidade, mas um dado já incorporado à experiência.

A dinâmica entre os dois se apoiava numa repetição previsível, quase confortável. Lippy convocava a confiança como quem ocupa uma posição, não exatamente como quem observa. Hardy respondia com um recuo que dispensava verificação. Não se tratava apenas de um contraste de temperamentos, mas de duas maneiras de se relacionar com aquilo que ainda não ocorreu, ambas curiosamente pouco interessadas no que viria a acontecer.

A dupla revela algo menos ingênuo do que parece à primeira vista. Lippy não depende do sucesso para sustentar sua aposta, porque ela vem antes de qualquer prova. Hardy, por sua vez, também não precisa do fracasso para justificar a desistência, porque já se organiza a partir dele. Entre um e outro, o real deixa de ser campo de experiência e passa a ocupar um lugar secundário, quase dispensável.

Revisto hoje, o desenho deixa de ser apenas uma comédia de opostos. O que ele encena é o modo como nos colocamos diante do imprevisível. Há ali uma espécie de acordo silencioso: agir sem realmente se expor ou recuar sem precisar tentar. Em ambos os casos, o que se preserva não é o resultado, mas a própria posição diante do mundo.

Talvez seja por isso que a dupla ainda ressoe. O humor está ali, evidente, mas é a forma discreta com que encena duas maneiras eficazes de evitar o encontro com o que não se controla que a sustenta.

Se essa pequena engrenagem ainda nos diz algo, é pelo deslocamento que ela produz. A familiaridade da cena é secundária. O que antes aparecia como traço de personalidade assume contornos de exigência. O entusiasmo se converte em norma difusa, pouco nomeada, mas amplamente reconhecível. Não se espera apenas crença. Exige-se a sustentação contínua da aparência de sucesso.

A figura de Lippy encontra, nesse cenário, um terreno fértil. Seu otimismo, antes facilmente lido como ingenuidade, passa a operar como modelo. A confiança se torna linguagem corrente, orientação prática, critério de valor. Há uma economia psíquica que transforma a antecipação do sucesso em postura. O sujeito é convocado a aderir a essa lógica, a manter-se em movimento, a não interromper o circuito da afirmação.

O que se apresenta como positividade, porém, não elimina o negativo. Apenas o reorganiza. A recusa, a dúvida e a hesitação não desaparecem. Tornam-se menos visíveis, mais difíceis de sustentar publicamente, rapidamente recodificadas como falha individual. Nesse sentido, o excesso de confiança opera como forma de regulação. Ele delimita o que pode aparecer, o que se diz e o que precisa ser corrigido.

Nesse contexto, Hardy não desaparece. Sua presença persiste, deslocada. Já não ocupa o lugar de contraponto legítimo; torna-se um ruído tolerado, desde que não comprometa o andamento geral. Seu cansaço, sua descrença, sua antecipação do pior passam a ser tratados como inadequação. Ainda assim, ele insiste, sem encontrar lugar.

O incômodo não está na oposição entre um e outro. Está no fato de que ambos participam de uma mesma economia. Um sustenta a engrenagem pela adesão, o outro pelo esgotamento. Em nenhum dos casos a relação com o real se torna mais consistente. O que se mantém é a dificuldade de sustentar o que escapa ao controle, o que não se antecipa nem se resolve.

Há, portanto, mais do que uma simples oposição entre essas duas figuras. O que se vê é uma circulação entre posições que se alimentam mutuamente. O entusiasmo permanente cobra um custo que nem sempre se reconhece de imediato. Sustentar a expectativa de que tudo deve funcionar, de que todo obstáculo pode ser superado e de que a disposição correta basta produz um desgaste específico. Um cansaço que não interrompe, mas se acumula sem encontrar lugar de inscrição.

É aí que Hardy retorna com outra tonalidade. Surge como efeito de um circuito que não admite falhas. Quando a exigência de desempenho se torna contínua, a antecipação do fracasso pode operar como defesa. Dizer que não vai dar certo funciona, às vezes, como forma de reduzir a exposição, evitar o investimento, preservar-se de uma lógica que cobra sem cessar.

Essa movimentação não implica uma escolha nítida entre um polo e outro. O mesmo sujeito pode alternar momentos de adesão entusiasmada e retrações marcadas pela descrença. O que permanece é a dificuldade de sustentar uma relação com o que não se deixa antecipar. Nem a confiança irrestrita nem a desistência prévia parecem oferecer condições para isso. Ambas organizam a experiência de modo a contornar o encontro com aquilo que escapa.

Talvez por isso a insistência contemporânea na positividade não produza exatamente mais vitalidade, mas uma forma específica de esgotamento. Não se trata de ausência de energia, mas de sua captura em um circuito que não admite interrupção. E, quando a interrupção se impõe, tende a aparecer como falha individual, não como limite de um modo mais amplo de organização.

O ponto que se delineia não leva a uma síntese conciliadora. Não passa por um meio-termo entre entusiasmo e desistência, nem por um ajuste fino das expectativas. Esse tipo de solução não resolve nada. Mantém o problema de pé e preserva a exigência de que a relação com o mundo precise ser previamente administrada.

Há algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil de sustentar. Nem a confiança nem o fracasso, quando antecipados, permitem uma experiência real do que acontece. Ambos organizam o campo antes que algo se dê e, com isso, reduzem a margem de encontro com o imprevisível. O resultado é uma perda de contato com o real e um empobrecimento da experiência.

Talvez o que tenha se tornado raro não seja a esperança ou a crítica. O que falta é a possibilidade de permanecer diante do que não se resolve de imediato. Permanecer sem pressa de concluir, sem a necessidade de garantir um desfecho, sem recorrer a garantias que aliviam mais do que esclarecem. Isso exige uma disposição pouco valorizada. Não produz efeitos rápidos, não se traduz facilmente em desempenho e dificilmente se sustenta como narrativa convincente.

Hardy, que nunca esperava sair ileso, e Lippy, sempre certo de que tudo daria certo, já não funcionam como opostos. O que indicam é a dificuldade de sustentar uma posição que não se antecipe ao que acontece. Entre um e outro, resta a tarefa menos visível e mais exigente de sustentar o intervalo, o tempo em que algo ainda não se definiu e, por isso mesmo, pode se transformar.

A dupla dos anos 60 permanece como um pequeno espelho. Não devolve uma imagem nítida; revela, por deslocamento, aquilo que preferimos não reconhecer diretamente: a facilidade com que se adere a uma confiança automática, a rapidez com que se recorre a uma desistência antecipada, a dificuldade de sustentar um intervalo em que nada está garantido.

Não há solução pronta nem posição correta esperando por você. O que há é um trabalho discreto, pouco visível e raramente recompensado. Sustentar uma situação sem fechá-la rápido demais, tolerar o que não se organiza como deveria, suportar o que não se resolve nem pelo otimismo nem pela antecipação do fracasso.

E você? Está mais ocupado em garantir que vai dar certo ou em se proteger da chance de que não dê? Em qual dessas versões você se sente mais confortável? Porque, em ambas, há um alívio: o de não precisar realmente se implicar no que acontece.

Lippy continua sorrindo. Hardy continua lamentando. Entre os dois, há algo que não se deixa capturar. Um intervalo que não promete nem protege muito. Ainda assim, é ali que a experiência pode acontecer e é justamente ali que poucos permanecem.


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