“Em que momento nos tornamos velhos?” Ouvi essa pergunta no podcast Tantos tempos (Pomi, 2026) e fiquei pensando na dificuldade de respondê-la sem recorrer imediatamente ao espelho ou ao calendário. Há algo desconcertante em perceber que os anos passaram por alguém que, por dentro, continua se reconhecendo em desejos e inquietações antigos. Às vezes, o olhar de outra pessoa nos apresenta à nossa idade, e precisamos de tempo para assimilar o que, para ela, parece evidente. Entre saber quantos anos temos e reconhecer que essa idade nos pertence, existe um trabalho psíquico que nenhuma data resolve.
A vida psíquica conserva experiências que o calendário já considera distantes, mas que permanecem presentes em nossas expectativas e maneiras de amar. A atemporalidade do inconsciente, descrita por Freud (1915/2010), ajuda a compreender por que a passagem dos anos não basta para transformar aquilo que sentimos. Podemos envelhecer enquanto ainda esperamos um reconhecimento que não veio, ou adiamos decisões como se o futuro continuasse indefinidamente disponível. Quando essa disponibilidade se estreita, somos confrontados também com as vidas que imaginávamos poder viver e que talvez já não sejam possíveis.
Há, nesse encontro, um luto pela pessoa que fomos e por aquela que esperávamos nos tornar. A ferida narcísica alcança a imagem na qual nos apoiávamos para reconhecer nosso valor, sobretudo quando ela dependia de conservar certas capacidades ou de permanecer indispensável a alguém. Elaborar essas perdas exige distinguir o que efetivamente terminou daquilo que apenas deixou de corresponder ao nosso ideal. Algumas possibilidades precisam ser abandonadas, enquanto outras permanecem encobertas pela insistência em sermos quem já fomos; reconhecer essa diferença demanda um tempo que o discurso da reinvenção costuma desconsiderar.

Esse trabalho acontece nas relações, sob olhares que podem amparar o estranhamento ou aprofundá-lo. Beauvoir (1970) mostra quanto a experiência da velhice depende do lugar que os outros nos permitem ocupar. Uma pessoa pode precisar de ajuda para caminhar e continuar capaz de decidir sobre a própria vida; quando decidem por ela sem perguntar, uma limitação física se transforma em perda de autoridade sobre si. O recolhimento que se segue pode então ser atribuído à idade, embora também responda à experiência de já não ser escutado.
Mesmo os elogios podem participar desse afastamento, como quando admiramos alguém porque não parece ter a idade que tem. A aceitação fica condicionada à capacidade de disfarçar o envelhecimento, e a promessa de autonomia se converte em obrigação de permanecer jovem. Debert (1999) permite reconhecer o custo dessa responsabilização individual, que trata a dependência como resultado de uma vida mal administrada. A pessoa precisa enfrentar suas perdas e ainda se defender da suspeita de não ter feito o suficiente para evitá-las, como se a vulnerabilidade fosse uma falha de caráter.
É nesse ponto que a discussão sobre o tempo toca diretamente a possibilidade de elaborar uma experiência. A dispersão temporal examinada por Han (2016) e a desvalorização das mediações analisada por Kornbluh (2024) ajudam a pensar a dificuldade de compreender uma mudança quando tudo exige presença e resposta imediatas. Quem ainda procura palavras para o que está vivendo já deveria exibir uma versão renovada de si. O intervalo em que não sabemos quem estamos nos tornando passa a parecer atraso, embora possa ser necessário para que uma transformação deixe de ser apenas sofrida e comece a ser reconhecida.
Diante desse desencontro, o passado pode oferecer um lugar onde ainda sabemos quem somos. Entendo a tentação de recorrer ao “meu tempo”, mas desconfio do momento em que essa expressão transforma a juventude de quem fala em medida para julgar a vida dos outros. Talvez estejamos tentando recuperar a posição que ocupávamos no mundo, confundindo a saudade de nós mesmos com a convicção de que o mundo era melhor. Essa hipótese permite escutar a nostalgia sem obedecer a ela e reconhecer a perda sem desqualificar quem vive agora experiências que desconhecemos.
A memória dos mais velhos, como mostra Bosi (1994), depende de vínculos com pessoas e lugares, razão pela qual encontrar alguém que escute pode devolver às lembranças uma possibilidade de circulação. Ao serem narradas, elas também podem receber perguntas que alteram nossa compreensão do vivido. Morin (2025), ao insistir na coexistência histórica de avanços, regressões e acontecimentos imprevistos, impede que essa transmissão se converta em certeza de superioridade. Nossa história pode participar da compreensão do presente sem exigir que ele repita o mundo no qual aprendemos a nos reconhecer.

Essa disponibilidade, contudo, não pode se tornar outra exigência de desempenho, como se envelhecer fosse o castigo reservado a quem perdeu a curiosidade. Uma pessoa velha pode desejar, aprender e mudar sem precisar receber por isso o título de jovem, assim como pode atravessar períodos de desânimo sem que sua vida perca valor. A escuta psicanalítica interessa-se justamente pelo modo singular como alguém negocia essas perdas e permanências, sem antecipar o que deveria sentir nem transformar a elaboração do luto em obrigação de encontrar rapidamente uma nova alegria.
Volto à pergunta inicial pensando que reconhecer a própria velhice envolve uma mudança na relação com o futuro: certas possibilidades se fecham, enquanto outras se tornam visíveis quando deixamos de exigir que a vida confirme a imagem que construímos de nós. Essa mudança pode ser dolorosa e depende também de relações nas quais possamos falar do que perdemos e descobrir o que ainda nos importa. Continuar pertencendo ao presente inclui poder precisar dos outros, participar das decisões sobre a própria vida e encontrar quem se interesse pela pessoa que estamos nos tornando.
Referências
Beauvoir, S. de. (1970). La vieillesse. Gallimard.
Bosi, E. (1994). Memória e sociedade: Lembranças de velhos (3ª ed.). Companhia das Letras.
Debert, G. G. (1999). A reinvenção da velhice: Socialização e processos de reprivatização do envelhecimento. Edusp.
Freud, S. (2010). Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914–1916). Companhia das Letras.
Han, B.-C. (2016). O aroma do tempo: Um ensaio filosófico sobre a arte da demora. Relógio D’Água.
Kornbluh, A. (2024). Immediacy: Or, the style of too late capitalism. Verso.
Morin, E. (2025). Y a-t-il des leçons de l’histoire ? Denoël.
Pomi, C. (Apresentadora). (2026, 16 de abril). Zélia Duncan e Marcello Serpa (Nº 45) [Episódio de podcast de áudio]. In Tantos tempos. Orson Podcast.


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