Outro dia me deparei com uma foto minha, recebendo um diploma de pré-escola, em 1986. Fiquei olhando por um bom tempo, tentando imaginar que espécie de mundo cabia naquele menino. Há uma estranheza discreta em reconhecer uma imagem e não reconhecer inteiramente a história que a sustenta. Sou eu, mas também não sou mais. Ou talvez nunca tenha sido do jeito que hoje imagino.
Tenho poucas lembranças daquele dia. O que me veio foi uma imagem imprecisa de uma menina da turma, alguém por quem, talvez, eu tivesse um afeto silencioso. Não sei seu nome, não sei para onde foi, só sei que em algum momento ela deixou de estar. É curioso como certas presenças não permanecem como memória, mas como uma espécie de falta que não chega a se completar.

Enquanto isso, o mundo acontecia em outra escala. O cometa Halley cruzava o céu, arrastando consigo expectativas que cada um nomeava à sua maneira. Um reator explodia em Chernobyl, uma nave se desfazia no ar diante de olhos que acreditavam no progresso, e por aqui o país tentava reorganizar o tempo com o Plano Cruzado, como se fosse possível negociar com o próprio ritmo das coisas. Havia uma espécie de febre no mundo, uma agitação que eu não percebia, protegido por uma ignorância que não era falta, era inteireza.
Na minha dimensão, o que se desenhava era outro tipo de acontecimento. A escola, olhando hoje, me parece menos um lugar de conteúdos e mais um território de encontros. Professores que chegavam e, sem aviso, partiam, como se a vida tivesse sempre algo mais urgente a convocar. Lembro de uma professora cheia de presença, dessas que ocupam o espaço com a própria voz, com o gesto, com o corpo inteiro. Nunca mais a vi. Às vezes penso em procurá-la, Nilza, o nome que ficou, mas talvez o que me move não seja encontrá-la, e sim sustentar a pergunta.
Também me lembro de um professor de matemática, rígido, preciso, desses que não facilitam o caminho. Hoje talvez fosse enquadrado, ajustado, corrigido. Mas havia nele algo que só reconheço agora: uma atenção silenciosa ao interesse genuíno, ao aluno que se inclinava sobre a dúvida em vez de fugir dela. Não era acolhimento no sentido mais confortável, mas era uma forma de respeito.
Essas experiências iam se acumulando sem anúncio. Na segunda série, tive uma professora de quem eu gostava muito. Quando soube que ela iria embora, senti uma espécie de desencaixe, como se algo tivesse perdido a sua continuidade. Não era apenas a ausência dela, era a descoberta de que aquilo que parecia estável também se desfaz. Há aprendizados que não vêm das explicações, mas das interrupções.
E, no meio disso, havia também a leveza que escapava ao controle. Lembro de uma apresentação de teatro na quarta série. Eu fazia o papel de um médico e, em algum momento, deixei a cabeça da colega cair no chão de madeira. O barulho foi alto, o riso veio imediato. É uma lembrança pequena, mas resistente, como se o tempo, ao apagar tantas coisas, tivesse escolhido preservar aquilo que não pretendia durar.
Rever essa foto me fez perceber que a vida não se organiza pelos grandes acontecimentos que aprendemos a nomear, mas por essas pequenas travessias cotidianas. O que nos forma não é apenas o que permanece, mas também o que se perde, o que se desloca, o que não chega a se fixar. A memória não é arquivo, é reinvenção paciente. Ela não guarda o que foi, mas o que ainda insiste.
Hoje, tantos anos depois, às vezes me pego pensando por onde andariam esses professores. Quantas turmas atravessaram, quantos nomes passaram por eles até se tornarem indistintos. Alguns talvez tenham se aposentado, outros já não estejam mais aqui. De alguns ainda vejo rastros pelas redes, presenças distantes que confirmam que seguiram. De outros, não sei absolutamente nada. E, no entanto, há algo que permanece como uma espécie de reconhecimento silencioso: eles não transmitiram apenas conteúdos, mas partilharam um tempo, uma atenção, um modo de estar que, de alguma forma, ainda me atravessa.
E foi justamente ao olhar novamente para aquela fotografia, penso que aquele diploma dizia muito pouco sobre o que viria. Era um papel leve, quase insuficiente. E, no entanto, talvez dissesse o essencial sem que eu pudesse entender: que aprender não é acumular, mas atravessar. Que crescer é lidar com o que se desfaz enquanto ainda estamos tentando compreender.
Quarenta anos depois, o mundo mudou de ritmo, de escala, de linguagem. Muitas coisas passaram, outras se repetiram com novas roupagens. E eu sigo, de algum modo, tentando reconhecer nos rastros do que fui aquilo que ainda me move.
Olho a foto mais uma vez e tenho a impressão de que ela me observa de volta, como se soubesse algo que ainda não alcancei. Talvez crescer seja isso, habitar essa distância entre o que fomos e o que pensamos ter nos tornado, sem nunca conseguir preencher completamente esse intervalo. E então me ocorre uma pergunta: quando olho para aquele menino, estou tentando lembrar quem fui, ou tentando entender quem, afinal, nunca deixei de ser?


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