A série “Sessão de Terapia” e o tempo que uma análise exige

Em poucos anos, a expressão “saúde mental” deixou de pertencer apenas aos consultórios, hospitais e universidades para circular nas escolas, nas empresas, nas redes sociais e nas conversas cotidianas, enquanto palavras como ansiedade, depressão, trauma e esgotamento passaram a nomear experiências que antes permaneciam silenciosas ou eram tratadas como fraqueza, descontrole e falta de disciplina. Essa maior disposição para reconhecer o sofrimento não significa, contudo, que o cuidado tenha se tornado igualmente acessível: segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de um bilhão de pessoas vivem hoje com algum transtorno mental, mas a maior parte delas continua sem atendimento adequado, de modo que o vocabulário da saúde mental parece viajar pelo mundo com muito mais velocidade do que os recursos necessários para sustentá-la.

É nesse cenário que Sessão de Terapia retorna ao Globoplay, cinco anos depois da quinta temporada, lançada em 2021. Produzida pela Moonshot Pictures, dirigida por Selton Mello, escrita por Jaqueline Vargas e conduzida criativamente por Roberto d’Avila, a série estreou em 2012, no GNT, como adaptação da produção israelense BeTipul, cuja estrutura acompanhava um terapeuta recebendo diferentes pacientes ao longo da semana e procurando, ele próprio, um espaço de supervisão. As duas primeiras temporadas brasileiras partiram dos roteiros israelenses, mas, desde a terceira, as histórias passaram a ser criadas no Brasil; com a sexta temporada, lançada em 2026 e composta por 35 episódios, a versão brasileira tornou-se a adaptação mais longeva desse formato no mundo.

A nova temporada mantém o consultório de Caio Barone como centro da narrativa e apresenta personagens atravessados por impasses reconhecíveis no presente: a pressão social em torno da maternidade, a experiência de cuidar de um pai com Alzheimer, a recusa do envelhecimento, o esgotamento produzido pelo trabalho e a dificuldade de elaborar perdas que continuam agindo muito depois de ocorridas. Ao mesmo tempo, Caio passa a supervisionar uma colega, procura uma nova supervisora e se vê obrigado a reconhecer que a experiência profissional não o protege de seus próprios equívocos, desejos e repetições, preservando um dos aspectos mais interessantes da série: o terapeuta não ocupa o lugar daquele que resolveu a vida, mas o de alguém cuja escuta também é afetada por sua história.

Por mais convincentes que sejam as atuações e por mais que algumas cenas se aproximem da intimidade de um encontro clínico, convém não perder de vista que estamos diante de uma obra de ficção, submetida a duração determinada, arcos dramáticos e necessidade de produzir algum movimento perceptível ao final de cada sequência de sessões. Na vida clínica, uma frase pode levar meses para adquirir sentido, uma lembrança pode retornar sob formas diferentes e aquilo que parecia compreendido pode mostrar-se apenas a primeira camada de uma questão muito mais antiga, porque cada pessoa chega com uma história singular e com um tempo psíquico que não obedece ao calendário da produção audiovisual. A televisão precisa construir acontecimentos e encaminhar desfechos; um processo terapêutico não possui a mesma obrigação narrativa.

Feita essa ressalva, a série permite formular uma pergunta que ultrapassa suas qualidades artísticas: afinal, o que significa fazer terapia? Em sentido amplo, a psicoterapia é um trabalho clínico realizado por meio de uma relação profissional, no qual alguém encontra condições para falar de seu sofrimento, reconhecer formas recorrentes de sentir e agir, examinar conflitos e produzir outras maneiras de se relacionar consigo e com os demais. Essa definição, entretanto, abriga práticas bastante diferentes, pois abordagens cognitivo-comportamentais, humanistas, fenomenológico-existenciais, sistêmicas e psicanalíticas não partem da mesma concepção de sujeito, não escutam o sintoma da mesma maneira e tampouco imaginam que a mudança aconteça por um único caminho.

A psicanálise surge com Freud a partir da hipótese de que não somos inteiramente senhores daquilo que pensamos, desejamos e fazemos, uma vez que sonhos, lapsos, sintomas, esquecimentos e repetições podem carregar sentidos que escapam à consciência. Fazer análise não consiste, portanto, em receber conselhos de alguém supostamente mais esclarecido nem em aprender uma técnica para eliminar rapidamente tudo o que provoca desconforto, mas em criar condições para que o sujeito escute o que diz, reconheça sua participação nos impasses que se repetem e encontre palavras para experiências que ainda não puderam ser pensadas. Isso não significa converter todo sofrimento em responsabilidade individual, porque também adoecemos dentro de relações, instituições e formas de vida que distribuem desigualmente o cansaço, a insegurança e a possibilidade de existir.

Christian Dunker chama atenção para o fato de que o sofrimento não é apenas uma dor alojada no interior do indivíduo, pois sua forma se modifica quando pode ser narrado, escutado e reconhecido por outra pessoa; ao mesmo tempo, sua crítica à gestão neoliberal do sofrimento ajuda a perceber como conflitos sociais são frequentemente devolvidos ao sujeito como defeitos particulares de adaptação, disciplina ou desempenho. Élisabeth Roudinesco, ao interrogar por que ainda precisamos da psicanálise, defende a permanência de uma clínica da palavra diante das tentativas de reduzir o ser humano a funcionamento cerebral, classificação diagnóstica ou resposta farmacológica, o que não implica negar a importância da psiquiatria e dos medicamentos quando necessários, mas recusar a ideia de que a supressão de um sintoma esgote a história de quem sofre.

Talvez seja justamente aí que a psicanálise se coloque na contramão do nosso tempo, não por cultivar nostalgicamente a lentidão, mas porque se recusa a prometer que toda experiência possa ser processada de imediato. Bion compreendeu que aprender com a experiência emocional exige suportar algum tempo de incerteza, sem preencher depressa aquilo que ainda não encontrou forma, e chamou de capacidade negativa essa possibilidade de permanecer diante da dúvida sem substituí-la por uma explicação prematura. Em análise, há momentos nos quais não saber não representa ausência de trabalho, mas a condição para que um pensamento que ainda não existe possa começar a se formar.

Por que fazer análise hoje, em tempos em que tudo corre a milhão de bytes por segundo? Não existe uma motivação universal que possa ser oferecida como promessa de bem-estar, método de sucesso ou produto de aperfeiçoamento pessoal, porque cada pessoa precisará descobrir o que a leva a procurar esse encontro e o que está disposta a fazer com aquilo que nele surgir. Tampouco toda análise é automaticamente um gesto de resistência, pois ela também pode ser reduzida a mais um serviço destinado a tornar indivíduos produtivos, ajustados e capazes de suportar condições que deveriam contestar. Sua força política começa precisamente quando recusa essa função e devolve ao sujeito o direito de não se tratar como uma empresa, de não considerar cada sofrimento uma falha de gestão e de não medir a própria existência apenas pelo que produz. Em uma sociedade que transforma tempo em recurso, atenção em mercadoria e pessoas em dados, sustentar que uma experiência humana necessita de linguagem, silêncio, demora e presença talvez seja uma das maneiras de impedir que a vida se torne apenas mais uma coisa disponível para uso.


Referências

Bion, W. R. (1991). O aprender com a experiência (P. D. Corrêa, Trad.). Imago. (Obra original publicada em 1962).

Bion, W. R. (2006). Atenção e interpretação: O acesso científico à intuição em psicanálise e grupos (2ª ed.; P. C. Sandler, Trad.). Imago. (Obra original publicada em 1970).

Conselho Federal de Psicologia. (2023). Reflexões e orientações sobre a prática da psicoterapia. CFP.

Dunker, C. I. L. (2015). Mal-estar, sofrimento e sintoma: Uma psicopatologia do Brasil entre muros. Boitempo.

Freud, S. (2010). O inconsciente. In Obras completas, v. 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914–1916) (P. C. de Souza, Trad.). Companhia das Letras. (Obra original publicada em 1915).

Gshow. (2026, 22 de maio). Sessão de Terapia: saiba tudo sobre a sexta temporada da série. https://gshow.globo.com/globoplay/noticia/sessao-de-terapia-saiba-tudo-sobre-a-sexta-temporada-da-serie.ghtml

Roudinesco, É. (2000). Por que a psicanálise? (V. Ribeiro, Trad.). Jorge Zahar.

Safatle, V., Silva Junior, N. da, & Dunker, C. (Orgs.). (2021). Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico. Autêntica.

World Health Organization. (2025). World mental health today: Latest data. https://www.who.int/publications/i/item/9789240113817

Uma resposta para “A série “Sessão de Terapia” e o tempo que uma análise exige”

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