Backrooms: a estranha arquitetura da repetição

Quando uma loja de móveis fecha, alguma coisa muda nos ambientes que ela mantém em exposição. Durante o dia, ninguém estranha os sofás diante de televisores desligados nem as camas arrumadas onde pessoa alguma dormiu. Depois que as portas se fecham, porém, aquilo que imitava uma casa começa a parecer outra coisa: um cenário abandonado antes do início da história, com objetos à espera de moradores que não virão.

É no subsolo de uma loja assim que Clark encontra uma passagem inexistente até a véspera. Ele é o protagonista de Backrooms: Um Não-Lugar, filme dirigido por Kane Parsons e produzido pela A24. Abalado pelo divórcio e com dificuldades para manter o negócio, Clark atravessa a abertura e chega a um conjunto interminável de salas, escadas e corredores. Quando desaparece, sua terapeuta, Mary, decide procurá-lo.

Do outro lado da parede, a arquitetura parece ter enlouquecido sem perder a aparência de normalidade. O carpete gasto conserva uma umidade antiga, as lâmpadas fluorescentes lançam sobre tudo uma luz amarela e cada passagem desemboca num ambiente quase igual ao anterior. Nada está propriamente em ruínas. Ao contrário, os espaços parecem prontos para receber alguém. O desconforto vem com o fato de que ninguém chega, embora o lugar inteiro dê a impressão de estar aguardando uma presença.

Muito antes do filme, os Backrooms já circulavam como uma lenda anônima da internet. Kane Parsons tinha dezesseis anos quando começou a recriar aqueles corredores em vídeos para o YouTube. A passagem para o cinema trouxe personagens, conflitos e uma narrativa mais definida, mas a força dos Backrooms continua ligada àquela imagem inicial. Olhamos para o ambiente e quase o reconhecemos. Pode ser o corredor de uma escola durante as férias, o andar vazio de um prédio comercial ou a área de um hotel à qual os hóspedes nunca prestam atenção. O lugar pertence às nossas lembranças sem que nenhuma delas possa reivindicá-lo.

Freud encontrou essa perturbação nas coisas que deixam de ser familiares sem se tornarem inteiramente estranhas. Chamou-a de Unheimliche, palavra traduzida como “inquietante”, “estranho familiar” ou “infamiliar”. O termo alemão carrega uma referência à casa, ao que deveria oferecer abrigo e intimidade. O desconforto aparece quando aquilo que conhecíamos perde de repente sua hospitalidade, como se a própria casa continuasse no lugar, mas já não soubesse quem somos.

Em Backrooms, portas, paredes e corredores mantêm suas formas habituais. Perderam apenas o acordo silencioso que tornava possível confiar neles. Uma porta pode não levar a parte alguma; virar uma esquina não significa avançar; caminhar durante horas pode terminar diante da sala de onde se partiu. A arquitetura conserva a aparência de um mundo organizado enquanto suas regras deixam de funcionar.

Depois de algum tempo, a falta de saída deixa de ser apenas um problema espacial. As salas começam a produzir a sensação de um tempo incapaz de seguir adiante. É aí que o filme se aproxima de outra descoberta freudiana: a repetição nem sempre obedece à procura do prazer. Há experiências dolorosas que retornam apesar do sofrimento que provocam, impondo-se ao sujeito com uma insistência que ele próprio não compreende.

Em Recordar, repetir e elaborar, Freud observou que aquilo que não consegue ser recordado pode reaparecer na maneira de agir. A pessoa não conta sua história porque, sem perceber, está ocupada em vivê-la outra vez. O passado raramente retorna como uma cópia reconhecível; costuma apresentar-se com a aparência convincente de uma situação nova. Mudam as circunstâncias, mas certa posição se conserva. Alguém acredita ter escolhido livremente e só mais tarde percebe que percorreu uma rota antiga com outros nomes nas portas.

Clark caminha, faz escolhas, atravessa passagens e procura sinais de progresso. Ainda assim, o espaço o devolve a uma espécie de presente contínuo. Seu movimento não é falso, pois ele realmente se desloca. O engano está em tomar deslocamento por transformação. Pode-se andar muito sem sair de uma determinada cena.

A presença de Mary leva essa imagem para dentro da relação terapêutica. Na análise, o passado não comparece apenas como relato; ele também se infiltra no vínculo, reorganizando expectativas e afetos. É o que Freud chamou de transferência. O paciente pode aguardar do analista uma resposta que pertence a outra pessoa ou antecipar uma rejeição que ainda não aconteceu. Se não reconhecer o lugar que lhe está sendo oferecido, o próprio terapeuta corre o risco de entrar na cena e ajudar a repeti-la.

Mary faz essa entrada de maneira literal. Ao procurar Clark, atravessa o limite entre escutar o labirinto de alguém e passar a habitá-lo. Seu gesto contém cuidado, mas carrega também a fantasia de que seria possível encontrar o ponto exato onde uma vida se perdeu e conduzi-la de volta pelo caminho correto. O inconsciente, contudo, não possui um cômodo central onde a verdade permaneça guardada. Cada tentativa de chegar à última sala produz outra passagem.

O filme perde parte de sua potência quando procura relacionar seus espaços a traumas muito definidos. A explicação oferece uma segurança que a imagem original recusava. Se cada corredor corresponde a uma ferida e cada criatura pode ser decifrada, o desconhecido começa a adquirir a organização de um prontuário. Mesmo assim, a arquitetura escapa ao que o roteiro diz sobre ela. Os ambientes permanecem na memória porque parecem conter algo que não chegou a ser explicado.

Essa impressão acompanha o espectador para fora do filme. Vista de perto, a vida cotidiana também é feita de percursos que raramente despertam atenção. O corpo levanta, atravessa a casa ainda escura, prepara o café e segue por ruas conhecidas enquanto a cabeça já se ocupa do que virá depois. Não existe nada de patológico nisso. Sem repetição, seria impossível sustentar uma rotina, aprender um ofício ou manter qualquer compromisso.

A dificuldade aparece quando a rotina continua funcionando depois de ter perdido sua ligação com o desejo. Os compromissos são cumpridos e os dias permanecem cheios, mas alguma coisa se torna difícil de localizar. A pessoa atribui o cansaço à semana, espera as férias, muda pequenos hábitos e, por algum tempo, recupera a sensação de movimento. Em seguida, reconhece no domingo à noite a angústia que acreditava ter deixado para trás.

Também existem relações que nos devolvem continuamente a uma posição conhecida. Entramos nelas com a impressão de começar do zero, mas logo retomamos um papel aprendido há muito tempo. Passamos a falar com outra pessoa usando palavras que pertencem a uma conversa anterior. Quando o desfecho se repete, a explicação mais confortável costuma ser o azar. Reconhecer a própria participação nessa montagem exige um tipo menos consolador de lucidez.

Os Backrooms assustam porque oferecem uma forma visível a essa experiência. Ali, ninguém está acorrentado, e o caminho não é bloqueado. Pode-se escolher qualquer porta. A liberdade permanece disponível, embora todas as escolhas pareçam colaborar com a permanência.

Na manhã seguinte, o despertador tocará e o corredor do prédio continuará onde sempre esteve. A porta do elevador vai se abrir com seu ruído habitual. Durante um segundo, antes de entrar, pode ser difícil saber se aquele é o começo de outro dia ou apenas o retorno ao anterior.


Uma resposta para “Backrooms: a estranha arquitetura da repetição”

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