Outro dia, conversando sobre Os miseráveis, de Victor Hugo (1862), eu dizia que um livro já fez muito quando nos põe a pensar na vida que estamos levando. Acabei me perguntando se também não nos tornamos miseráveis quando nos agarramos tanto às nossas certezas que já não nos permitimos mudar e qualquer diferença começa a parecer uma ofensa. A conversa foi me levando aos amigos, às pessoas com quem aprendemos a olhar o mundo e àquilo que, por olharmos sempre na mesma direção, talvez deixemos de enxergar.
Quanto do mundo que acredito conhecer me chega pelos olhos das pessoas com quem convivo? Uma conversa pode despertar o interesse por algo que nos passava despercebido; pode também reforçar um preconceito que ninguém ali se dispõe a examinar. Desconfio um pouco da tranquilidade de um grupo em que todos pensam igual, sobretudo quando estou confortável dentro dele. É fácil chamar de afinidade o prazer de ouvir de outra boca aquilo que já pensamos. E, quando alguém discorda, quanto tempo levamos para suspeitar que deixou de gostar de nós?
Quando penso nos meus amigos, também penso na pessoa que sou na companhia de cada um deles. Na amizade que Aristóteles (2009) associa à virtude, desejamos o bem do amigo por ele mesmo, para além da utilidade ou do prazer que sua companhia nos oferece. Desejar o bem de um amigo também pode significar aceitar que suas escolhas nos reservem um lugar diferente daquele que gostaríamos de ocupar em sua vida.
Na infância, uma amizade pode nascer no meio de uma brincadeira e crescer com a certeza de que amanhã estaremos juntos outra vez, no mesmo pátio da escola. Na adolescência, começamos a contar ao amigo o que ainda não sabemos como dizer em casa e é um alívio descobrir, no meio da conversa, que ele também se sente um pouco fora de lugar. Depois, o trabalho nos leva para outros horários, às vezes para outras cidades, e precisamos aprender a procurar quem antes encontrávamos todos os dias, porque já não há um recreio à nossa espera.
Fazer amigos na vida adulta exige alguma disposição para o embaraço de convidar alguém e aceitar que as primeiras conversas sejam um pouco desajeitadas. Às vezes queremos a intimidade de uma amizade antiga sem atravessar o período em que ainda somos quase estranhos. Hall (2019) observou que as pessoas que passavam mais tempo juntas em atividades de lazer também relatavam maior proximidade. Penso na diferença que faz poder retomar uma conversa na semana seguinte, num curso ou numa caminhada. Aos poucos, vamos nos lembrando do que o outro contou e querendo saber como a história continuou.
Também seria injusto tratar a falta de tempo como simples desculpa. Há quem termine o dia sem forças para responder a alguém de quem gosta. O trabalho e as responsabilidades de cuidado distribuem desigualmente a possibilidade de estar disponível. A aceleração descrita por Rosa (2019a) alcança a amizade quando passamos a exigir dos vínculos a rapidez que já nos exaure em outras partes da vida. O sofrimento de um amigo parece pedir uma solução imediata, quando talvez ele próprio ainda esteja procurando palavras para contá-lo.
Gosto de receber uma bobagem que um amigo me mandou porque já imaginava minha risada, e de saber que passei por seu pensamento no meio do dia. Espero conseguir ouvi-lo com a mesma disposição quando ele me disser algo que me desagrade ou me faça duvidar de uma certeza. Rosa (2019b) chama de ressonância uma relação em que somos afetados, respondemos e podemos nos transformar. Penso nisso quando uma conversa continua comigo depois da despedida, quando volto ao que ouvi e percebo que o amigo tocou em alguma coisa que eu ainda não tinha considerado.

A ética que orienta minha prática psicanalítica implica reconhecer a ambivalência dos afetos e a responsabilidade pelo que fazemos com eles. A alegria por uma conquista de alguém querido pode trazer também uma discreta inquietação sobre a nossa própria vida, sobre aquilo que desejamos e ainda não pudemos viver. Kancyper (2014) atribui à amizade uma função estruturante, que podemos reconhecer nas conversas em que um amigo nos ajuda a rever certezas. Essa proximidade também nos dá a conhecer algumas de suas fragilidades e exige cuidado com a maneira de lhe dizer algo difícil. Quando usamos a intimidade para humilhar, a justificativa de que “amigo diz a verdade” pode nos impedir de reconhecer a crueldade com que tratamos alguém que confiou em nós.
Mas eu não gostaria de uma amizade em que cada encontro parecesse destinado a nos aperfeiçoar. Quero preservar a conversa que se perde, a graça de um comentário sem importância. Ao escrever sobre a capacidade de estar só, Winnicott (1958) mostra a importância de uma presença confiável em sua constituição. Por minha conta, aproximo essa ideia da amizade: há companhias diante das quais podemos sossegar. Estar juntos sem precisar produzir um assunto também é uma maneira de gostar.
Lembro-me de um professor idoso, hoje falecido, dizer que um dos grandes desafios de envelhecer era ver os amigos contemporâneos morrerem e ficar cada vez mais sozinho. Penso na falta que faz alguém que se lembra conosco, que conheceu nossa voz antes de ela se tornar esta e pode rir de uma história sem que precisemos explicar os personagens. Quando esse amigo morre, há lembranças que passam a depender apenas de nós.
Gostaria de pensar também na alegria de ter, na velhice, um encontro marcado e uma conversa por continuar. A perspectiva social de Beauvoir (1970/2024) me faz considerar o que pode existir entre a vontade de rever um amigo e a possibilidade de chegar até ele: um trajeto difícil, a falta de transporte ou um lugar onde não se consegue entrar. Huxhold et al. (2014), ao acompanharem adultos e idosos na Alemanha, encontraram uma associação entre atividades com amigos e mudanças favoráveis no bem-estar. Penso no alcance desse achado para quem deseja companhia, mas depende de condições que não pode providenciar sozinho. O cuidado com a vida de quem envelhece inclui tornar possível essa visita, esse passeio, essa participação na vida dos outros.
Quero continuar fazendo amigos quando for velho. Gosto de pensar que alguém que não conheceu meus vinte anos poderá, um dia, guardar com carinho a lembrança de uma tarde que passamos juntos. Ao pensar a amizade para além dos modelos familiares, Ortega (2000) abre espaço para relações cujos papéis vamos descobrindo na própria convivência. Penso na liberdade de contar a um amigo mais jovem alguma coisa que ainda me deixa inseguro, de ouvir sobre sua vida e acabar rindo juntos de uma bobagem. Gostaria de conservar essa disposição de me aproximar, mesmo sem saber se dali nascerá uma amizade. E de não deixar para depois a vontade de dizer: gostei de estar com você, vamos nos ver de novo?
Volto à conversa sobre Hugo e me pergunto quanto deste texto teria conseguido escrever sozinho. Há ideias que só nos ocorrem porque alguém se demora um pouco conosco, e penso com carinho nas pessoas que participaram, assim, do meu jeito de olhar a vida. A frase “você não era assim” talvez guarde a saudade de um tempo em que nos reconhecíamos com mais facilidade. Gostaria que essa saudade nos deixasse ouvir o que o amigo tem a dizer sobre quem está se tornando. O que deixamos de lhe perguntar por acreditar que já sabemos suas respostas? Uma canção que ouvi há pouco me trouxe a imagem das flores que nunca chegamos a oferecer. Fiquei pensando nos amigos que temos vontade de procurar, nas palavras afetuosas que ensaiamos e acabamos guardando para outra ocasião. Quero envelhecer com os meus e poder estranhá-los um pouco, descobrir que uma opinião mudou ou que nasceu um desejo que eu desconhecia. E me sentir à vontade para chegar, depois de tantos anos, com alguma coisa nova para contar e começando, quem sabe, por dizer que estava com saudade.
Referências
Aristóteles. (2009). Ética a Nicômaco (A. de C. Caeiro, Trad.). Atlas.
Beauvoir, S. de. (2024). A velhice (M. H. F. Martins, Trad.; 4ª ed.). Nova Fronteira. (Obra original publicada em 1970)
Hall, J. A. (2019). How many hours does it take to make a friend? Journal of Social and Personal Relationships, 36(4), 1278–1296. https://doi.org/10.1177/0265407518761225
Hugo, V. (1862). Les misérables. Pagnerre.
Huxhold, O., Miche, M., & Schüz, B. (2014). Benefits of having friends in older ages: Differential effects of informal social activities on well-being in middle-aged and older adults. The Journals of Gerontology: Series B, 69(3), 366–375. https://doi.org/10.1093/geronb/gbt029
Kancyper, L. (2014). Amistad: Una hermandad elegida. Lumen.
Ortega, F. (2000). Para uma política da amizade: Arendt, Derrida, Foucault. Relume-Dumará.
Rosa, H. (2019a). Aceleração: A transformação das estruturas temporais na modernidade (R. H. Silveira, Trad.). Editora Unesp.
Rosa, H. (2019b). Resonance: A sociology of our relationship to the world (J. C. Wagner, Trad.). Polity.
Winnicott, D. W. (1958). The capacity to be alone. The International Journal of Psycho-Analysis, 39(5), 416–420.


Deixe um comentário