Cazuza resolveu dar o ar da graça no consultório, sem marcar horário, quando, no meio de uma sessão, um paciente se lembrou do refrão de Blues da Piedade: “Vamos pedir piedade / Senhor, piedade / pra essa gente careta e covarde”. Rimos da insolência daquela oração, que chama seus destinatários de caretas e covardes antes de pedir ao Senhor que lhes dê grandeza e coragem. Quando a sessão terminou, percebi que o refrão não tinha ido embora com o paciente e fiquei pensando em quem cabia naquele “essa gente”. O pronome é cômodo: mantém a pequenez e a covardia do lado de fora, deixando-nos livres para cantar do camarote enquanto os derrotados desfilam lá embaixo. Cazuza estraga esse conforto ao se incluir entre aqueles para quem canta: “somos iguais em desgraça”. A piedade perde a pose caridosa e alcança também quem a pede, sobretudo nas pequenas covardias com que vamos ajeitando a vida até uma existência diminuída nos parecer bastante razoável.
As “sementes mal plantadas” de Cazuza atravessaram quase quatro décadas e hoje circulam com outra aparência: acordam cedo, cumprem horários, entregam resultados, pagam boletos, fazem cursos, contam passos e vigiam o sono. À primeira vista, não parecem derrotadas, até porque fracassar sem descuidar da aparência se tornou uma competência bastante valorizada. Esse currículo de pessoa funcional não resolve, contudo, a impressão teimosa de que alguma coisa está sempre aquém. Há, felizmente, uma indústria inteira disposta a corrigir o defeito: disciplina para quem não dá conta, organização para os exaustos, propósito para o trabalho esvaziado e algum aplicativo que ensine o corpo a respirar sem atrapalhar a agenda. A fatura, naturalmente, vai para o indivíduo, convertido em pequeno empreendimento e intimado a explicar por que, depois de tanto investimento, ainda não se tornou rentável, sereno e feliz.
Esse hábito de mandar a fatura para o indivíduo aparece em Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico, organizado por Christian Dunker, Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior. O livro lembra que o sofrimento não chega até nós em estado puro, apenas esperando um nome. Aprendemos com a cultura a reconhecê-lo, a contar sua história, a procurar suas causas e, sobretudo, a decidir quem deve responder por ele. Quando todas as explicações apontam para dentro, o mundo sai discretamente da história. A exaustão passa por desorganização, a insegurança material é rebatizada de ansiedade e a precariedade dos vínculos reaparece como falta de amor-próprio. A dor continua ali, acrescida de uma cobrança bastante atual: com tantos recursos disponíveis, como é que alguém ainda não aprendeu a sofrer direito?
Num muro chileno, alguém pichou: “No era depresión, era capitalismo”. A frase provoca um incômodo porque tira do indivíduo a obrigação de explicar sozinho a própria dor e traz de volta as condições em que ela ganhou forma. Jornadas exaustivas, dívidas, insegurança, desigualdade e competição também fazem sofrer. Usar o grafite como explicação para toda depressão, porém, seria trocar uma resposta preguiçosa por outra. O capitalismo adoece, mas não escreve sozinho uma história psíquica; entram nela o corpo, a infância, as perdas, os conflitos e tantos acontecimentos que nenhuma palavra de ordem comporta. A pichação desarruma a versão oficial e obriga o mundo a voltar para a história. Cada um continua responsável pelo que faz com o próprio sofrimento; outra coisa é obrigá-lo a responder por todas as suas causas, enquanto o mundo, depois de produzir parte da ferida, sai de cena como se nada tivesse a ver com ela.

O neoliberalismo alcança sua maior eficiência quando já não precisa colocar um capataz em cada sala, pois instala a cobrança na vida psíquica e a apresenta como desejo próprio. O antigo mandamento proibia; o atual oferece possibilidades infinitas e pergunta, com falsa inocência, por que você ainda não fez mais de si. Até a falta constitutiva do desejo foi convertida em oportunidade comercial. Cazuza canta aqueles que querem sempre o que não têm; o mercado responde assegurando que sabe exatamente o que lhes falta e pode entregar ainda hoje, com frete grátis. Cada insuficiência ganha um objeto e uma rotina matinal. Como a promessa de completude nunca se cumpre, o fracasso confirma a necessidade de nova compra e de novo esforço. O sujeito ocupa simultaneamente o lugar de cliente insatisfeito, produto defeituoso e funcionário encarregado da própria manutenção.
Esse funcionário não pode perder tempo com demoras; precisa entender o que sente, corrigir o defeito e voltar logo à circulação. Anna Kornbluh dá a essa pressa o nome de imediatez, o estilo de uma época em que o mundo inteiro parece caber na mão, desde que nada exija distância, espera ou mediação. Queremos passar do desejo ao objeto, da sensação à explicação e do pensamento à publicação sem perder tempo no intervalo. “Fale sua verdade”, “viva sua melhor vida”, “seja você mesmo”: essas palavras de ordem vendem liberdade, embora pressuponham um eu transparente e sempre pronto para atualização. A ambivalência demora demais, o silêncio não produz conteúdo e a dúvida prejudica o engajamento. Até a serenidade precisa ser rápida: alguns minutos de atenção plena entre duas urgências, um Buda discreto na bomba de gasolina, apenas o suficiente para que o tanque humano volte ao tráfego sem perguntar quem escolheu o destino.
Cazuza já desconfiava de quem vê a luz sem permitir que ela alcance as próprias minicertezas. A informação se multiplicou muito mais depressa que nossa disposição para mudar de ideia, oferecendo um repertório quase infinito de argumentos para proteger aquilo em que já acreditávamos. Pesquisamos até encontrar alguém que concorde conosco, chamamos reação de autenticidade e exibimos convicção como prova de caráter. Também continuamos contando dinheiro, embora a contabilidade tenha se sofisticado: agora entram na soma curtidas, calorias, horas produtivas, qualidade do sono e até o rendimento das relações. Na canção, quem vive contando dinheiro é também quem não muda quando é Lua cheia: o céu pode se transformar diante de seus olhos sem provocar qualquer movimento em alguém ocupado demais conferindo o próprio saldo.
Essa contabilidade também chegou ao amor, e quem espera alguém que caiba em seu sonho agora dispõe de filtros, listas de compatibilidade e um vocabulário quase clínico para retirar da lista quem escapa do roteiro. Basta uma frustração para aparecer uma red flag, um diagnóstico ou a certeza de que não vale a pena insistir. Certas relações precisam mesmo terminar, pela violência ou porque já não sustentam uma vida comum. Em muitas outras, o desconforto vem de algo menos grave e mais difícil de admitir: a pessoa diante de nós não foi feita para confirmar nossas fantasias. Em vez de descobrir quem ela é, voltamos a procurar outra que combine melhor com o anúncio. A espera cresce como as varizes da canção, e seguimos no giro dos insetos em volta da lâmpada, chamando de critério o medo bastante comum de encontrar alguém que não caiba no sonho.
Depois que todo desconforto ganhou um nome e um método, cuidar de si também entrou na lista de tarefas. Respirar, descansar ou fazer terapia podem tornar a vida mais habitável; muitas vezes, porém, servem para nos devolver um pouco mais regulados ao que nos adoece. Respiramos fundo durante a reunião abusiva, ajustamos nossas metas para caber numa jornada absurda e tiramos férias com a obrigação de voltar renovados. A clínica entra nesse circuito quando ajuda alguém apenas a suportar melhor aquilo que o fere, como se melhorar fosse voltar a funcionar sem incomodar. Acontece que, às vezes, o sintoma é a forma confusa que uma recusa encontrou para existir, e fazê-lo calar depressa demais deixa intacta a vida contra a qual ele ainda tentava protestar.
Cazuza poderia ter pedido força de vontade, disciplina ou resiliência, mas escolheu grandeza e coragem. Nos manuais de superação, essas palavras costumam significar disposição para vencer, arriscar e empreender a si mesmo; na canção, apontam para um esforço bem menos vistoso: admitir que precisamos dos outros, que nos contradizemos e que alguns limites não se deixam converter em oportunidade. Também exige coragem abandonar uma certeza que nos protegia ou reconhecer a própria covardia sem fazer dela um destino. Quem canta já se incluiu entre os desgraçados e pede para os outros a mesma piedade de que precisa. Isso não nos livra de responder pelo que fazemos com nossa dor. Também repetimos o que nos machuca, protegemos alguns medos como se fossem convicções e, às vezes, encontramos no próprio sofrimento uma forma de abrigo. Pedir piedade, nesse caso, é tentar olhar para tudo isso sem transformar a vida psíquica num tribunal apressado à procura de um único culpado.
Quando Cazuza convoca o pastor e o bumbo para a praça, não está organizando um grupo de apoio nem uma palestra sobre resiliência; leva para o espaço público aquilo que aprendemos a sofrer em silêncio e aumenta o volume. Debaixo da chuva rala, o incêndio continua queimando entre diagnósticos apressados, agendas impecáveis e técnicas de respiração que nos ajudam a suportar o calor sem perguntar quem ateou o fogo. Cazuza nos chama de miseráveis, caretas e covardes e, logo depois, mistura-se conosco: somos iguais em desgraça. Na praça, ninguém permanece no camarote, e as virtudes que exibimos com tanto orgulho ficam sob suspeita: quantas vezes chamamos de disciplina o medo de mudar, de maturidade o medo de desejar e de autocuidado o medo de ser afetado? Vamos pedir piedade, então, por nós, os bem-adaptados: nossa derrota chega pontualmente, cumpre todas as metas e ainda agradece a oportunidade.
Referências
Cazuza, & Frejat, R. (1988). Blues da piedade [Song]. On Ideologia [Album]. PolyGram/Philips.
Kornbluh, A. (2025). Imediatez: Ou o estilo do capitalismo tardio demais. Boitempo.
Safatle, V., Silva Junior, N. da, & Dunker, C. (Eds.). (2026). Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico. Autêntica.


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