A gramática da insuficiência

Tenho reparado como, ao contar que não deu conta do dia, alguém começa a falar como se não desse conta de si. Diz que deixou mensagens sem resposta, não terminou o que havia planejado, faltou ao exercício, perdeu a paciência com alguém. Quando percebe, o relato já se transformou em julgamento: sou desorganizada, fraca, preguiçosa, incapaz de manter constância. Um dia que saiu do eixo passa a servir como medida de uma vida inteira.

Interessa-me essa pequena transformação gramatical. O instante em que uma dificuldade deixa de ser expressa por um verbo e adquire o peso de um adjetivo. “Não consegui” torna-se “sou incapaz”. “Estou cansado” vira “sou fraco”. “Não quero continuar” passa a significar que me falta disciplina, maturidade ou gratidão. A língua realiza em poucos segundos o trabalho que a cultura levou anos para ensinar: apaga o mundo em volta e deixa o sujeito sozinho diante da própria insuficiência.

Na escuta clínica, aprendi a desconfiar de frases que perderam o tempo e o lugar. “Eu sou um fracasso” parece uma afirmação completa, dessas que chegam à sala e fecham a porta atrás de si. Quando nos demoramos um pouco, começam a aparecer perguntas. Fracassou onde? Diante de quem? Segundo qual medida? Em que momento essa medida ganhou autoridade para julgar uma vida inteira? Algumas palavras descrevem enquanto outras imobilizam. Os adjetivos podem ser especialmente cruéis porque fingem revelar aquilo que, na verdade, acabaram de aprisionar.

Foi lendo Barbara Stiegler que essa suspeita ganhou para mim uma dimensão política. Em Il faut s’adapter, ela acompanha a formação de um imperativo que se tornou tão familiar que quase já não o escutamos: é preciso adaptar-se. O mundo aparece como movimento inevitável, uma correnteza que não admite perguntas sobre o rumo. Cabe ao indivíduo ganhar velocidade, renovar competências, atualizar hábitos e corrigir tudo o que nele parece atrasado. Se não acompanha, o problema parece estar em suas pernas, nunca na pressa do rio.

Essa ordem raramente chega com voz autoritária. Ela prefere o tom amistoso dos conselhos sensatos. Reinvente-se. Saia da zona de conforto. Desenvolva resiliência. Aprenda a administrar melhor o tempo. Torne-se a sua melhor versão. Há alguma verdade em várias dessas recomendações, e justamente por isso elas convencem. O problema surge quando a adaptação deixa de ser uma possibilidade e se torna obrigação permanente. O mundo pode adoecer, acelerar até perder o fôlego, multiplicar tarefas inúteis e chamar tudo isso de transformação. Ao indivíduo resta a missão de acompanhar sorrindo.

Até sentir entrou nesse regime. Sentir exige uma demora incômoda porque os afetos não chegam acompanhados de legenda. Às vezes, primeiro vem o aperto no peito; só muito depois encontramos a palavra. Pensar também precisa de desvios, silêncios e retornos. Uma ideia pode permanecer algum tempo sem saber aonde vai. Meditar, que poderia significar habitar essa suspensão, reaparece facilmente como mais um item da agenda, medido em minutos, sequências e resultados. Logo surge a preocupação de fazer corretamente, cumprir o tempo previsto e perceber algum benefício. Mesmo quando paramos, uma parte de nós continua conferindo o desempenho.

Remedios Zafra se aproxima dessa cena por outro caminho. Em Frágiles, ela escreve sobre vidas transbordadas por tarefas mediadas pela tecnologia, pelos prazos, pelos números e pela necessidade de aceitação. São trabalhos que nem sempre se parecem com trabalho, embora consumam atenção, tempo e corpo. Respondemos, atualizamos, preenchemos, confirmamos, demonstramos presença. No fim do dia, há cansaço e uma estranha sensação de que ainda não fizemos o bastante.

Zafra nos ajuda a perceber que já não basta realizar uma tarefa. Também precisamos apresentar a disposição afetiva correta. Espera-se envolvimento, criatividade, leveza e paixão. O entusiasmo passa a fazer parte da entrega. Podemos estar exaustos, desde que nossa exaustão não perturbe o ambiente; podemos sofrer, desde que saibamos narrar o sofrimento como aprendizado; podemos discordar, desde que a discordância venha embalada como contribuição positiva. Há uma pedagogia silenciosa ensinando quais emoções podem circular e quais devem permanecer nos bastidores.

Ser forte, nesse cenário, adquire um significado estreito. Forte é quem não atrasa o fluxo com a própria dor, não pesa demais na conversa, não exige tempo fora do previsto. A pessoa forte continua. Se desaba, tenta fazê-lo discretamente, de preferência fora do horário comercial e sem comprometer a imagem de alguém que sabe administrar a própria vida. Aos poucos, a força deixa de nomear a capacidade de atravessar uma experiência e passa a significar a habilidade de não ser afetado por ela.

Não creio que sejamos simplesmente mais falsos do que as pessoas de outras épocas. Toda vida social envolve papéis, cerimônias e alguma escolha sobre aquilo que mostramos. Ninguém oferece sua história inteira em cada encontro. O que mudou foi o descanso das máscaras. Estamos tão habituados a nos observar de fora que continuamos nos apresentando mesmo quando nenhuma plateia é visível. Ajustamos a voz, medimos o afeto, revisamos mentalmente o que dissemos e imaginamos a impressão que deixamos. Já não é preciso que alguém nos avalie. Levamos o avaliador conosco.

Quem se acostumou a aparecer diante de si como um projeto em avaliação encontra o outro sob a mesma luz. Antes que uma relação possa ganhar forma, já examinamos nosso desempenho dentro dela. Perguntamo-nos se parecemos interessantes, leves, disponíveis, emocionalmente maduros, suficientemente próximos sem demonstrar necessidade demais. Enquanto isso, o outro também é medido: responde no tempo esperado? Demonstra interesse na quantidade correta? Oferece segurança? Corresponde ao que imaginamos para nossa vida? O encontro mal começou e já precisa justificar sua continuidade.

Com medo de sermos descartados, aprendemos a nos editar. Não inventamos propriamente outra pessoa; escolhemos aspectos verdadeiros de nós e os organizamos de modo a sustentar a imagem que desejamos transmitir. A fragilidade, a tristeza e a necessidade do outro costumam aparecer já explicadas, numa forma que nos parece mais aceitável. Aquilo que ainda não compreendemos permanece guardado. Com o tempo, acabamos mostrando apenas o que conseguimos dizer sem nos expor demais.

Foi enquanto pensava nessa pressa que encontrei em Anna Kornbluh uma terceira voz para esta conversa. Em Immediacy, ela examina como a velocidade, a transparência e a expressão direta passaram a organizar parte importante da cultura contemporânea. Kornbluh não está escrevendo propriamente sobre amizade ou amor. Sou eu quem estende sua pergunta até os vínculos, porque reconheço neles a mesma impaciência diante de tudo o que exige mediação.

Queremos compreender depressa o que o outro sente, o que deseja e o que pretende conosco. Esperamos respostas rápidas, sinais claros, coerência reconhecível. Qualquer ambivalência parece esconder uma ameaça. O desconforto precisa ser esclarecido antes de ganhar história; a diferença deve ser resolvida antes de nos obrigar a mudar de posição. O outro é convocado a se tornar imediatamente legível, como se uma pessoa pudesse oferecer a senha de acesso a si mesma.

A comunicação tornou-se instantânea. A intimidade continua sendo um ofício lento. Uma mensagem atravessa o oceano em segundos, enquanto o sentido de uma frase pode levar dias para chegar. Há coisas que só compreendemos depois de uma conversa terminar, quando a voz do outro permanece em nós e encontra lembranças que ainda não haviam se apresentado. A mediação vive justamente nesse intervalo: no que precisa ser retomado, traduzido, reparado, escutado de novo.

É possível conviver por muitos anos e conversar todos os dias, conhecendo do outro apenas aquilo que ele consegue manter em ordem. O que ainda está confuso, doloroso ou sem palavras pode permanecer entre os dois sem jamais ser compartilhado.

A intimidade se torna possível quando conseguimos estar com o outro sem ter tudo resolvido. O sofrimento ainda procura palavras, a conversa por vezes perde o rumo, o silêncio se alonga e a necessidade do outro aparece antes que consigamos disfarçá-la. Também haverá decepções e o vínculo precisará atravessá-las, sem transformar cada falha numa nova definição de quem está diante de nós. A profundidade cresce nessa permissão para permanecer juntos quando nenhum dos dois consegue sustentar a melhor versão de si.

Temos hoje mais palavras para falar dos vínculos. Termos como indisponibilidade emocional, manipulação, abuso, narcisismo, dependência e evitação ajudam a reconhecer experiências que durante muito tempo permaneceram confusas ou silenciadas. Esse repertório pode oferecer proteção e clareza, desde que não se torne uma explicação pronta para toda dificuldade entre duas pessoas. Frustrações, desencontros e períodos de silêncio fazem parte das relações e nem sempre indicam violência, incompatibilidade ou desinteresse; há momentos em que alguém ainda está tentando compreender o que sente antes de conseguir falar.

À medida que essas três autoras se sentam comigo nesta conversa, começo a ouvir uma frase sendo formada entre elas. Stiegler chama atenção para a ordem de adaptação. Zafra observa a disposição afetiva exigida de quem se adapta. Kornbluh interroga a velocidade com que tudo deve acontecer. Reunidas, elas deixam aparecer um mandamento bastante familiar: adapte-se agora e procure parecer feliz enquanto faz isso.

Essa combinação de pressa, adaptação e entusiasmo obrigatório vai moldando a maneira como nos vemos. Quando não acompanhamos o ritmo, não demonstramos a disposição esperada ou precisamos pedir ajuda, facilmente concluímos que há algo errado conosco. Essa insegurança chega aos vínculos, onde procuramos no outro sinais de confirmação, pertencimento e valor. Para não colocar esse reconhecimento em risco, controlamos o que mostramos e acabamos escondendo justamente os aspectos de nós que mais precisam ser acolhidos.

Talvez essa seja uma das formas mais discretas da solidão contemporânea: apresentar-se continuamente e, ainda assim, permanecer desconhecido. Ser visto por muitos e encontrado por quase ninguém. A pessoa circula, responde, participa, compartilha, mas guarda longe do encontro aquilo que ainda não sabe nomear. Aquilo que mostra é verdadeiro, mas foi escolhido com cuidado para preservar a parte de si que ainda não consegue compreender.

Volto então à frase inicial. “Eu sou incapaz.” Antes que o ponto final se imponha, a escuta pode devolver algum movimento a essas palavras. Não consegui agora. Não consegui desse modo. Não consegui sob essas condições. Não consegui porque uma parte de mim recusou, cansou, temeu ou desejou outra coisa. Há razões que conheço e outras que ainda precisarão de tempo.

Isso não absolve o sujeito de toda responsabilidade, nem transforma cada dificuldade em culpa do mundo. Responsabilidade não deveria significar condenar-se com eficiência. Ela começa quando conseguimos reconhecer nossa participação na própria história sem apagar as forças que também nos atravessam. Nenhuma vida é escrita por uma só mão.

A gramática da insuficiência nos convence de que cada pausa revela um defeito e que todo limite precisa ser corrigido. Seguimos nos adaptando, aperfeiçoando a aparência e chegando aos vínculos com a versão mais apresentável de nós mesmos. A profundidade, porém, exige outra língua. Uma língua na qual alguém possa dizer “hoje não consegui” sem que o outro se apresse a completar a frase, decidindo quem essa pessoa é.

Kornbluh, A. (2024). Immediacy, or the style of too late capitalism. Verso.

Stiegler, B. (2019). « Il faut s’adapter »: Sur un nouvel impératif politique. Gallimard.

Zafra, R. (2021). Frágiles: Cartas sobre la ansiedad y la esperanza en la nueva cultura. Anagrama.


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