Tenho a impressão de que estamos vivendo uma época em que ninguém mais parece autorizado a simplesmente existir. A pessoa acorda e já está em dívida com alguma coisa: precisa beber mais água, dormir melhor, treinar, fazer dieta, trabalhar, produzir, estudar, meditar, ler, responder mensagens, cuidar da casa, cuidar do corpo, cuidar da saúde mental, ser bom pai, boa mãe, bom filho, bom aluno, bom profissional, bom parceiro, bom amigo. E, como se não bastasse, ainda precisa parecer bem enquanto tenta dar conta de tudo isso.
A lista é infinita. Cada época teve suas exigências, claro, mas a nossa parece ter transformado a vida numa espécie de roteiro de sucesso. Existe sempre uma fórmula circulando: os hábitos certos, a rotina certa, o corpo certo, a carreira certa, a inteligência emocional certa, a maneira certa de sofrer, de superar, de amar, de envelhecer e até de descansar. Como se, seguindo bem o roteiro, a pessoa pudesse finalmente garantir alguma coisa: reconhecimento, estabilidade, beleza, admiração, seguidores, pertencimento, talvez até uma promessa silenciosa de felicidade.

Byung-Chul Han ajuda a pensar esse cansaço. Não se trata apenas de trabalhar muito, mas de viver sob uma cobrança permanente de desempenho. A pressão já não vem somente de fora. Ela entra na cabeça, no corpo, na agenda, no modo como cada um se avalia. Alain Ehrenberg também toca num ponto importante quando mostra o peso de uma autonomia que virou obrigação. O sujeito contemporâneo não sofre apenas porque alguém lhe diz “não podes”; sofre porque precisa provar o tempo todo que consegue, que dá conta, que escolhe bem, que administra bem a própria vida.
E há ainda o espetáculo. Guy Debord percebeu algo que hoje parece ainda mais evidente: a imagem deixou de ser apenas uma representação da vida e passou a organizar a própria relação entre as pessoas. Não é só que mostramos mais. É que, aos poucos, aprendemos a nos olhar como se também fôssemos uma imagem a ser sustentada. A pessoa trabalha, ama, viaja, envelhece, sofre e se recupera quase sempre diante de algum tipo de plateia, real ou imaginária.
Nesse cenário, fica difícil aceitar qualquer experiência que não venha acompanhada de controle, utilidade ou boa aparência. A tristeza precisa passar rápido. O luto precisa ensinar alguma coisa. O fracasso precisa virar aprendizado. A pausa precisa ser produtiva. O amor precisa caber numa narrativa aceitável. Até a vulnerabilidade, que poderia abrir algum espaço de verdade, corre o risco de virar performance de sensibilidade.
O problema é que a vida real não cabe tão bem nesse roteiro. Ela traz perda, espera, frustração, doença, separação, envelhecimento, ambivalência, desejo, medo, ternura, raiva, esperança e desamparo. Ela não se deixa administrar por completo. E talvez seja justamente aí que algumas pessoas comecem a se defender de viver. Não porque não desejem a vida, mas porque sabem, em algum lugar, que tudo aquilo que é vivo também pode acabar.
Freud toca nesse ponto de maneira muito bonita em “Sobre a transitoriedade”. Ele parte de uma questão aparentemente simples: algo perde valor porque termina? Uma paisagem é menos bela porque vai desaparecer? Uma flor vale menos porque dura pouco? Um amor, uma amizade, uma fase da vida, uma experiência, perdem importância porque não são eternos?
A resposta de Freud é precisa: não. A transitoriedade não diminui necessariamente o valor das coisas. Em muitos casos, ela intensifica. O que passa não vale menos apenas por passar. Às vezes vale justamente porque não pode ser possuído para sempre. O difícil não está na brevidade da experiência, mas na nossa dificuldade de suportar que aquilo que amamos não esteja garantido.
Lembro-me de ouvir alguém dizer, certa vez, que não queria ter um cachorro porque os cães vivem menos que nós. A frase vinha acompanhada de uma conclusão aparentemente sensata: “quando ele morrer, vou sofrer muito”. De início, parece uma fala prudente, quase racional. Mas, se escutamos com mais atenção, há ali uma renúncia enorme. Para evitar a dor futura da perda, a pessoa abre mão da alegria presente do vínculo.
Um cachorro não oferece eternidade. Oferece presença. Oferece rotina, bagunça, cuidado, despesa, preocupação, passeio, pelo pela casa, susto, riso, ternura, impaciência, companhia. Ele entra na vida de alguém e muda o ritmo da casa. Faz a pessoa reparar em horários, sinais pequenos, necessidades que não são apenas suas. Obriga uma saída de si. Quem ama um animal sabe que esse amor vem com uma espécie de luto anunciado. Ainda assim, seria muito pobre concluir que, por acabar, não vale a pena.
A frase sobre o cachorro me parece uma imagem muito clara de algo que aparece também no consultório. Algumas pessoas, depois de perdas, decepções, abandonos ou frustrações importantes, aprendem a se proteger. E essa proteção, em algum momento, pode ter sido necessária. Ninguém endurece por acaso. Às vezes a dureza foi a forma possível de continuar.
O problema começa quando essa defesa deixa de ser uma resposta a uma dor específica e passa a organizar toda a relação com a vida. A pessoa passa a desejar menos para não se frustrar tanto. Espera menos para não se decepcionar. Ama com reserva para não depender. Entrega-se pela metade para não desmoronar inteira. Por fora, pode continuar funcionando muito bem: trabalha, responde, resolve, organiza, cumpre. Por dentro, no entanto, algo fica mais estreito.
Essa economia afetiva parece proteger, mas cobra caro. A pessoa sofre menos algumas dores, mas também perde certas alegrias. Protege-se do abandono, mas perde encontro. Protege-se da frustração, mas perde desejo. Protege-se do luto, mas perde amor. Aos poucos, a tentativa de não sofrer vai produzindo uma vida excessivamente administrada, onde quase nada surpreende, quase nada desorganiza e quase nada toca de verdade.
O luto, quando pode ser vivido, não apaga a perda. Também não devolve a pessoa ao que ela era antes. Isso é importante. Há perdas que nos modificam. Há dores que deixam marca. Elaborar uma perda não significa sair ileso dela, nem substituí-la rapidamente por outra coisa. Significa poder reconhecer que algo terminou sem concluir que a própria capacidade de amar terminou junto.
Na clínica, às vezes, algo começa a mudar quando a pessoa percebe que sua defesa, embora compreensível, também virou prisão. O que antes a protegeu agora a impede de se aproximar. O que antes evitou uma queda agora impede qualquer voo. E não se trata de convencer alguém a se jogar ingenuamente na vida, como se vulnerabilidade fosse uma palavra bonita e suficiente. Trata-se de construir, pouco a pouco, alguma confiança na própria capacidade de atravessar aquilo que não se controla.
Há uma diferença importante entre funcionar e sentir-se vivo. Uma pessoa pode funcionar muito bem e, ainda assim, estar distante de uma experiência própria de existência. Pode ter uma rotina correta, uma imagem admirável, um bom desempenho, uma fala inteligente, uma vida aparentemente organizada, e ainda assim sentir que algo nela apenas atua. Atua o sucesso, atua a maturidade, atua a leveza, atua a independência, atua até a espontaneidade.
Talvez por isso a ideia de autenticidade precise ser tratada com cuidado. Autenticidade não é fazer tudo o que se quer, nem transformar o próprio desejo em lei absoluta. Charles Taylor ajuda a pensar isso quando distingue uma vida própria de um narcisismo disfarçado de liberdade. Ser autêntico não é se fechar no próprio eu. É poder responder ao mundo de um modo menos automático, menos defensivo, menos governado pela necessidade de parecer alguma coisa.
A psicanálise, especialmente quando se aproxima de uma sensibilidade winnicottiana, também nos lembra que viver criativamente não significa necessariamente produzir uma obra de arte. Criatividade, nesse sentido, é uma maneira de estar no mundo. Uma conversa pode ser criativa. Um vínculo pode ser criativo. Um modo de cuidar pode ser criativo. Uma forma de atravessar o luto pode ser criativa. Até amar um cachorro, com tudo o que isso envolve de alegria e perda, pode reabrir zonas de presença, brincadeira e ternura que estavam adormecidas.
No fundo, a pergunta talvez seja menos “quanto estamos dispostos a sofrer?” e mais “quanto da vida estamos dispostos a perder para não sofrer?”. Porque a finitude não deveria ser usada como argumento contra o amor. O fato de algo acabar não prova que foi inútil. Prova apenas que esteve vivo, que teve duração, presença, corpo, intensidade, história.
Amar uma pessoa, um animal, uma cidade, uma ideia, uma fase da vida ou uma experiência qualquer é aceitar que nenhuma presença vem com garantia de permanência. Isso não torna o vínculo menor. Torna-o mais delicado, mais exigente e, em muitos casos, mais verdadeiro. Quem se defende de toda perda termina se defendendo também de todo encontro. E uma vida excessivamente protegida da dor pode acabar protegida demais da própria vida.
Referência
Debord, G. (1997). A sociedade do espetáculo. Contraponto.
Ehrenberg, A. (1991). Le culte de la performance. Calmann-Lévy.
Ehrenberg, A. (1998). La fatigue d’être soi: Dépression et société. Odile Jacob.
Freud, S. (2010). A transitoriedade. In Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914–1916). Obras completas, Vol. 12). Companhia das Letras.
Han, B.-C. (2015). Sociedade do cansaço. Vozes.
Taylor, C. (1991). The ethics of authenticity. Harvard University Press.
Winnicott, D. W. (1971). Playing and reality. Tavistock Publications.


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