Há amor no fim do túnel?

Acabei de ler O túnel, de Ernesto Sábato, e tenho a impressão de que Juan Pablo Castel ainda está falando. Ele começa o livro sem fazer suspense. Diz logo que matou María Iribarne. Não há investigação policial, descoberta do assassino ou reviravolta final. Castel já foi julgado. O que ele deseja agora é outra coisa: explicar-se.

Explicar-se talvez seja pouco. Ele quer montar seu caso diante do leitor, organizar os acontecimentos, apresentar as provas e demonstrar que, por trás do crime, havia uma sequência compreensível. Castel escreve como quem nos segura pelo braço e diz: preste atenção, não tire conclusões antes de ouvir tudo. E nós ouvimos.

Castel é pintor. Em uma de suas exposições, María percebe um pequeno detalhe em um de seus quadros: uma mulher solitária, diante do mar, observada através de uma janela. Ninguém mais havia dado importância àquela cena. Os críticos falaram sobre outras coisas, como os críticos costumam fazer. María, porém, viu a janela. Para Castel, isso bastou.

Ele conclui que aquela mulher o compreendeu. Não apenas o quadro, mas ele inteiro. María teria reconhecido uma parte de sua vida que permanecia invisível para todos os outros. A partir daí, Castel passa a procurá-la pelas ruas, a imaginar conversas, antecipar respostas e ensaiar mentalmente cada possibilidade de encontro.

Quando finalmente se aproximam, a relação já está comprometida por algo que María desconhece: Castel não chega sozinho. Ele traz consigo uma personagem que inventou para ela representar. María deve ser a mulher da janela. Deve compreendê-lo sem hesitação, responder corretamente às suas perguntas e confirmar a ligação excepcional que ele acredita existir entre os dois. Qualquer silêncio desperta suspeita. Cada contradição exige um interrogatório. Um gesto banal ganha o peso de uma confissão.

Castel observa tudo. O tom de voz, o tempo de uma resposta, uma frase interrompida, uma visita, uma ausência. Ele se considera rigoroso, quase científico. Reúne indícios, testa hipóteses e reconstrói cenas das quais não participou. O problema é que suas conclusões sempre chegam antes dos fatos. Ele não investiga para descobrir a verdade. Investiga para confirmar aquilo que já teme.

Aos poucos, sua lucidez começa a parecer menos confiável. Castel raciocina muito, mas pensa sempre dentro do mesmo circuito. Uma suspeita produz outra, que produz uma terceira, usada depois como prova da primeira. A lógica se fecha sobre si mesma e passa a funcionar sem qualquer contato com a realidade.

É isso que torna a leitura tão incômoda. Castel não parece um homem completamente desprovido de razão. Ao contrário, é inteligente, articulado e capaz de perceber a mediocridade dos outros. Em certos momentos, até consegue nos fazer rir. Só que sua inteligência não o retira do túnel, ela instala a iluminação.

Há um conceito da psicanalista Melanie Klein que ajuda a compreender esse funcionamento sem que seja necessário deitar Castel num divã imaginário. Klein percebeu muito cedo que temos dificuldade de reunir, dentro de uma mesma pessoa, aquilo que amamos e aquilo que odiamos.

Quando alguém nos satisfaz, é fácil vê-lo como bom, generoso e indispensável. Quando nos frustra, pode parecer cruel, indiferente e persecutório. A maturidade emocional exige um trabalho menos confortável: reconhecer que se trata da mesma pessoa.

María, para Castel, alterna-se entre esses dois lugares. Em alguns momentos, ela é a única mulher capaz de compreendê-lo, a testemunha de sua solidão, quase uma salvação. Pouco depois, torna-se mentirosa, vulgar, manipuladora ou perversa. Castel não consegue manter juntas essas duas imagens. María precisa ser inteiramente verdadeira ou completamente falsa. A mulher real, que talvez amasse, hesitasse, mentisse, temesse, desejasse e se contradissesse, não encontra lugar nessa divisão.

Castel também parece incapaz de reconhecer a origem de sua própria violência. A suspeita sempre vem de fora. É María quem o confunde, provoca, humilha e enlouquece. Ele deposita nela aquilo que não consegue examinar em si mesmo e depois passa a persegui-la como se estivesse apenas se defendendo. Ele coloca seus monstros dentro de María e se apresenta como a primeira vítima deles.

Essa lógica aparece com frequência fora da literatura. Há pessoas que ferem, controlam e invadem, mas descrevem cada gesto como uma reação inevitável ao comportamento alheio. A responsabilidade vai sendo deslocada até desaparecer. A agressão transforma-se em defesa; a perseguição, em prova de amor; o controle, em necessidade de segurança.

Castel sofre. Isso é evidente. O erro seria imaginar que o sofrimento torna sua versão verdadeira ou sua violência menos grave. Nem toda dor nos aproxima do outro. Há sofrimentos que nos fecham ainda mais dentro de nós mesmos. Castel sofre pela possibilidade de perder María, pela vergonha de ser enganado, pela ameaça de voltar à solidão. Sofre com intensidade, mas quase sempre a partir do próprio lugar. Até sua culpa permanece voltada para ele.

Em uma perspectiva kleiniana, a culpa poderia abrir caminho para aquilo que chamamos de reparação: reconhecer que ferimos alguém amado, suportar a responsabilidade e tentar preservar o que ainda pode ser preservado. Castel não consegue chegar a esse ponto. Ele lamenta a perda de María sem reconhecer plenamente a existência dela.

Castel não mata apenas uma mulher. Antes disso, passa boa parte do livro tentando substituir María pela ideia que construiu a respeito dela. Como a mulher real insiste em não coincidir com a personagem, ele elimina aquilo que sobra.

Talvez o problema de Castel não seja amar demais. Essa interpretação dá ao personagem uma grandeza romântica que ele não merece. O problema é não suportar que María exista fora dele.

Amar alguém exige aceitar uma notícia desagradável: nunca conheceremos inteiramente a pessoa com quem nos relacionamos. Podemos dividir a casa, os anos, a cama e as contas, mas alguma coisa continuará inacessível. O outro guarda lembranças que não presenciamos, pensamentos que não serão ditos, desejos que nem sempre compreenderá e regiões inteiras que não foram feitas para nós.

Castel trata essa distância como uma afronta. Ele não quer apenas proximidade. Quer acesso. Deseja uma María sem zonas obscuras, sem relações anteriores, sem ambiguidades e sem uma vida que escape à sua vigilância. Aquilo que permanece desconhecido rapidamente se torna suspeito.

Nesse sentido, O túnel continua atual. Talvez ainda mais do que Sábato pudesse imaginar. Hoje, a fantasia de transparência ganhou ferramentas eficientes. Podemos verificar se alguém está online, quanto tempo demorou para responder, quem começou a seguir, qual fotografia curtiu e onde esteve. A tecnologia não inventou o ciúme, mas lhe ofereceu uma central de operações. Chamamos isso de cuidado com mais frequência do que deveríamos.

É evidente que uma relação precisa de confiança, conversa e responsabilidade. A defesa abstrata do mistério também pode servir para proteger mentiras e covardias. Alteridade não é licença para qualquer comportamento. Ainda assim, existe uma diferença entre pedir honestidade e exigir transparência absoluta. A primeira permite uma relação entre duas pessoas. A segunda tenta reduzir duas pessoas a uma só vontade.

Castel não tolera a diferença entre aquilo que María é e aquilo que ele consegue compreender. Para ele, tudo o que escapa à compreensão se aproxima da traição. Sua tragédia nasce dessa equivalência.

A alteridade começa quando admitimos que o outro não é uma extensão de nós mesmos. Ele pode nos amar e, ainda assim, não responder como esperamos. Pode permanecer conosco sem entregar todas as chaves. Pode conhecer partes de nosso túnel sem abandonar o próprio caminho. O contrário da solidão não é a fusão. É o encontro possível entre duas pessoas que permanecem separadas.

Ao terminar o livro, continuamos sem saber exatamente quem foi María Iribarne. Conhecemos seus gestos pela lembrança de Castel, ouvimos suas palavras depois que ele as selecionou e assistimos à sua vida por meio do homem que a matou. Até sua opacidade chega a nós como uma acusação.

Esse é um dos aspectos mais violentos da narrativa de Castel: depois de assassinar María, ele tenta conquistar o direito de explicá-la. Talvez nossa responsabilidade como leitores seja não aceitar completamente esse convite.

Podemos compreender o túnel sem morar nele. Podemos examinar o medo, o ciúme e a solidão de Castel sem transformá-los em atenuantes. E podemos devolver a María ao único lugar que ele jamais conseguiu conceder a ela: o lugar de uma pessoa cuja vida não precisava caber em sua explicação.


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