
A casa das duas torres, de Bia Barros, é desses romances que não se deixam atravessar por uma única leitura. À primeira vista, acompanhamos Bibiana, filha caçula da segunda família do Coronel Nogueira, crescendo na tentativa de desaparecer dentro de uma casa governada pelo medo, pelos segredos e pela violência. Mas logo se percebe que A casa das duas torres não é apenas um lugar: é uma estrutura de poder, uma herança, uma máquina de silenciar corpos e histórias.
No centro dessa narrativa estão mulheres que sobrevivem como podem. Ismália, que encolhe a cada humilhação. Ágata, que encontra nas ervas, nos livros e nos saberes antigos uma forma de enfrentar a morte. Teresa, avó indígena que mantém vivos os vínculos com os ancestrais e os encantados da mata. E Bibiana, a menina invisível, que aprende a desaparecer para resistir, até que seu corpo possa encontrar outra forma de presença.
Um trecho, em especial, me tocou profundamente. Bia Barros pergunta: “… o que escondemos debaixo da pele? Há uma trama de memórias cruzando os poros. As carnes carregam em si as cicatrizes de histórias nunca contadas” (p. 67). Fiquei pensando nessa pele como um arquivo vivo, onde se depositam histórias que nem sempre puderam ser ditas. No romance, a memória não surge apenas como recordação; ela pulsa como cicatriz, como herança, como transmissão silenciosa. O corpo guarda aquilo que a palavra, por medo, dor ou impossibilidade, ainda não conseguiu alcançar.
O livro pode ser lido pela perspectiva das mulheres que lutam para sobreviver em um cenário patriarcal, rígido e brutal. Pode ser lido pela via política, como retrato de uma ordem sustentada por poder, manipulação, autoritarismo e medo. Também pode ser lido pela via do sagrado, quando a fé tenta encontrar alguma promessa de justiça onde a realidade falhou tantas vezes.
Mas me interessou especialmente lê-lo também a partir das masculinidades. Como homem e psicólogo, foi impossível não perceber a violência de um modelo patriarcal que não apenas oprime mulheres, mas precisa diminuí-las para sustentar sua própria fantasia de grandeza. O Coronel Nogueira encarna esse poder que domina porque teme ruir; manda porque não suporta ser visto em sua fragilidade; controla porque não sabe se relacionar sem transformar vínculo em posse.
Nesse sentido, o romance dialoga com algo que bell hooks apontou com precisão: o patriarcado também é uma pedagogia da brutalidade. Ele ensina homens a confundirem força com domínio, autoridade com violência, silêncio com respeito. E o custo dessa pedagogia recai, sobretudo, sobre as mulheres: mulheres que encolhem, desaparecem, adoecem, rezam, inventam, resistem.
O que mais me interessou na escrita de Bia Barros é que o fantástico não aparece como decoração literária. Ele brota das feridas da própria história. Quando uma mulher encolhe, quando um santo fala uma língua desconhecida, quando os mortos continuam rondando a casa, não estamos diante de um mundo distante demais do nosso. Estamos diante de uma linguagem possível para aquilo que muitas vezes não coube na fala comum. O romance transforma assombração em memória, encantamento em denúncia, imaginação em sobrevivência. E talvez seja por isso que o livro envolva tanto: porque o mais inquietante não é o que parece impossível, mas aquilo que reconhecemos de perto demais.
A casa das duas torres é um romance sobre memória, feminino, poder e sobrevivência. Mas é também sobre aquilo que resiste por baixo da pele, nas paredes de uma casa, nos nomes herdados, nas histórias que ninguém contou direito. Bibiana começa tentando desaparecer, como quem aprende cedo a confundir invisibilidade com proteção. O romance, porém, sabe que certas presenças não desaparecem: apenas esperam. E quando finalmente retornam, já não voltam como antes.
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