A vida que perdemos tentando não perder tempo

Li na Folha de S.Paulo a entrevista de Carol Tilkian com Esther Perel e parei na palavra cativeiro. Ela me pareceu grande demais para esse cotidiano tão banal de mensagens, compromissos e olhos que já quase não se levantam das telas. Eu sempre imaginei o cativeiro como uma palavra de ferro, com grades, cadeado e alguém do lado de fora segurando a chave. Perel falava de outra prisão, mais difícil de enxergar porque não nos manda ficar: mantém-nos ocupados, correndo de uma coisa a outra, com a impressão de que escolhemos livremente cada passo. Quando terminei a entrevista, pensei que talvez seja esse o seu traço mais inquietante. Ninguém precisa fechar a porta. A vida vai se estreitando enquanto tentamos dar conta dela.

Perel fala bastante dos casais, embora a conversa não permaneça restrita a eles. Enquanto lia, pensei também nas amizades, nos encontros cotidianos e nessa convivência íntima, nem sempre amistosa, que mantemos conosco. O que mais me perturbou foi a ideia de um eu que se cuida, se observa e se aperfeiçoa sem descanso, na esperança de que um dia estará suficientemente pronto para viver, amar ou simplesmente aparecer diante de alguém sem sentir que ainda lhe falta alguma coisa.

Essa cobrança raramente chega com a voz de uma ordem. Em geral, ela soa como incentivo. Cuide-se, desenvolva seu potencial, aprenda outra língua, durma melhor, organize suas emoções, mantenha o corpo ativo. Nada disso é ruim por si só. O curioso é que tantas escolhas diferentes acabam apontando para a mesma direção: há sempre alguma coisa em nós precisando de correção. A liberdade continua ali, mas vem acompanhada por uma espécie de prestação de contas.

Foi por isso que me lembrei de Alain Ehrenberg. Boa parte de sua obra foi escrita antes que um relógio pudesse nos dar uma nota pelo sono, mas o sujeito que ele descreve parece ter sido feito para o mundo atual. Em A fadiga de ser si mesmo, Ehrenberg acompanha uma mudança na maneira como o indivíduo se percebe e sofre. A sociedade da disciplina, da obediência e da culpa não desapareceu; basta olhar em volta para constatar que as proibições continuam muito vivas. Ao lado delas, porém, cresceu outro mandato: tome a iniciativa, escolha seu caminho, descubra quem você é e faça alguma coisa relevante com isso.

Não quero negar a liberdade que existe nessa promessa. Poder escolher outros caminhos, escapar do destino que a família, a classe ou o lugar de nascimento pareciam ter preparado, mudou muita coisa. Mas essa mesma liberdade nos deixou quase sem álibi. Quando algo não dá certo, o acaso vai sumindo da história; somem também o dinheiro que faltou, a porta que nunca se abriu, o tempo que não tivemos. Sobra uma pergunta que depressa se vira contra nós: onde foi que eu errei? Depois, olhando para trás, tudo parece evitável. Eu deveria ter insistido mais, entendido antes, escolhido melhor. Não basta sofrer pelo que não aconteceu. Ficamos ainda em dívida com a pessoa que imaginamos que já deveríamos ter sido.

Escuto isso com frequência na clínica. Alguém fala de um conflito antigo, de uma escolha que ainda pesa, e em algum momento diz: na minha idade, eu já devia ter resolvido isso. Junto da tristeza costuma vir uma vergonha difícil de admitir, a vergonha de continuar triste, como se cada ferida tivesse sua hora de fechar e a sua continuasse aberta além da conta. A pessoa sofre pelo que aconteceu e ainda se acusa de não ter sabido melhorar a tempo.

Não falo disso como quem observa de fora. Houve um tempo em que eu contava passos e media o sono pelo relógio. Hoje não faço mais nem uma coisa nem outra, embora ainda estabeleça metas para algumas leituras. Não vejo problema na meta em si. O que me intriga é como o hábito de medir vai se tornando natural, até o ponto em que uma pulseira nos diz se descansamos bem e um livro entra na mesma lógica das tarefas a cumprir. Ninguém precisa nos impor essa contabilidade, a gente mesmo aprende a fazer as contas.

Voltar a estudar, cuidar do corpo ou fazer análise pode abrir possibilidades que antes não existiam. Às vezes, sem muito aviso, esse cuidado vira uma exigência permanente. Descansamos pensando na disposição que precisaremos ter no dia seguinte. Durante uma viagem, parte da atenção fica ocupada em registrar o que acontece, já imaginando como aquilo será contado depois. O prazer continua ali, mas parece não bastar; queremos que ele deixe algum ganho, alguma prova de que o tempo não foi desperdiçado. É como se vivêssemos já pensando no que aquilo vai render na tela, enquanto a própria experiência acontece um pouco sem nós.

Não viramos produto de uma hora para outra. Isso vai acontecendo em pequenos gestos, sem que a gente perceba direito. Arrumamos a história profissional para que ela pareça ter seguido um rumo, embora saibamos quantos desvios ficaram de fora. Escolhemos a fotografia em que mais nos parecemos com quem gostaríamos de ser. Até aquilo que chamamos de fragilidade costuma chegar ao outro penteado, pronto para parecer sincero sem causar estrago. A bagunça continua lá, vivendo em nós, só não recebe autorização para aparecer.

Eva Illouz chama essa mistura de capitalismo emocional. No trabalho, a empatia, a autenticidade e o controle das emoções foram sendo transformados em competências. Na vida íntima, palavras da negociação e do investimento entraram na conversa sem pedir licença. É comum alguém dizer que investiu demais numa pessoa, que a relação não trouxe retorno ou que os dois deixaram de ser compatíveis. Essas expressões ficaram tão comuns que já nem estranhamos falar de uma relação como se ela fosse um investimento que deu certo ou errado.

Os aplicativos de relacionamento tornaram isso muito visível. Uma pessoa aparece como um conjunto breve de características, fotografias e preferências. Em poucos segundos, avaliamos se vale a pena conhecê-la. Não inventamos esse modo de escolher com a internet e seria ingênuo imaginar um passado no qual o amor estivesse livre de interesses, expectativas familiares ou cálculos sociais. O que mudou foi a escala, a velocidade e a impressão de que sempre existe outra possibilidade logo adiante. Em meio a tantas opções, o medo de escolher errado acaba ocupando o lugar do encontro.

Perel fala de casais que, entre a casa, os filhos, os horários e as contas, tornam-se muito bons em resolver o que aparece e atravessar a semana sem deixar nada cair. Sem perceber, os dois vão entregando quase todo o tempo ao que precisa ser administrado, e a relação começa a se parecer com uma pequena empresa. O desconcerto vem quando sobra uma noite sem urgência ou assunto prático. Depois de tanto tempo fazendo a vida funcionar, podem já não saber como ficar ali, um diante do outro, sem nada para resolver.

Gosto da maneira como Illouz pensa esse processo porque ela não precisa encontrar um culpado para explicá-lo. Ninguém acorda decidido a transformar o outro em mercadoria. Na maior parte das vezes, queremos apenas saber se somos correspondidos e que lugar temos na vida de alguém. Queremos alguma segurança. Só que essa busca pode ir longe demais e começar a expulsar aquilo que ainda não encontrou nome. Nem todo sentimento chega sabendo o que é, e há vínculos cujo sentido só aparece depois. Quando toda ambiguidade vira defeito, uma relação pode ser interrompida antes mesmo de descobrir o que poderia ser.

Em 2026, há ainda outro problema, vivemos cercados por imagens que podem nunca ter existido, textos cuja autoria desconhecemos, opiniões pagas que se apresentam como espontâneas e mensagens cuidadosamente ajustadas antes de chegar ao destinatário. Podemos pedir a uma inteligência artificial que escreva um pedido de desculpas, suavize um rompimento ou encontre palavras mais bonitas para um sentimento que não conseguimos expressar. Isso não torna o sentimento necessariamente falso, a ferramenta pode até ajudar alguém a dizer melhor o que de fato queria dizer. Mesmo assim, algo muda quando sabemos que qualquer frase pode ter sido aperfeiçoada para produzir determinado efeito.

Não me parece que tenhamos nos tornado desconfiados por capricho, porque passamos boa parte do dia diante de mensagens cuja origem mal conhecemos e que muitas vezes trazem algum interesse que não se apresenta de imediato. Fomos aprendendo a conferir imagens, a desconfiar do que parece espontâneo demais e a perguntar o que esperam de nós. Com o tempo, esse cuidado foi entrando no nosso modo de olhar e já não desaparece quando guardamos o celular. Ele se mistura à maneira como escutamos quem está perto, e um elogio pode chegar sem que consigamos simplesmente recebê-lo, porque antes disso já estamos procurando o que a pessoa quer de nós.

Enquanto pensava nisso, lembrei-me de uma fala ouvida no consultório, que trago aqui sem qualquer detalhe adicional. Uma pessoa contou sobre o incômodo que sentiu ao receber um elogio. Começou a se perguntar se aquelas palavras eram verdadeiras ou se, por trás delas, havia uma tentativa de aproximação, algum interesse que ainda não conseguia ver. A dúvida ocupou tanto espaço que quase não sobrou lugar para o elogio.

Eu sabia que aquela reação vinha de muito antes daquele elogio e pertencia a uma história particular que eu não poderia simplesmente usar para explicar o tempo em que vivemos. Se fizesse isso, deixaria de escutar a pessoa para fazê-la caber numa tese. Mesmo assim, a fala continuou comigo depois da sessão e me fez pensar em quantas vezes uma palavra gentil já chega acompanhada de suspeita, como se escondesse uma cobrança que só apareceria depois.

Quando passamos tanto tempo cuidando da maneira como somos percebidos, parece lógico supor que os outros estejam fazendo o mesmo. Se eu seleciono palavras, imagens e gestos para produzir certa impressão, por que acreditaria que alguém fala comigo sem nenhum cálculo? A suspeita se torna uma forma de inteligência e, também, pode se tornar o único modo de escutar.

Confiar não exige que fechemos os olhos para tudo, mas, se só conseguimos fazê-lo depois de reunir todas as provas, já não sei se ainda se trata de confiança ou apenas de uma conclusão. Alguma coisa da intenção do outro sempre nos escapa, e não necessariamente porque ele esteja mentindo. Às vezes, nem ele sabe ao certo o que o move. Um elogio pode ser sincero e trazer junto o desejo de aproximação, assim como podemos amar esperando ser amados de volta ou oferecer alguma coisa desejando reconhecimento. Nada disso torna o gesto falso por si só. Não faz muito sentido pedir ao outro um desinteresse que nós mesmos raramente conseguimos sustentar.

Aquele incômodo diante de um elogio me levou a pensar em Vincent Estellon e no título de um de seus livros, Terreur d’aimer et d’être aimé. O medo aparece ali dos dois lados do amor. Amar nos deixa dependentes e entrega ao outro a possibilidade de nos ferir, o que ajuda a entender por que pode assustar. A segunda parte do título me inquieta ainda mais, porque ser amado também pode nos encontrar despreparados e, em certos momentos, nossa primeira resposta é recuar.

Ser amado traz um desconforto que raramente confessamos, porque o olhar do outro nos alcança e nos dá um lugar que não fomos nós que construímos. Passamos a importar para alguém e nos vemos diante da possibilidade de não corresponder. Se essa pessoa também ganha importância para nós, já existe algo a perder, e a autonomia que gostamos de atribuir a nós mesmos começa a mostrar seus limites. Precisar de alguém ainda soa, hoje, como sinal de que alguma coisa em nós não está bem resolvida.

Estellon chama de defesas antiamor certas maneiras, nem sempre evidentes, de manter o vínculo à distância. A fuga e a indiferença são apenas as mais fáceis de reconhecer; algumas dessas defesas chegam a ser admiradas. A pessoa se orgulha de não precisar de ninguém, encontra defeitos em toda aproximação ou se envolve repetidamente com quem nunca estará de fato disponível. Em algum momento, a defesa começa a falar em primeira pessoa: ainda não estou pronto, preciso primeiro resolver meus traumas, aprender a me amar, organizar a vida. Quando percebemos, esse “primeiro” já durou anos e a vida amorosa continua esperando uma versão de nós que nunca chega.

As telas tornaram bem mais fácil manter alguém por perto sem estar inteiramente disponível. Uma reação, um vídeo enviado no meio do dia ou uma resposta deixada para depois bastam para que a conversa não morra, mesmo quando não queremos entrar de fato nela. Há amizades que atravessam anos assim, e amores também, espremidos entre rotinas que quase nunca coincidem. Não acho que sejam menos verdadeiros por isso, embora seja difícil ignorar o conforto que existe em apagar a frase mal posta, esperar a irritação passar e só então aparecer. Quando Perel fala em “presença ausente”, me vem à cabeça a cena tão comum de duas pessoas no mesmo sofá, cada uma seguindo o próprio fluxo de imagens e conversas, enquanto a outra, ali ao lado, vai ficando no canto do olho.

Tenho a impressão de que essa convivência tão protegida vai nos deixando um pouco sem prática para lidar com as contradições do outro. Às vezes alguém diz algo que nos desagrada, e aquela frase vai mudando a cor de tudo o que sabíamos da pessoa, até nos fazer pensar que entendemos tudo errado desde o início. Acabamos esperando das pessoas a coerência de uma marca bem cuidada, como se uma contradição bastasse para desmentir todo o resto.

Esther Perel
Foto encontrada no Google

Perel sugere que os casais voltem a fazer coisas juntos, que devolvam corpo à relação. A ideia me agrada, embora eu consiga imaginar duas horas semanais sem celular marcadas na agenda, chamadas de tempo de qualidade e avaliadas depois numa conversa sobre o que funcionou. A intimidade teria entrado na agenda, mas continuaríamos tratando o vínculo como algo que precisa apresentar resultado. Eu penso numa tarde sem tanta responsabilidade, que não precise salvar o casal nem render uma lembrança bonita, em que a conversa mude de rumo, o silêncio demore e ninguém se apresse em espantar o tédio, mesmo que depois não haja nenhuma foto para postar nas redes sociais.

Passamos tanto tempo revendo o que fazemos para saber se está certo, se pode ficar melhor ou se nos torna melhores que a avaliação já não sabe onde parar e chega também àquilo que recebemos do outro. Enquanto decidimos se uma palavra merece confiança, ela não fica parada. Vai se soltando do momento e da pessoa que a disse, até sobrar uma frase usada como prova daquilo que já suspeitávamos. Podemos até acertar sobre a intenção e, mesmo assim, não ter recebido o elogio.

Quanto mais penso no cativeiro de que fala Perel, menos ele me parece restrito às telas. Podemos deixá-las de lado e continuar obedecendo à mesma lógica, porque a cobrança já aprendeu a falar com a nossa voz e chega oferecendo escolhas muito razoáveis: aproveitar melhor o tempo, cuidar de nós, fazer as relações funcionarem. São propostas difíceis de recusar, só que, reunidas, acabam produzindo uma vida incapaz de ficar como está, mesmo por uma tarde. Que espécie de liberdade nos mantém tão ocupados em aperfeiçoar a vida que quase não sobra tempo para vivê-la?


Referências

Ehrenberg, A. (1998). La fatigue d’être soi: Dépression et société. Éditions Odile Jacob.

Estellon, V. (2020). Terreur d’aimer et d’être aimé: Psychopathologie du lien et de la vie amoureuse. Érès.

Illouz, E. (2007). Cold intimacies: The making of emotional capitalism. Polity.

Tilkian, C. (2026, 16 de agosto). Produtividade e rotina mediada por telas são os novos cativeiros das relações, diz Esther Perel. Folha de S.Paulo.

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