A história da virilidade não começa na força. Começa no susto. Começa no momento em que o homem descobre que não governa plenamente nem mesmo o próprio corpo. Para o ideal masculino, há algo de profundamente perturbador na constatação de que aquilo que foi elevado à condição de emblema de poder também pode falhar, vacilar, amolecer, envelhecer, escapar ao comando e expor o homem ao ridículo. Como mostra Gazalé (2017), o que foi simbolicamente investido como signo de potência traz em si, ao mesmo tempo, a possibilidade do fracasso e da humilhação. O que deveria garantir soberania carrega, desde o início, a ameaça de sua própria queda.
Assim, a virilidade deixa de ser um traço e se transforma numa tarefa exaustiva. Não basta ser homem. É preciso parecer homem, sustentar uma imagem, confirmá-la diante de outros homens, reiterá-la no corpo, na voz, nos gestos, na postura, no desejo e no desempenho. Como se o masculino, por si só, nunca bastasse e precisasse o tempo todo de testemunhas, sinais e demonstrações públicas para se manter de pé.
Sob esse ponto de vista, a virilidade está menos próxima de uma essência do que de uma encenação defensiva. Quanto mais frágil o solo, mais teatral a firmeza. Quanto maior o risco de vacilo, mais rígido o personagem. E talvez por isso a virilidade tantas vezes se organize não apenas como exibição de potência, mas como recusa feroz de tudo aquilo que possa lembrar a vulnerabilidade, a passividade, a delicadeza, a dependência e, sobretudo, o feminino. Como se, para seguir ocupando o lugar de quem domina, o homem precisasse antes expulsar de si qualquer traço que o aproximasse daquilo que a cultura, por séculos, tratou como inferior, risível ou submisso.

Os figurinos da virilidade
Basta um pequeno desvio no olhar para que a suposta naturalidade da virilidade comece a perder consistência. Em algum momento da história, por exemplo, homens usaram salto alto. Não como extravagância marginal, nem como gesto de transgressão, mas como insígnia de distinção, poder e prestígio. Aquilo que hoje, no imaginário corrente, foi rigidamente codificado como feminino já pertenceu sem escândalo ao repertório masculino. O dado, à primeira vista anedótico, tem força teórica: ele mostra que os sinais exteriores da masculinidade nunca foram estáveis, naturais ou eternos. Foram construídos, deslocados, disputados e reorganizados ao longo do tempo.
É justamente aí que a reflexão se torna mais incômoda. Se os emblemas do masculino mudam, então a virilidade não repousa sobre uma essência, mas sobre convenções históricas que se apresentam como se fossem natureza. Aquilo que parece evidente demais para ser interrogado costuma ser, não raro, o efeito mais bem-sucedido da cultura. Como observa Bourdieu (2020), a dominação masculina opera com tanta eficácia justamente porque transforma construções históricas em evidências aparentemente óbvias, inscritas nos corpos, nos gestos, nos hábitos e nas percepções.
Não se trata, portanto, apenas de moda, indumentária ou aparência. O que está em jogo é a maneira como uma sociedade distribui valores, hierarquias e permissões a partir de signos que passam a organizar o que deve ser lido como força, autoridade, elegância ou fraqueza. O salto alto, nesse contexto, ultrapassa a condição de curiosidade histórica e funciona como sintoma: ele revela que a fronteira entre masculino e feminino é menos sólida do que as pedagogias da virilidade gostariam de admitir. E talvez isso explique por que certas mudanças de código provoquem tanto incômodo. Quando um signo escapa ao seu enquadramento habitual, o que vacila não é apenas um costume; é a fantasia de que existe um masculino puro, coerente e naturalmente dado.
Essa instabilidade ajuda a compreender por que a virilidade exige vigilância constante. Se ela fosse uma substância, bastaria existir. Mas, como depende de códigos, sinais e reconhecimentos, ela precisa ser reiterada, policiada e defendida. O que muda historicamente não elimina essa exigência; apenas altera seus figurinos. Em cada época, a masculinidade hegemônica escolhe seus adereços, suas posturas legítimas, seus modos autorizados de ocupar o corpo e o espaço. O que permanece, sob novas roupagens, é a ansiedade de sustentar uma imagem que nunca se mostra completamente segura.
Feminizar para humilhar
Se tantas interações entre homens parecem atravessadas pela necessidade de provar virilidade, é porque o risco em jogo não é pequeno. Não se trata apenas de parecer fraco, mas de ser simbolicamente deslocado para uma posição historicamente desvalorizada: a do feminino. É nesse ponto que a análise de Bourdieu se torna especialmente incisiva. Ao discutir a lógica da dominação masculina, o autor observa que a ordem simbólica tradicional se organiza a partir de uma oposição profundamente hierarquizada entre masculino e feminino, em que o primeiro é associado ao ativo, ao dominante, ao ereto, ao que penetra e possui, enquanto o segundo é empurrado para o passivo, o submisso, o penetrável e o possuído (Bourdieu, 2020).
Isso significa que a humilhação viril não se limita à perda de prestígio individual. Ela envolve uma reclassificação simbólica. Como observa Gazalé (2017), a virilidade nunca se constitui de forma tranquila: ela precisa ser reiterada porque traz, em seu próprio centro, a ameaça da falha, do vacilo e da perda de controle. Talvez seja também por isso que a feminização opere, em tantos contextos, como dispositivo privilegiado de humilhação masculina. Rebaixar um homem, nesse esquema, é frequentemente aproximá-lo daquilo que a própria cultura tratou de inferiorizar. A ofensa dirigida a ele quase nunca incide apenas sobre sua pessoa. Ela o feminiza. E, ao feminizá-lo, reinscreve a velha gramática segundo a qual o que há de mais degradante para um homem é ser confundido com aquilo que o imaginário patriarcal aprendeu a desprezar. O alvo imediato pode ser um homem específico, mas o fundamento da injúria continua sendo a desqualificação do feminino.
É por isso que tantas piadas, deboches e agressões cotidianas entre homens se organizam em torno de gestos, modos de falar, timbres de voz, cores, roupas, delicadezas, hesitações ou afetos que possam ser lidos como femininos. O problema, no fundo, não está no traço em si, mas no que ele ameaça desarranjar na economia viril. Quando um homem se mostra sensível demais, contido demais, vaidoso demais, delicado demais ou vulnerável demais, não raro desperta reações desproporcionais, como se tivesse traído um pacto silencioso. A violência da resposta revela o tamanho da fragilidade que ela tenta encobrir.
Bourdieu (2020) radicaliza esse ponto ao mostrar que, em diversas tradições, a penetração não foi pensada apenas em termos sexuais, mas também políticos e simbólicos: penetrar podia equivaler a dominar, ao passo que ser penetrado implicava uma perda de estatuto, uma ab-rogação simbólica de poder. Trata-se de uma lógica brutal, mas extremamente elucidativa. Ela permite compreender por que, em muitas formações culturais, a passividade sexual masculina foi cercada de vergonha, desonra e estigma. Não porque o problema fosse o ato em si, mas porque ele fazia vacilar a ficção hierárquica que identifica masculinidade com invulnerabilidade, atividade e comando.
Vê-se, então, que a misoginia não é apenas um efeito colateral do regime viril. Ela é uma de suas condições de funcionamento. Para que o masculino permaneça elevado como posição de prestígio, o feminino precisa continuar associado ao que é menor, fraco, risível ou subordinado. Ridicularizar um homem por parecer feminino não é apenas corrigi-lo; é reafirmar, uma vez mais, que o feminino segue ocupando o lugar do que pode e deve ser desprezado. A crueldade banal dessas cenas não decorre apenas da hostilidade entre homens, mas da persistência de uma ordem simbólica em que tornar-se mulher, ou simplesmente parecer-se com aquilo que foi culturalmente codificado como feminino, ainda figura como ameaça, queda e humilhação.
O homem proibido de ser humano
Uma das consequências mais violentas do regime da virilidade está justamente aqui: ele não exige apenas que o homem pareça forte, ativo e seguro; exige também que rejeite tudo aquilo que possa torná-lo legível como vulnerável. A sensibilidade, o medo, a hesitação, o cuidado, a delicadeza, a dependência, o desejo de acolhimento, a fragilidade diante da perda, o abalo narcísico, a exposição afetiva. Em maior ou menor grau, tudo isso tende a ser tratado como ameaça à inteligibilidade masculina. Como se ser homem implicasse a obrigação permanente de amputar partes decisivas da experiência humana.
É nesse sentido que muitas piadas entre homens parecem funcionar como pequenas pedagogias da dessensibilização. Elas ensinam, desde cedo, o que deve ser contido, escondido ou endurecido. Não se trata apenas de aprender a falar grosso, a ocupar espaço ou a suportar dor. Trata-se de aprender a não parecer afetado, a não se mostrar frágil, a não vacilar, a não se aproximar demais de qualquer traço que possa ser lido como feminino. Em termos foucaultianos, trata-se também de reconhecer que a masculinidade não se sustenta apenas por interdições explícitas, mas por uma rede difusa de normas, correções e vigilâncias que produzem corpos legíveis e modos autorizados de existir (Foucault, 1994). O preço dessa aprendizagem costuma ser alto. Para preservar o personagem viril, muitos homens precisam se afastar de zonas fundamentais de si mesmos.
A brutalidade viril não se revela apenas na agressão dirigida ao outro. Ela também se exerce sobre o próprio homem que a encarna. Treinado para não falhar diante dos pares e para não se feminizar sob o olhar social, ele acaba frequentemente submetido a uma vigilância interna incessante. Corrige o corpo, modula a voz, mede o gesto, endurece a expressão, controla a emoção, recalca a ternura e transforma a própria vida psíquica em campo de contenção. A virilidade, então, deixa de ser apenas um ideal externo e passa a funcionar como polícia interior.
O paradoxo é evidente: em nome da força, produz-se empobrecimento subjetivo. Em nome da potência, multiplica-se o medo de parecer fraco. Em nome da autonomia, recusa-se a dependência constitutiva de todo vínculo humano. E assim o homem, convocado a encarnar um ideal de domínio, vai sendo discretamente interditado de aparecer como alguém atravessado por ambivalências, faltas, limites e necessidades. Como se, para ser reconhecido como homem, precisasse antes renunciar ao direito elementar de ser humano.

Sexo, poder e defesa narcísica
Essa gramática viril, que associa masculinidade a desempenho, domínio e invulnerabilidade, não se limita ao campo das interações sociais mais visíveis. Ela pode também infiltrar-se na economia do desejo, embaralhando erotismo, prova narcísica e necessidade de poder. Em vez de se apresentar como espaço de encontro, risco, entrega ou ambivalência, a sexualidade pode ser convocada a cumprir outra função: garantir ao homem, repetidamente, que ele ainda é potente, desejável, ativo, viril. Nesses casos, o sexo deixa de ser apenas experiência e passa a operar como verificação.
Foi nesse sentido que, relendo Vincent Estellon (2023), sobretudo em sua reflexão sobre as psicopatologias do vínculo e o terror de amar e de ser amado, voltou-me à memória a figura de um homem conhecido, há muitos anos, que se descrevia como alguém viciado em sexo e chegou, inclusive, a me pedir indicação de psicoterapia. Não faria sentido transformar retrospectivamente essa lembrança em diagnóstico. Seria intelectualmente preguiçoso e clinicamente indevido. Mas hoje me parece possível formular uma hipótese mais interessante: talvez aquele excesso não fosse simples expressão de liberdade pulsional ou apetite erótico, mas tentativa de sustentar, pela repetição sexual, uma imagem de poder ameaçada em outro nível.
Essa hipótese importa porque toca um ponto sensível da masculinidade contemporânea. Nem toda intensa atividade sexual é compulsão, e nem todo excesso funciona como defesa. Há, porém, situações em que a repetição parece responder menos ao desejo do que à necessidade de confirmação. O que se busca, então, não é exatamente o outro em sua alteridade, mas o efeito narcísico de seguir podendo, conquistar, penetrar, provar-se. O parceiro ou a parceira corre o risco de ser reduzido à condição de espelho, plateia ou evidência. Nessa lógica, o sexo deixa de operar como linguagem do desejo e passa a funcionar como ritual de estabilização subjetiva.
É nesse ponto que a leitura de Estellon se torna especialmente elucidativa. Se amar implica aceitar dependência, exposição, incerteza e vulnerabilidade, então a intensificação da atividade sexual pode, em certos casos, operar como defesa contra aquilo que o vínculo amoroso tem de mais desorganizador: a possibilidade de ser afetado, de precisar do outro, de não controlar inteiramente a cena. A sexualidade vivida como exercício de domínio pode proteger, ainda que precariamente, contra o risco de colapso narcísico inscrito no encontro amoroso. Em vez de se deixar tocar, o sujeito ocupa, conquista, consome. Em vez de sustentar a alteridade, administra corpos. Em vez de amar, performa potência.
Sob esse prisma, o excesso sexual não aparece necessariamente como sinal de força, mas como indício de precariedade. Quanto mais compulsiva a necessidade de provar virilidade, menos sólida talvez seja sua sustentação interna. O homem que precisa confirmar sem cessar seu poder de seduzir, penetrar ou dominar pode estar menos celebrando uma potência do que tentando fugir de um abalo. Não do sexo em si, mas do que ele pode vir a revelar: que o corpo falha, que o desejo vacila, que o outro escapa, que o amor desarma e que a virilidade, quando precisa ser permanentemente demonstrada, talvez já esteja secretamente em crise.

O terror de vacilar
Em boa parte de sua história, a virilidade foi menos a expressão serena de uma potência do que a administração obsessiva de um medo. Medo de falhar, de não corresponder, de não endurecer, de não desejar como se espera, de não performar corretamente o papel. Medo, sobretudo, de ser empurrado para o lado daquilo que a própria ordem patriarcal ensinou a desprezar: o feminino, a passividade, a dependência, a fragilidade, a exposição ao outro. Sob esse ângulo, o viril nem sempre coincide com o forte. Muitas vezes, ele é apenas aquele que aprendeu a organizar melhor a própria defesa.
A cena é antiga e muda de figurino conforme a época. Mudam os adereços, os gestos autorizados, os códigos da elegância, os rituais de afirmação, os discursos sobre sexo, poder e desejo. Mas algo persiste: a necessidade de fazer da masculinidade uma prova contínua, um desempenho sem descanso, uma forma de vigilância de si e dos outros. O homem deve sustentar a aparência de quem domina, mesmo quando seu corpo falha, mesmo quando o desejo vacila, mesmo quando o vínculo o desorganiza, mesmo quando a vida lhe lembra, a cada passo, que não há soberania psíquica possível. A virilidade, nesse sentido, não é apenas um ideal. É também um cansaço.
Grande parte da brutalidade masculina nasce não do excesso de força, mas da dificuldade de lidar com a própria fragilidade. Ridiculariza-se o outro para manter a ameaça à distância. Zomba-se do gesto delicado, da voz menos grave, da sensibilidade mais exposta, porque tudo isso faz vacilar a fronteira imaginária entre o homem legitimado e o homem suspeito. Humilha-se o que se lê como feminino para restaurar, ainda que por instantes, a ficção de superioridade que organiza o pacto viril. Exagera-se no sexo, no desempenho e na exibição de potência para abafar aquilo que insiste em retornar: a insuficiência, a dependência, o medo de não ser bastante.
O problema é que toda identidade construída à custa da recusa do humano cobra um preço alto. Quando a masculinidade exige do homem que ele jamais amoleça, jamais tema, jamais dependa, jamais se exponha, jamais se deixe tocar demais, ela o condena a uma forma empobrecida de existência. Obriga-o a confundir dureza com consistência, controle com valor, domínio com desejo. E, de quebra, perpetua a lógica misógina que continua fazendo do feminino o nome daquilo que deve ser rebaixado para que o masculino possa seguir se imaginando inteiro.
A pergunta decisiva, ao fim, não é o que seja um homem viril, mas o que um homem precisa recalcar, humilhar ou destruir em si mesmo e nos outros para continuar parecendo viril. Quando a virilidade depende tanto de prova, de vigilância, de zombaria, de exibição e de controle, o que se impõe já não é a imagem de uma força, mas o sintoma de uma crise. Talvez uma das tarefas mais urgentes do presente seja libertar o masculino dessa prisão narcísica e histórica que o impede, há tanto tempo, de reconhecer no outro e em si algo infinitamente mais difícil do que dominar: a condição de ser vulnerável.
Referências
- Bourdieu, P. (1998). La domination masculine. Seuil.
- Estellon, V. (2020). Terreur d’aimer et d’être aimé: Psychopathologie du lien et de la vie amoureuse. Érès.
- Foucault, M. (1994). Histoire de la sexualité I: La volonté de savoir. Gallimard.
- Gazalé, O. (2017). Le mythe de la virilité: Un piège pour les deux sexes. Robert Laffont.


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