Fui assistir a Awakening, em Las Vegas, sem ler quase nada a respeito. Confesso que isso foi uma escolha estratégica e também um pouco preguiçosa. Vi algumas fotos no Instagram, aquelas imagens brilhantes, meio impossíveis, com figurinos extravagantes, luzes dramáticas e corpos fazendo coisas que a coluna de uma pessoa comum jamais autorizaria sem uma boa conversa prévia.
Minha primeira impressão foi simples: “deve ser uma coisa meio circense”. Malabarismo, acrobacia, fumaça, gente pendurada no teto, música alta e o público fingindo naturalidade diante de alguém que resolve girar no ar como se a gravidade fosse apenas uma sugestão.

Entrei, portanto, com expectativas baixas. O que, convenhamos, costuma ser uma forma excelente de não se decepcionar. Quando a gente espera pouco, qualquer coisa minimamente bem feita já parece um presente. Mas Awakening não me pegou por falta de expectativa. Me pegou porque, em poucos minutos, ficou claro que aquilo não era apenas um espetáculo bonito, nem apenas uma variação luxuosa de circo para turista cansado depois de andar quilômetros dentro de hotéis-cassinos.
O que acontece ali é uma experiência imersiva e sensorial. A palavra “imersiva” virou um daqueles termos que se usa para tudo: exposição imersiva, jantar imersivo, reunião imersiva, até curso online agora quer ser imersivo. Muitas vezes, significa apenas que alguém aumentou o volume, apagou a luz e colocou uma projeção na parede. Mas, no caso de Awakening, a palavra se justifica. O palco circular, a proximidade com os artistas, os efeitos visuais, a música, as criaturas, os figurinos e a iluminação criam a sensação de que o público não está apenas assistindo a uma história. Ele está sendo engolido por ela.
A narrativa, em si, é simples. Luz e escuridão. Uma personagem em travessia. Mundos fantásticos. Obstáculos. Forças opostas. Reencontro. Transformação. Nada que exija um seminário de hermenêutica ou uma nota de rodapé com Freud, Jung, Bion e mais três autores franceses complicados. A história é direta, quase infantil no melhor sentido da palavra. Fácil de acompanhar, fácil de entender, fácil de sentir.
E aqui mora um ponto importante: nem toda narrativa simples é rasa. Às vezes, a simplicidade é justamente a condição para que algo mais antigo em nós consiga aparecer.
Luz e escuridão são imagens básicas da experiência humana. Não pertencem apenas aos contos de fada, às religiões, aos mitos ou aos filmes de fantasia. Elas organizam uma parte da nossa vida psíquica. Todos nós carregamos zonas iluminadas, aquelas que mostramos com certa tranquilidade: nossas virtudes, nossas boas intenções, nossos gestos civilizados, nossas frases bem formuladas, nossos melhores ângulos. Também carregamos zonas escuras: medos, invejas, agressividades, ressentimentos, desejos contraditórios, pensamentos que preferimos não postar em lugar nenhum.
O interessante é que Awakening não precisa explicar isso. Ele mostra. E, ao mostrar de forma grandiosa, quase exagerada, consegue tocar uma coisa que explicação nenhuma alcançaria com a mesma força.
Las Vegas, aliás, é o cenário perfeito para esse tipo de experiência. A cidade inteira parece uma negociação entre luz e escuridão. Tudo brilha, tudo pisca, tudo chama, tudo promete. Ao mesmo tempo, por trás daquele excesso visual, existe uma sombra evidente: consumo, aposta, solidão, artificialidade, cansaço, gente tentando se divertir com uma disciplina quase militar. Vegas é uma cidade onde o espetáculo não fica no palco. Ele começa na calçada, continua no cassino, entra no elevador, chega ao restaurante e, quando você percebe, até o teto está tentando te convencer de alguma coisa.
Dentro desse contexto, Awakening parece muito coerente. Não é um espetáculo contra Las Vegas. É Las Vegas com alguma mitologia. Las Vegas vestida de sonho. Las Vegas tentando dizer: “sim, tudo aqui é artificial, mas nem por isso deixa de produzir alguma verdade”.
Essa é uma ideia incômoda. A gente costuma tratar o artificial como sinônimo de falso. Como se só o natural fosse legítimo, profundo ou verdadeiro. Mas qualquer pessoa que já se emocionou com teatro, cinema, literatura, música ou uma bela mentira bem contada sabe que a imaginação não precisa ser “real” para produzir efeitos reais.
Ninguém sai de Awakening acreditando literalmente que viu uma batalha cósmica entre luz e escuridão. Ninguém, espero. Mas alguma coisa daquele excesso organizado atravessa o espectador. As criaturas gigantes, os corpos em movimento, os efeitos de luz, a música, a grandiosidade do ambiente, tudo conspira para suspender por alguns instantes a nossa mania adulta de controlar tudo. E adultos controlam demais.
Controlam agenda, peso, senha, cartão, reputação, opinião, tempo de tela, temperatura do ar-condicionado e até a espontaneidade. Muitos chegam à vida adulta com a imaginação domesticada. A fantasia passa a ser tolerada apenas se estiver a serviço de alguma função produtiva: criatividade para vender mais, inovação para crescer, storytelling para engajar, visualização para bater meta. Até o sonho precisa entregar resultado.
Nesse sentido, Awakening tem algo de provocativo. Ele nos coloca, adultos cansados, sentados diante de uma fantasia descarada, luxuosa, meio absurda, e nos obriga a aceitar uma pergunta simples: quando foi que imaginar passou a parecer perda de tempo?
Porque existe um constrangimento adulto diante da fantasia. A criança entra nesse tipo de mundo sem pedir autorização. Ela entende o pacto rapidamente: aquilo não é verdade factual, mas é verdade de brincadeira. E verdade de brincadeira é uma categoria muito séria. O adulto, por sua vez, fica tentando avaliar se aquilo é sofisticado, se valeu o ingresso, se a cadeira era boa, se a narrativa tinha profundidade suficiente, se o efeito especial foi realmente convincente. O adulto compra a entrada e depois luta contra a própria entrega.
No fundo, a fantasia exige uma forma de humildade. Para entrar nela, precisamos aceitar que nem tudo precisa ser explicado enquanto acontece. Precisamos suspender a ironia por alguns minutos. Precisamos admitir que ainda somos impressionáveis. E talvez essa seja uma das grandes vergonhas contemporâneas: ser impressionável. Em um mundo onde todo mundo precisa parecer inteligente, crítico e vacinado contra ingenuidades, deixar-se encantar virou quase um risco reputacional.
Mas o encantamento não é burrice. Burrice é confundir cinismo com inteligência. Awakening funciona justamente porque não pede desculpas por ser fantasioso. Ele não tenta parecer realista, discreto ou profundo demais. Ele assume o delírio. E, ao assumir o delírio com competência técnica, cria um espaço curioso: a gente sabe que aquilo é uma ilusão, mas aceita ser conduzido por ela. Não uma ilusão que engana, e sim uma ilusão que organiza uma experiência.
A psicanálise, de certa maneira, conhece bem esse território. A vida humana não é feita apenas de fatos. É feita também de fantasias, cenas internas, medos antigos, personagens íntimos, repetições, imagens e histórias que contamos sobre nós mesmos. Muitas vezes, o que nos move não é o que aconteceu exatamente, mas o modo como aquilo ficou registrado em nós. A realidade psíquica também tem seus palcos, seus monstros, suas luzes e seus truques de fumaça.
Por isso, a oposição entre luz e escuridão em Awakening não precisa ser interpretada como uma moral infantil: de um lado o bem, do outro o mal. Seria pobre demais. O mais interessante é pensar que luz e escuridão não se anulam completamente. Elas se convocam. Onde existe luz, aparece sombra. Onde existe sombra, alguma coisa pede tradução. Nossos lados obscuros não desaparecem quando fingimos ser pessoas iluminadas. Na melhor das hipóteses, eles trocam de roupa e sentam conosco à mesa.
O espetáculo toca nisso de forma simples, visual e acessível. Ele não aprofunda, não problematiza demais, não complica. Ainda bem. Seu trabalho não é substituir uma análise, uma aula ou um tratado filosófico. Seu trabalho é abrir uma fresta sensorial. E, nessa fresta, cada um leva o que consegue.
Alguns vão sair comentando os efeitos especiais. Outros, os figurinos. Outros, o preço do ingresso. Sempre existe alguém especializado em voltar do encantamento diretamente para a planilha. Faz parte. Mas quem se permite entrar um pouco mais na experiência talvez perceba que o tal “despertar” do título não é exatamente acordar para a realidade. Em certo sentido, é acordar para a fantasia. Isso parece contraditório, mas não é.
Às vezes, despertar não significa abandonar os sonhos. Significa recuperar a capacidade de sonhar acordado sem se sentir ridículo. Significa lembrar que a imaginação não é um enfeite da vida, mas uma de suas formas de respiração. Sem imaginação, a vida fica excessivamente literal. E uma vida literal demais pode ser eficiente, organizada e até respeitável, mas costuma ser pobre em assombro.
Saí de Awakening com essa impressão: o espetáculo não me ofereceu uma grande revelação sobre a condição humana, nem uma narrativa complexa sobre luz e sombra. Ofereceu algo mais raro do que parece: um intervalo bem produzido da descrença adulta. Durante algum tempo, eu não precisei decidir se aquilo era profundo ou superficial, artístico ou comercial, circense ou teatral, ingênuo ou sofisticado. Eu pude apenas olhar.
Talvez seja esse o verdadeiro luxo de um espetáculo como Awakening: não o brilho, não a tecnologia, não os efeitos impecáveis, não a grandiosidade do Wynn em Las Vegas. O luxo maior é permitir que adultos, por alguns minutos, aceitem participar de uma fantasia sem pedir desculpas por isso.
No fim, a luz e a escuridão estavam no palco, claro. Mas também estavam na plateia. Sentadas, bem vestidas, com ingresso comprado, tentando lembrar como se faz para imaginar.


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