Habeas Corpus: entre o divã e o tribunal

⚠️ Atenção: este texto contém spoilers de Habeas Corpus. ⚠️

Estreada em 23 de setembro de 2026, Habeas Corpus é uma série brasileira de oito episódios criada por Luiz Villaça, Leonardo Moreira e Donna Oliveira, com direção geral de Villaça e episódios dirigidos também por Flávia Lacerda. Produzida pela Café Royal, inspira-se em casos de erros judiciários e no trabalho do Innocence Project Brasil. Quando terminei de assistir, fiquei imaginando que pergunta faria se Inez Franco entrasse no meu consultório.

Na cena de abertura, Inez, interpretada por Marjorie Estiano, exerce uma habilidade que me inquietou. Diante do tribunal, ela fala com vigor, encontra a emoção exata para envolver os jurados e ajuda a condenar uma mulher inocente. Quando o tiro interrompe sua fala, não é apenas a carreira que muda. Anos depois, Inez ensina Direito, coordena um grupo de revisão criminal e mal consegue entrar num fórum sem sentir no corpo a violência daquele dia. Marjorie faz com que a precisão da antiga advogada ainda esteja presente na professora, mesmo quando a segurança que a sustentava já não está.

Se Inez se deitasse no meu divã, eu lhe pediria que contasse aquela audiência duas vezes: uma desde a posição da advogada cuja argumentação levou uma mulher inocente à condenação; outra desde a pessoa atingida por um disparo no mesmo tribunal. A memória não se divide assim com facilidade, mas há uma diferença ética entre a violência que sofreu e aquela de que participou. O medo que a detém à porta do fórum merece ser ouvido sem que se transforme em castigo. Também escutaria sua insistência em reabrir processos, a energia que hoje dedica a encontrar falhas onde antes parecia haver uma sentença definitiva. A culpa pode pôr alguém a trabalhar e, ao mesmo tempo, conservá-lo no centro do próprio drama. Inez conseguiria sustentar esse esforço se a mulher que ajudou a condenar recuperasse a liberdade sem jamais lhe oferecer perdão?

Há uma mulher que não pode ficar à margem dessa conversa: Eliane, interpretada por Naruna Costa, é a mãe de Marina e foi presa após a atuação de Inez no processo. Antes de se tornar a lembrança dolorosa da advogada ou a causa pela qual a filha luta, Eliane tinha uma vida sustentada pelo próprio trabalho e pela família. Para ela, Inez continua sendo a advogada que ajudou a condená-la. Inez pode dedicar anos a corrigir injustiças; Eliane não lhe deve perdão por isso. Se houver reparação, ela terá de alcançar a pessoa que perdeu a liberdade e não apenas aliviar o sofrimento de quem contribuiu para a condenação.

Marina, vivida por Any Gabrielly, se aproxima de Inez para agir em favor da mãe, mas esconde o vínculo que existe entre as duas. Aos poucos, admira a professora que ajudou a condenar Eliane e talvez reconheça nela a advogada que gostaria de ser. Para Marina, essa admiração roça a deslealdade à mãe. Ela mente para levar adiante seu plano e conservar a aproximação com Inez; cada mentira atinge alguém que confiou nela. Any Gabrielly dá à personagem uma atenção quase vigilante, como se precisasse medir cada palavra antes de se deixar tocar pelo que ouve. Se Marina viesse ao divã, eu a convidaria a falar da tarefa que assumiu para si ao entrar na universidade e do espaço que lhe resta para desejar uma vida própria sem sentir que abandona Eliane.

Também convidaria Tina, a delegada vivida por Marisa Orth, embora imagine que ela tentaria conduzir até a conversa no divã. Sua austeridade vem acompanhada de uma certeza perigosa: as regras valem enquanto servem ao resultado que escolheu. Diante de um fato que a contraria, Tina não recua para investigar; procura desqualificar quem o apresenta. Nada no roteiro autoriza inventar-lhe um trauma para explicar essa conduta, e seria uma indulgência transformar abuso de poder em sintoma. Eu perguntaria o que há de tão intolerável para ela na possibilidade de estar errada, sem esquecer quem sofre as consequências da resposta: quando uma delegada tem meios de fabricar obediência, sua convicção privada se torna violência pública.

Com Jonathan, vivido por Hypólito, eu começaria por lhe pedir que me contasse um dia comum dos seis anos que passou na prisão. Condenado por um crime que afirma não ter cometido, esse jovem negro e de origem humilde viveu sob a palavra “culpado”, repetida por quem tinha poder para fazê-la parecer a verdade sobre ele. Eu lhe perguntaria o que precisou preservar de si diante dessa palavra e o que lhe custa, agora, acreditar na possibilidade de sair. Sua reserva diante da ajuda de Inez pode ser uma maneira de se proteger do desamparo de esperar por uma decisão que não controla. Se o recebesse no consultório, teria de cuidar para que minha escuta não fosse mais um lugar em que ele precisasse provar a inocência antes de poder falar do que sofreu.

Foi a partir desses encontros imaginados no divã que voltei à pergunta sobre a verdade. Na clínica, não tomo o que alguém afirma sobre si como relato completo; uma contradição persistente, um silêncio ou a repetição de uma mesma cena podem dizer algo sobre o desejo e a culpa que essa pessoa ainda não pôde formular. Escutar essa verdade exige tempo, mas não confere ao analista autoridade para decidir o que aconteceu a terceiros. Um tribunal pode privar alguém da liberdade e precisa se submeter à prova, ao contraditório e à possibilidade de rever seus erros. Na audiência de abertura, Inez demonstra como a eloquência produz convicção mesmo quando os fatos não a sustentam. O que me perturba é que esse poder não se distribui igualmente: a palavra de uma advogada prestigiada encontra um caminho que as de Eliane e Jonathan precisam abrir com anos de luta. Falar em “verdade de cada um” sem considerar essa diferença seria repetir, na linguagem, a injustiça que a série expõe.

Fora do tribunal, uma frase arrancada do contexto ou uma imagem fabricada por inteligência artificial pode circular antes que alguém investigue sua origem. Na vida íntima, também escolhemos o que mostrar e o que esquecer para preservar uma imagem suportável de nós mesmos. Reconhecer esse impulso não coloca uma fotografia retocada no mesmo plano de uma prova adulterada: o dano depende de quem controla o recorte e do poder de convertê-lo em fato. Em Habeas Corpus, a versão apresentada por Inez levou à condenação de Eliane, que passou oito anos presa; Marina precisou dedicar parte da própria vida a contestá-la. Quando uma versão falsa adquire autoridade, desmenti-la exige de quem foi atingido tempo, recursos e uma credibilidade que a acusação já lhe havia retirado.

Talvez eu tenha imaginado o divã para permanecer diante do que a série mostra. Procuro palavras para a culpa de Inez e o amor ferido de Marina, enquanto o erro judiciário, fora da tela, consome anos da vida de alguém. Posso interromper o episódio, escrever e ir embora; quem foi condenado não pode deixar a prisão quando a história se torna insuportável. A brincadeira me obriga a desconfiar da própria escuta: sem um roteiro que nos diga quem é inocente, por que a hesitação de uns nos parece humana e a de outros, suspeita?


Uma resposta para “Habeas Corpus: entre o divã e o tribunal”

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