O quarto enigma de Turandot

Eu era adolescente quando vi uma gravação dos Três Tenores cantando Nessun dorma. Não conhecia a ópera, não sabia quem era Calaf nem por que ninguém podia dormir. Ainda assim, aquele vincerò ficou registrado em minha memória. Há poucos dias, ao assistir a Turandot no Teatro Bradesco, finalmente ouvi a ária dentro da história. E ela me pareceu bem menos inocente.

Em uma Pequim lendária, a princesa Turandot condena à morte os pretendentes que não conseguem decifrar seus três enigmas. Sua crueldade tem uma origem: uma antepassada, Lo-u-Ling, foi raptada e morta por um príncipe estrangeiro. Turandot transforma essa violência herdada em vingança contra todos os homens. Até que Calaf, príncipe exilado e filho do velho Timur, contempla-a por alguns instantes, declara-se apaixonado e aceita o desafio. Ele resolve os enigmas, mas oferece à princesa uma saída: se ela descobrir seu nome antes do amanhecer, ele morrerá.

Ninguém deve dormir. Toda a cidade é mobilizada para descobrir a identidade do desconhecido. Liù, a jovem escravizada que permaneceu ao lado de Timur, conhece o nome de Calaf, suporta a tortura e se mata para não revelá-lo. Pouco depois, Calaf beija Turandot contra sua resistência, conta-lhe quem é e deposita a própria vida em suas mãos. Diante do imperador, ela anuncia ter descoberto o nome do príncipe: amor.

Uma leitura psicanalítica permite enxergar na dureza de Turandot algo além da conhecida “princesa de gelo”. Ela está identificada com a mulher violentada de sua linhagem e faz da ferida uma lei de Estado. Cada pretendente paga por um crime cometido por outro homem; cada execução repete a violência que deveria vingar. O trauma não elaborado retorna como destino, e os enigmas funcionam como uma muralha: antes que alguém possa aproximar-se, precisa sobreviver a um tribunal.

Calaf parece ocupar o extremo oposto, mas participa da mesma engrenagem. Ele vê Turandot e imediatamente decide que a ama, embora nada saiba a respeito dela. Ignora os apelos de Liù e do próprio pai, arrisca a vida de uma cidade inteira e transforma a recusa da princesa em obstáculo a ser vencido. Chamamos isso de coragem porque Puccini lhe deu uma música irresistível. Com bell hooks, porém, torna-se difícil chamar de amor uma relação organizada pela dominação. Calaf foi educado na gramática masculina da conquista: deseja, desafia, vence e toma a resistência feminina como estímulo para avançar. Seu vincerò não se dirige apenas aos enigmas. Há uma mulher incluída nessa vitória.

Liù parece oferecer outra forma de amar. Ela cuida de Timur, permanece ao lado dele quando todos partiram e enfrenta a tortura para proteger Calaf. Entretanto, a leitura sociocultural torna sua devoção igualmente inquietante. A ópera oferece duas saídas às mulheres: aquela que recusa precisa ser vencida; aquela que ama deve provar seu amor sacrificando-se. Turandot sobrevive ao se render. Liù se torna sublime ao desaparecer. Os homens, enquanto isso, continuam a história.

by Andréa Camargo in Concerto

Puccini morreu antes de concluir Turandot. Sua última música acompanha a morte e o cortejo de Liù. Na estreia de 1926, Toscanini interrompeu a apresentação exatamente nesse ponto, onde terminava a partitura deixada pelo compositor. O desfecho apresentado no Teatro Bradesco, como ocorre tradicionalmente, foi completado por Franco Alfano. É um dado histórico, mas também uma estranha intervenção crítica da própria obra: a partitura muda de mãos justamente quando precisa transformar uma morte em romance e fazer a violência desembocar no amor.

Poucos minutos depois de Liù ser torturada e morrer para proteger seu nome, Calaf repreende Turandot por sua crueldade e a beija contra sua resistência. A violência reaparece com outra aparência. O coro se eleva, a orquestra cresce e aquilo que poderia soar brutal adquire a imponência de uma revelação. A música sabe ser persuasiva. Às vezes, persuasiva o bastante para nos fazer aceitar como amor o que, fora do palco, reconheceríamos por outros nomes.

Há então um quarto enigma, jamais formulado pela princesa: por que estamos tão dispostos a acreditar que Calaf ama Turandot? Talvez porque ainda confundamos insistência masculina com coragem, recusa feminina com medo de amar e sofrimento com prova de afeto. bell hooks desconfiava dessa gramática: uma cultura fundada na dominação precisa produzir narrativas capazes de dar à conquista a aparência do amor.

Turandot finalmente pronuncia a palavra: “amor”. O coro a repete, a orquestra a transforma em certeza e Calaf vence.

Liù já não pode contestá-la.

Puccini, tampouco.

Entre a palavra proclamada e esses dois silêncios, permanece alguma coisa que nem a ópera conseguiu nomear.


Deixe uma resposta

Eu sou Renne

Boas vindas! Este não é um site de respostas rápidas, é um espaço de escuta e reflexão…

Aqui, a psicologia e a psicanálise não aparecem como manuais de comportamento, mas como modos de pensar a experiência humana, suas contradições, seus impasses e suas delicadezas.

Então, se quiser, pegue um café ou uma água de coco e deixe que os textos encontrem o seu tempo.

Descubra mais sobre Renne Nunes - Psicologia & Psicanálise

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo