Terminei de ler A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor, de bell hooks, e passei alguns dias metabolizando o livro antes de escrever qualquer coisa. Não queria fazer um resumo, enumerar seus argumentos ou dizer simplesmente se gostei. Algumas leituras pedem outro tempo. Precisam assentar dentro de nós, encontrar resistências, perturbar lembranças, até que seja possível descobrir o que fazer com elas. E aqui estou eu, mais uma vez, escrevendo sobre masculinidades.
Volto a esse tema porque ele insiste. Está nas relações amorosas, nas amizades entre homens, na educação dos meninos, na maneira como lidamos com o trabalho, o sexo, a frustração e o medo. Também está naquilo que evitamos dizer. bell hooks se aproxima justamente desse silêncio e faz uma pergunta desconcertante: o que aconteceu conosco para que amar tenha se tornado tão difícil?

É difícil ignorar a importância deste livro num tempo em que se multiplicam cursos nos quais homens ensinam outros homens a “ser homens”, prometendo transformá-los em “farol e forja”, enquanto discursos masculinistas insistem em negar a misoginia e chegam a tratar o feminicídio como uma farsa. bell hooks entra nessa disputa por outro caminho. Não oferece aos homens uma masculinidade restaurada, mais forte ou mais viril, nem os trata como uma causa perdida. Sem reduzir a violência masculina ou usar o sofrimento como desculpa, procura compreender o que existe sob a dureza, a indiferença e a necessidade de controle. Ela sabe que investigar não é absolver. É recusar a ideia cômoda de que os homens são assim por natureza e, portanto, nada poderia ser diferente.
Os homens desejam amor. A frase parece óbvia, mas não é. Somos educados para desejar proximidade enquanto aprendemos a desconfiar de quase tudo o que ela exige: entrega, cuidado, dependência, escuta, reconhecimento da própria fragilidade. Queremos ser amados, mas tememos ser conhecidos. E assim passamos boa parte da vida tentando receber amor sem precisar mostrar quem somos.
Essa separação começa cedo. Um menino percebe rapidamente quais emoções constrangem os adultos ao redor. Aprende que pode sentir raiva, desde que não admita o medo que existe nela. Pode bater a porta, desaparecer, beber, trabalhar até a exaustão ou transformar o sofrimento em piada. O que não pode é parecer vulnerável. Ele não deixa de sentir; apenas perde, pouco a pouco, a intimidade com o que sente.
Pensei muito nisso durante a leitura. Em quantos homens conseguem narrar o que aconteceu, às vezes com enorme riqueza de detalhes, mas não o que aquilo lhes fez. Falam de uma separação, de uma morte ou de uma decepção como se descrevessem a vida de outra pessoa. Talvez não falte sensibilidade. Faltam palavras e, sobretudo, a permissão interna para usá-las.
O que não encontra linguagem procura outras saídas. A tristeza reaparece como cinismo; o abandono, como indiferença; o medo, como controle. A raiva torna-se um idioma possível justamente porque ainda preserva alguma aparência de força. Em alguns casos, essa dor sem nome se transforma em violência.
Compreender esse percurso não absolve ninguém. Nenhuma infância difícil concede o direito de ferir outra pessoa, e nenhuma carência transforma uma mulher em lugar de descarga para a angústia masculina. Um dos riscos de falar sobre o sofrimento dos homens é produzir para eles uma narrativa confortável, na qual aparecem como vítimas de uma educação que, ao mesmo tempo, lhes concedeu privilégios. bell hooks não oferece esse conforto. A dor pode explicar alguma coisa, mas também exige responsabilidade pelo destino que cada um dará a ela.
O patriarcado promete poder aos homens, embora poucos consigam realizá-lo como imaginavam. Muitos serão humilhados no trabalho, tratados como descartáveis e lembrados de que fracassaram diante do ideal masculino que deveriam encarnar. Ainda assim, permanece a expectativa de ocupar alguma posição de comando. Para alguns, a casa se torna o último território disponível. Ali, procuram recuperar pelo medo, pela força ou pelo controle a autoridade que não encontraram fora dela.
Por isso, não é possível falar da dor masculina ignorando o poder exercido sobre mulheres e crianças. Também não me parece suficiente denunciar esse poder sem perguntar como ele se instala e por que continua sendo transmitido. Mesmo os homens que correspondem ao modelo patriarcal não saem ilesos. Podem ser respeitados, bem-sucedidos e temidos enquanto vivem distantes dos filhos, dos amigos e do próprio coração.
Essa talvez seja uma das razões pelas quais os homens deveriam ler este livro. Não para se sentirem compreendidos por bell hooks, mas para perceberem o tamanho da ausência que aprenderam a chamar de força. O livro nos confronta com aquilo que fizemos, com o que ainda fazemos e com tudo o que deixamos de viver para sustentar uma identidade que depende da vigilância constante de si.
Uma das ideias que mais me acompanharam foi a definição do amor como ação. Para bell hooks, amar envolve cuidado, compromisso, conhecimento, responsabilidade, respeito e confiança. Colocadas diante desses critérios, muitas declarações amorosas começam a perder sua inocência. Alguém pode acreditar sinceramente que ama e, ainda assim, não conhecer a pessoa com quem vive, não respeitar sua liberdade nem assumir a dor que provoca. Pode dizer “eu te amo” enquanto vigia, diminui ou controla.
Ao dizer que este livro também pode ser uma leitura importante para as mulheres, faço isso com o cuidado que minha posição de homem exige. Não me cabe dizer às mulheres que precisam compreender melhor os homens, acolher suas fragilidades ou participar de sua transformação. Durante muito tempo, elas foram responsabilizadas pelo cuidado emocional masculino, como se lhes coubesse ensinar os homens a reconhecer o que sentem e reparar neles aquilo que o patriarcado ajudou a ferir. A leitura me parece relevante por outra razão: bell hooks permite compreender como essa estrutura atravessa os vínculos, organiza expectativas sobre o masculino e acaba envolvendo a todos, embora distribua poder, sofrimento e responsabilidade de maneiras profundamente desiguais.
O livro também mostra que o patriarcado não é transmitido apenas pelos homens. Mulheres podem, muitas vezes sem perceber, ensinar meninos a esconder o choro, valorizar a dureza e desconfiar da vulnerabilidade masculina. Reconhecer essa participação não significa igualar responsabilidades nem ignorar que a violência patriarcal atinge as mulheres de maneira desproporcional. Significa compreender que esse sistema continua existindo porque também influencia a educação, as relações afetivas e aquilo que aprendemos a esperar de um homem.
Nada disso dispensa os homens do trabalho que lhes cabe. Precisamos aprender a falar também entre nós. Ainda convivemos de maneira estranha: compartilhamos anos de amizade, viagens, festas e trabalho, mas muitas vezes sabemos pouco sobre a vida emocional uns dos outros. Quando finalmente desejamos falar, procuramos uma mulher. Preservamos o silêncio entre os homens e sobrecarregamos o vínculo amoroso com tudo aquilo que não conseguimos viver em outros lugares.

Enquanto lia bell hooks, fui me lembrando de algumas cenas bastante comuns entre homens. Um amigo arrisca dizer algo mais íntimo e logo aparece uma piada para aliviar o desconforto. Outro conta que foi ferido, mas se apressa em garantir que já não se importa. Às vezes, sou eu mesmo quem se esconde atrás da ironia para não permanecer por muito tempo diante do que ouvi ou senti. São maneiras discretas de nos vigiar e de avisar uns aos outros até onde podemos ir. Quando algum gesto de ternura consegue aparecer, quase sempre há alguém pronto para mudar de assunto.
A leitura não me deixou uma resposta pronta. Deixou uma suspeita. Talvez não faltem aos homens sentimentos, desejo de proximidade ou capacidade de amar. Talvez passemos tempo demais protegendo um personagem construído para sobreviver entre outros homens. E ainda não sei o que assusta mais: descobrir quem seríamos sem ela ou perceber, tarde demais, tudo o que ela nunca nos deixou viver.


Deixe uma resposta