A mulher louca e o homem razoável: quando a violência aprende a falar baixo

No texto anterior, pensei a virilidade como uma construção defensiva: uma espécie de armadura cultural erguida contra tudo aquilo que, no imaginário masculino tradicional, possa lembrar fragilidade, dependência, ternura, hesitação ou feminilidade. Mas toda armadura tem seu preço. Algumas apenas endurecem quem as veste. Outras ferem quem está por perto.

Talvez seja justamente aí que a discussão precise avançar. Não basta perguntar o que a virilidade faz com os homens, embora essa pergunta já seja suficientemente incômoda. É preciso perguntar também o que certos modos de ser homem fazem às mulheres. O que acontece quando a necessidade masculina de parecer forte se transforma em controle? Quando a insegurança se converte em desprezo? Quando o medo de perder poder passa a organizar a vida afetiva como território de vigilância, punição e suspeita?

Depois de ouvir o episódio Toutes des folles, do podcast francês Les Couilles sur la table, fiquei com a impressão de que era preciso deslocar o foco. A figura da mulher “louca”, “instável”, “histérica” ou “manipuladora” não aparece apenas como insulto vulgar, desses que circulam em conversas de bar, grupos de mensagens ou comentários de redes sociais. Ela pode funcionar como estratégia. Uma estratégia antiga, eficiente e muitas vezes devastadora: desqualificar a palavra da mulher antes mesmo que ela possa ser escutada.

A machosfera, os discursos red pill, os ressentimentos incel e o atual mercado de restauração da masculinidade não inventaram a misoginia. Seria ingênuo atribuir ao algoritmo uma violência que atravessa séculos. Mas eles deram a essa velha estrutura uma nova gramática. Fóruns, vídeos, cursos, gurus, memes, diagnósticos de decadência e promessas de reconduzir o homem ao seu suposto lugar de força formam hoje uma pedagogia difusa do ressentimento masculino.

O problema começa quando essa força só consegue existir enfraquecendo alguém. Quando o homem, incapaz de elaborar a própria fragilidade, precisa transformar a mulher em ameaça, inimiga, culpada ou louca. Nesse ponto, a virilidade deixa de ser apenas uma performance empobrecida de si. Ela se torna uma máquina de produzir sofrimento no outro.

Chamar uma mulher de louca é uma das maneiras mais antigas de não precisar escutá-la. A palavra parece banal, quase doméstica, dessas que circulam com facilidade nos corredores da vida cotidiana: “minha ex é louca”, “ela surtou”, “ela é desequilibrada”, “ela manipula tudo”, “ela inventa histórias”. Frases pequenas, aparentemente inofensivas, mas que carregam uma operação brutal: deslocam a pergunta da violência para a credibilidade da vítima.

O gesto é conhecido. Antes de responder ao que uma mulher diz, interroga-se quem ela é. Antes de examinar a agressão, examina-se sua estabilidade emocional. Antes de perguntar o que aconteceu, pergunta-se se ela não estaria exagerando, confundindo, dramatizando, fantasiando ou distorcendo os fatos. A cena muda de lugar. A violência sai do centro, e a mulher passa a ser julgada como objeto suspeito de sua própria narrativa.

Com isso, proponho pensar o clichê da “louca” como algo mais grave do que uma ofensa. Ele funciona como uma estratégia de deslegitimação: organiza a dúvida em torno da palavra feminina antes mesmo que ela possa ser escutada. Pauline Chanu (2025), ao retomar a persistência do imaginário da histeria, mostra como certas mulheres continuam sendo aprisionadas em categorias que tornam sua dor menos legível e sua indignação menos confiável. A mulher que sofre demais perde autoridade. A mulher que reage demais perde razão. A mulher que insiste demais perde humanidade.

Essa engrenagem é cruel porque transforma os efeitos da violência em prova contra a própria vítima. Se ela está ansiosa, é instável. Se está deprimida, é frágil. Se se contradiz, mente. Se lembra de detalhes, é obsessiva. Se não lembra, é pouco confiável. Se grita, confirma a acusação de descontrole. Se silencia, parece consentir. Qualquer saída já está previamente capturada pela suspeita.

Rebecca Solnit (2014) observa que silenciar uma pessoa raramente significa apenas impedir que ela fale. Muitas vezes, significa permitir que fale enquanto se desmonta, antecipadamente, a possibilidade de que sua fala produza consequência. Essa talvez seja uma das formas mais sofisticadas de apagamento: a mulher pode até contar sua história, desde que o mundo já esteja treinado para ouvi-la como exagero.

Por isso, a figura da “ex louca” não é um detalhe anedótico da cultura masculina. Ela é uma personagem conveniente. Conveniente porque absolve o agressor antes do julgamento. Conveniente porque oferece aos amigos, à família, aos colegas, aos tribunais e até aos profissionais da escuta uma narrativa pronta: não houve violência, houve conflito; não houve controle, houve ciúme; não houve manipulação, houve mal-entendido; não houve destruição subjetiva, houve apenas uma mulher difícil.

A crueldade maior está justamente aí: quando a violência psicológica consegue se apresentar como disputa de versões, o agressor já venceu metade da batalha. A mulher não precisa apenas provar o que viveu. Precisa provar que ainda é suficientemente lúcida para merecer ser acreditada.

A violência psicológica raramente começa como espetáculo. Ela prefere entrar pela porta lateral da vida cotidiana. Vem como comentário, correção, ironia, cuidado excessivo, dúvida lançada no momento certo. Não precisa gritar de início. Às vezes, basta repetir com calma que aquilo não aconteceu, que ela entendeu errado, que está sensível demais, que sempre leva tudo para o pior lado. O terror, aqui, não está apenas na agressão. Está na administração minuciosa da realidade.

O gaslighting opera justamente nesse terreno. Não se trata apenas de mentir, negar ou manipular fatos isolados. Trata-se de corroer a confiança de alguém em sua própria percepção. A vítima começa defendendo sua versão dos acontecimentos. Depois passa a duvidar da memória. Mais adiante, já não sabe se tem direito à própria reação. A evidência vira exagero; o desconforto, drama; o medo, “frescura”; e a violência, “problema de comunicação”.

Essa é uma forma particularmente sofisticada de poder, porque desloca o conflito para dentro da vítima. O agressor não precisa mais estar presente o tempo todo. Sua voz passa a operar internamente. Ela se pergunta se não foi injusta, se não provocou, se não entendeu mal, se não está mesmo enlouquecendo. A violência, então, deixa de ser apenas algo que vem de fora. Torna-se uma espécie de tribunal íntimo, instalado na consciência de quem já foi ferida.

Marie-France Hirigoyen (1998), ao tratar do assédio moral e das formas perversas de violência psicológica, mostrou como a destruição subjetiva pode acontecer por gestos repetidos, ambíguos e aparentemente pequenos. Não é necessário um grande acontecimento traumático para desorganizar uma pessoa. Às vezes, a devastação está na repetição de desautorizações, humilhações veladas, acusações invertidas e pequenas cenas em que a vítima aprende que sua palavra nunca terá a mesma autoridade que a do agressor.

O controle coercitivo aprofunda essa lógica. Ele não se limita a uma explosão de raiva, nem a um episódio isolado de violência. É um regime. Um modo de organizar a relação por meio de vigilância, ameaça, chantagem, isolamento, culpa, dependência e medo. Evan Stark (2007) insistiu nessa dimensão ao propor que certas violências íntimas precisam ser compreendidas menos como incidentes separados e mais como uma privação contínua de liberdade. O problema não é apenas o que acontece em uma noite. É o modo como a vida inteira começa a se ajustar ao humor, ao desejo e ao controle do outro.

Nesse cenário, a pergunta “por que ela não foi embora?” revela menos curiosidade do que ignorância. Ir embora parece simples para quem olha de fora e imagina a liberdade como uma porta destrancada. Mas uma relação marcada por controle coercitivo não prende apenas pelo corpo. Prende pela culpa, pela ameaça, pela dependência material, pelo medo do julgamento, pelo isolamento, pela vergonha, pelos filhos, pela esperança de que tudo volte a ser como antes, pela destruição lenta da confiança em si. Quem pergunta com pressa talvez não queira entender. Quer apenas preservar a fantasia confortável de que, no lugar dela, teria agido melhor.

Judith Herman (2015), ao escrever sobre trauma, lembra que a violência interpessoal atinge não apenas a segurança física, mas a possibilidade de confiar no mundo, nos outros e em si mesma. A experiência traumática rompe a continuidade da vida psíquica. No caso da violência psicológica, essa ruptura pode ser ainda mais insidiosa, porque muitas vezes não há cena única, prova definitiva ou ferida visível. Há uma sequência de acontecimentos que, isoladamente, parecem pequenos demais para comover. Juntos, porém, vão estreitando o mundo.

Por isso, reduzir essas dinâmicas a “brigas de casal” é uma forma socialmente aceitável de cumplicidade. A palavra “briga” sugere simetria. Faz parecer que há dois sujeitos em conflito, duas versões equivalentes, dois temperamentos difíceis. Mas controle não é conflito. Humilhação não é desentendimento. Vigilância não é cuidado. Medo não é amor intenso. E uma relação em que uma pessoa precisa medir cada palavra para evitar punição já deixou há muito tempo o terreno da reciprocidade.

Quando a realidade vira campo de batalha, vencer não significa convencer. Significa sobreviver sem perder inteiramente a confiança na própria percepção. Talvez seja por isso que a violência psicológica seja tão difícil de narrar. Como explicar a alguém que não esteve ali que a destruição não estava apenas no que foi dito, mas na repetição? Não apenas na frase, mas no tom. Não apenas no gesto, mas no depois. Não apenas na ameaça explícita, mas na atmosfera que fazia cada gesto parecer perigoso.

É nesse ponto que a virilidade defensiva encontra uma de suas formas mais sombrias. O homem que não suporta ser contrariado, abandonado, frustrado ou desidealizado pode tentar restaurar sua posição atacando a realidade da mulher. Se ela não o confirma, será acusada de ingrata. Se não o obedece, será chamada de descontrolada. Se denuncia, será transformada em mentirosa. Se adoece, servirá como prova de que ele sempre teve razão.

A violência psicológica, nesse sentido, não apenas machuca. Ela edita o mundo. Reescreve cenas, apaga rastros, troca culpados de lugar, transforma defesa em agressão e sofrimento em instabilidade. Talvez seja essa sua perversidade maior: fazer com que a vítima precise lutar não apenas por justiça, mas pelo direito elementar de confiar no que viveu.

A machosfera não inventou a misoginia. Seria cômodo demais imaginar que a violência contra as mulheres nasceu em fóruns obscuros da internet, vídeos de homens ressentidos ou comunidades que transformam fracasso afetivo em teoria social. A misoginia é muito mais antiga, sofisticada e bem distribuída do que isso. Atravessa instituições, famílias, religiões, piadas, tribunais, diagnósticos, romances, heranças, silêncios e modos aparentemente neutros de organizar a vida. O que a machosfera fez foi dar a essa velha estrutura uma linguagem de grupo, uma estética de pertencimento e uma promessa de explicação total. Para muitos homens frustrados, solitários, inseguros ou ressentidos, esses espaços oferecem uma resposta sedutora: o problema não estaria em sua dificuldade de amar, escutar, desejar, perder, elaborar ou sustentar a própria falta. O problema estaria nas mulheres, no feminismo, na modernidade, na decadência moral, na inversão dos papéis, na suposta destruição da masculinidade tradicional.

É uma máquina narrativa eficiente. Ela recolhe experiências reais de sofrimento masculino, como rejeição, solidão, fracasso amoroso, insegurança corporal, precariedade econômica, medo da comparação e humilhação, e as reorganiza numa chave persecutória: alguém roubou dos homens aquilo que lhes pertencia. A partir daí, a dor deixa de ser elaborada e passa a ser politicamente armada. O sofrimento vira ressentimento; o ressentimento, doutrina; a doutrina, comunidade. A mulher, então, passa a ocupar o lugar daquela que teria recusado, humilhado, traído, explorado ou enfraquecido o homem. Torna-se personagem central de uma narrativa em que o sujeito masculino não precisa se interrogar. Precisa apenas acusar.

É por isso que certos discursos red pill e incel são perigosos. Eles oferecem uma falsa lucidez. Prometem revelar “como as mulheres realmente funcionam”, como se o feminino fosse um código a ser decifrado, uma ameaça a ser neutralizada, um mercado a ser dominado ou um inimigo a ser desmascarado. A linguagem se veste de ciência, estratégia e psicologia evolutiva, mistura autoajuda de combate com filosofia de botequim e tenta fazer do ressentimento uma teoria sobre o mundo. Fala-se em natureza, hierarquia, valor sexual, dominação, energia masculina, submissão, seleção, poder. Tudo parece racional, mas muitas vezes estamos diante de uma velha ferida narcísica usando gravata conceitual.

bell hooks (2004) observava que o patriarcado ensina os homens a mutilarem partes de si mesmos para caberem numa imagem de força. O menino aprende cedo que ternura ameaça, que dependência humilha, que chorar diminui, que amar demais enfraquece. O problema é que essa amputação emocional raramente fica confinada ao homem. Aquilo que ele não reconhece em si passa a ser combatido no outro. A mulher torna-se depositária de tudo aquilo que a masculinidade defensiva precisou expulsar: fragilidade, ambivalência, medo, cuidado, dependência e dor.

Olivia Gazalé (2017) mostra como o mito da virilidade aprisiona homens e mulheres numa ficção brutal: aos homens, exige desempenho, domínio e invulnerabilidade; às mulheres, reserva suspeita, subordinação e controle. A promessa viril é grandiosa, mas revela sua fragilidade quando precisa transformar a autonomia feminina em ameaça. Rita Segato (2016) amplia esse ponto ao mostrar que a violência contra mulheres não pode ser reduzida a impulsos individuais ou desvios privados; ela muitas vezes funciona como pedagogia de poder, reafirmando hierarquias e restaurando, pela força, uma autoridade masculina ameaçada. Claro que nem todo homem que fala de masculinidade participa disso. Há homens tentando pensar paternidade, saúde mental, amizade, corpo, envelhecimento, sexualidade, solidão e sofrimento psíquico de maneira séria. O problema começa quando a conversa sobre homens se organiza contra as mulheres, quando a dor masculina só consegue existir como acusação, quando a pergunta “como podemos viver melhor?” é substituída por “como retomar o controle?”. Talvez seja essa a questão decisiva: a machosfera vende aos homens a fantasia de que foram traídos pela modernidade, quando talvez estejam apenas sendo convocados, pela primeira vez com alguma seriedade histórica, a dividir o mundo. E dividir o mundo, para quem foi educado a possuí-lo, pode parecer uma forma de castração.

Em tempos de desorientação afetiva, não faltam promessas de direção. Quando os vínculos se tornam mais instáveis, os papéis de gênero perdem a rigidez de antes e mulheres já não parecem tão disponíveis para ocupar o lugar silencioso que lhes foi reservado, uma parte dos homens experimenta essa mudança como perda de chão. O problema começa quando essa perda de chão é rapidamente traduzida como perda de poder e vendida como tragédia civilizatória. É nesse cenário que cresce o mercado da restauração masculina: cursos, mentorias, retiros, comunidades, perfis e discursos que prometem devolver ao homem algo que ele supostamente perdeu. Fala-se em essência, missão, liderança, honra, potência, direção, presença. A linguagem é quase sempre épica, como se o homem contemporâneo fosse um cavaleiro extraviado no shopping center da modernidade, procurando uma espada entre a praça de alimentação e a loja de suplementos.

A fórmula é sedutora porque oferece grandeza a quem se sente perdido. Em vez de perguntar por que tantos homens têm dificuldade de sustentar intimidade, escuta, frustração, limite e vulnerabilidade, propõe-se uma narrativa mais confortável: os homens foram enfraquecidos, a cultura os domesticou, o feminismo os confundiu, a modernidade os castrou. O problema não está em homens buscarem espaços para pensar sua experiência. A solidão masculina é real, assim como a precariedade afetiva e a dificuldade de muitos homens em nomear suas dores sem transformá-las em raiva. O ponto crítico aparece quando esses espaços não convidam os homens a pensar, mas a restaurar uma autoridade ferida. Quando não perguntam “como você se tornou incapaz de escutar?”, mas “quem roubou o seu lugar?”. Como lembra bell hooks (2004), o patriarcado também ensina os homens a se afastarem de sua própria vida emocional. Isso, porém, não os absolve. Se um sistema mutila afetivamente, a tarefa não é transformar essa mutilação em direito de ferir. É interromper a transmissão da ferida.

Há algo de profundamente regressivo nessa nostalgia de uma masculinidade perdida. Ela costuma se apresentar como retorno à força, mas frequentemente carrega uma saudade mal disfarçada da obediência: de um tempo em que o desejo feminino importava menos, em que provisão podia ser confundida com autoridade, cuidado com comando, proteção com controle. Olivia Gazalé (2017) mostra que a virilidade sempre foi uma construção instável, sustentada por provas, rituais e exclusões. O homem viril precisa demonstrar que não é fraco, criança, mulher, passivo, dependente ou insuficiente. Por isso, essa masculinidade, tão segura em sua pose, vive assombrada por tudo aquilo que tenta negar e precisa ser continuamente restaurada. Uma força realmente sólida não precisaria de tanta manutenção simbólica, tantos manuais, tantas metáforas de ferro, fogo, farol, espada, guerra e forja. Convém desconfiar da beleza dessas imagens quando elas vêm embrulhando hierarquia. Quem segura o martelo? Quem será moldado? Quem ocupa o alto da torre? Quem deverá ser guiado? E quem será considerado perdido caso não aceite essa luz?

Esse discurso de resgate masculino se aproxima da machosfera, mesmo quando tenta parecer mais limpo, elegante ou espiritualizado. Ambos partem da mesma premissa: há algo de errado com o mundo porque os homens perderam seu lugar. A diferença é de embalagem. Uns falam em ódio, outros em missão; uns em dominação, outros em liderança; uns insultam mulheres, outros lamentam que elas já não reconheçam um “homem de verdade”. Rita Segato (2016) ajuda a entender que, em muitos contextos, a masculinidade não é apenas algo que um homem “é”. É também uma posição que ele precisa provar dentro de uma ordem de poder, sobretudo diante de outros homens. Nessa cena, a mulher muitas vezes aparece como prova, posse, ameaça ou território. Por isso, convém desconfiar de discursos que prometem “resgatar a masculinidade” sem dizer de qual perda estão falando, quem se beneficiava dela e quem deverá pagar o preço de sua restauração. Talvez a masculinidade contemporânea não precise de uma forja, mas de uma escuta; não de um farol apontado para a decadência do mundo, mas de alguma luz voltada para dentro, onde ainda se esconde a velha dificuldade masculina de admitir: “eu não sei o que fazer com aquilo que sinto”.

Há um desafio importante neste texto. Eu não quero transformar a dor das mulheres em matéria-prima para a sofisticação moral de um homem sensível. Essa armadilha existe, e seria desonesto fingir que não. Homens também podem fazer da escuta uma performance; podem falar de feminismo para parecerem lúcidos, de violência para parecerem éticos, de masculinidade tóxica para se separarem rapidamente dos “outros homens”, como se a crítica ao machismo nos colocasse automaticamente fora dele. Não coloca. Escrever sobre isso de um lugar masculino exige aceitar uma posição desconfortável: eu não sou exterior ao problema que tento pensar. Posso discordar da machosfera, criticar discursos red pill, rejeitar o ressentimento incel e desconfiar dos mercados de restauração viril. Ainda assim, fui formado numa cultura que ensinou homens a ocupar mais espaço, interromper mais, explicar mais, defender mais a própria imagem, confundir silêncio feminino com consentimento e incômodo feminino com exagero. Ninguém atravessa intacto uma cultura que distribui privilégios como se fossem traços de personalidade.

Por isso, talvez a pergunta mais honesta não seja “que tipo de homem eu quero ser?”, mas “que tipo de homem eu já fui sem perceber?”. Em que situações confundi insistência com desejo, cuidado com controle, argumento com imposição, silêncio com vitória, inteligência com superioridade? Em que momentos ouvi uma mulher apenas até o ponto em que sua fala não ameaçava minha imagem de mim mesmo? Essa pergunta incomoda porque tira o debate do campo confortável das caricaturas. É fácil condenar o homem violento quando ele aparece como figura extrema, grosseira, brutal, quase cinematográfica. Mais difícil é reconhecer as versões socialmente aceitáveis da mesma lógica: o homem ponderado que desqualifica com calma; o intelectual que transforma a dor da parceira em objeto de interpretação; o progressista que defende mulheres em público e as diminui em privado; o sensível que só escuta enquanto continua sendo admirado por sua sensibilidade. Há uma forma masculina de narcisismo que sobrevive até dentro da crítica ao machismo. Ela sussurra: “vejam como sou diferente”. O objetivo, aqui, não é parecer um bom homem. É encurtar a distância entre discurso e prática, sabendo que ela costuma ser maior do que gostamos de admitir.

Também é preciso reconhecer uma limitação: homens não conhecem por dentro o medo cotidiano que muitas mulheres aprendem a administrar. O medo de ser seguida, desacreditada, ridicularizada, tocada sem consentimento, punida por dizer não, julgada por denunciar, exposta por terminar, assassinada por ir embora. Podemos estudar, escutar, ler, observar, nos aproximar. Mas há uma dimensão da experiência que não nos pertence. Reconhecer isso não empobrece o texto; impede que ele se torne arrogante. Talvez escrever de maneira implicada seja justamente aceitar que este texto não me coloca fora da cena. Ele me coloca dentro dela, com menos desculpas. Não se trata de falar pelas mulheres, mas de falar aos homens, entre homens, contra certos pactos de silêncio que nos favorecem. Porque a masculinidade não será transformada apenas quando homens aprenderem a falar melhor sobre mulheres. Isso pode virar só mais uma estética refinada da boa consciência. Ela começa a se transformar quando homens conseguem suportar frustração, recusa, amor e escuta sem transformar tudo isso em controle, perseguição, posse ou disputa.

Talvez a pergunta já não seja se os homens estão em crise. Essa pergunta ficou pequena, quase domesticada. A questão mais incômoda é outra: o que certos homens fazem quando percebem que já não ocupam o centro com a naturalidade de antes? O que fazem quando a mulher já não confirma sua grandeza, não administra sua fragilidade, não traduz seu controle como cuidado, não aceita sua agressividade como intensidade, não oferece silêncio para preservar a paz da casa, da família, do casal ou da reputação dele?

Há homens que dizem querer ser escutados, mas confundem escuta com absolvição. Querem falar de dor, desde que essa dor não toque em responsabilidade. Querem falar de solidão, desde que a solidão possa ser lançada contra as mulheres. Querem falar de masculinidade, desde que ninguém pergunte que tipo de poder essa masculinidade ainda tenta salvar. É aí que a escuta se torna insuportável para a virilidade defensiva: quando deixa de acolher a queixa masculina como destino trágico e começa a perguntar pelo rastro de destruição que ela deixa no caminho.

Escutar uma mulher, nesse contexto, não é apenas permitir que ela fale. É aceitar que sua fala desarrume a versão mais cômoda dos fatos. É suportar que uma denúncia não venha limpa, que uma dor não venha dócil, que uma memória ferida não se apresente como relatório impecável para tranquilizar quem ouve. Escutar é abandonar o velho posto de juiz da credibilidade feminina. É renunciar ao privilégio de decidir, antes mesmo da escuta, qual sofrimento merece reconhecimento e qual será arquivado sob o nome de loucura.

A masculinidade não precisa ser resgatada. Precisa ser responsabilizada. Enquanto uma mulher ferida puder ser rapidamente convertida em mulher louca, a virilidade seguirá fazendo aquilo que tem de mais covarde: chamar de lucidez o próprio privilégio de narrar. A pergunta final não é confortável, mas é necessária: quantas mulheres ainda precisarão duvidar de si mesmas para que alguns homens continuem se sentindo inocentes?

Chanu, P. (2025). Sortir de la maison hantée: Comment l’hystérie continue d’enfermer les femmes. La Découverte.

Gazalé, O. (2017). Le mythe de la virilité: Un piège pour les deux sexes. Robert Laffont.

Herman, J. L. (2015). Trauma and recovery: The aftermath of violence: From domestic abuse to political terror. Basic Books.

Hirigoyen, M.-F. (1998). Le harcèlement moral: La violence perverse au quotidien. Syros.

hooks, b. (2004). The will to change: Men, masculinity, and love. Washington Square Press.

Segato, R. L. (2016). La guerra contra las mujeres. Traficantes de Sueños.

Solnit, R. (2014). Men explain things to me. Haymarket Books.

Stark, E. (2007). Coercive control: How men entrap women in personal life. Oxford University Press.

Titti, N. (Host). (2025). Toutes des folles (2/2) [Audio podcast episode]. In Les Couilles sur la table. Binge Audio.

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