Tem dias em que a casa fica cheia de vida, dessas que não cabem direito nos cantos. Gente indo e vindo, vozes que se cruzam, risadas que começam sem motivo e vão se espalhando como se soubessem o caminho. Há uma energia que toma conta de tudo, um movimento contínuo que não pede permissão e nem parece precisar de sentido. A gente só entra nele e vai.
O dia passa assim, quase sem perceber. O corpo vai ficando cansado, mas é um cansaço bom, desses que não pedem descanso imediato, só um lugar para encostar mais tarde. E, no meio disso tudo, há momentos que parecem pequenos demais para serem guardados, tão comuns que a gente nem pensa neles duas vezes. Um gesto, uma fala, um olhar distraído. Coisas que acontecem e passam.

Só que nem tudo passa do mesmo jeito.
Às vezes, sem que a gente perceba na hora, alguma coisa já está se despedindo. Não faz barulho, não avisa, não interrompe o que está acontecendo ao redor. Apenas deixa de estar, em algum ponto que não alcançamos. E a vida, curiosamente, continua inteira naquele instante, como se nada tivesse sido retirado.
A gente só descobre depois.
E quando descobre, não há mais o que alcançar. O tempo já seguiu sem pedir confirmação. Não há como voltar para aquele momento e olhar de outro jeito, prestar mais atenção, dizer alguma coisa a mais ou a menos. Tudo o que aconteceu permanece do jeito que foi, intacto e inalcançável ao mesmo tempo.
Fica uma sensação estranha, difícil de nomear. Não é só tristeza. É um certo desencaixe, como se duas coisas não combinassem direito. De um lado, a lembrança recente de tudo que estava vivo, pulsando, ocupando espaço. De outro, a notícia seca de que alguém já não está mais. As duas coisas existem juntas, mas não conversam.
E a gente tenta organizar isso.
Pensa que talvez tenha sido cedo demais. Ou que poderia ter sido diferente. Mas essas ideias parecem frágeis, como se fossem feitas mais para aliviar do que para explicar. Porque, no fundo, não há um momento certo que torne isso aceitável. O que há é sempre uma interrupção que chega sem caber no que estava acontecendo antes.

O mais curioso é que, depois disso, certas coisas mudam de lugar dentro da gente.
Aqueles instantes que pareciam comuns começam a ganhar outro peso, não porque se tornem especiais de repente, mas porque já não podem mais se repetir do mesmo jeito. Não há como voltar ao mesmo ponto, com as mesmas pessoas, no mesmo estado das coisas. Algo foi deslocado, ainda que tudo por fora continue aparentemente igual.
E a vida segue.
Segue com a mesma disposição de antes, oferecendo novos dias, novos encontros, novas cenas que também vão passar sem aviso. Há algo de quase ingênuo nisso, como se viver implicasse não saber que tudo, em algum momento, já está indo embora enquanto ainda está acontecendo.
Talvez seja isso que mais desconcerta.
Não a morte em si, mas o fato de que ela não chega separada da vida. Elas não se alternam, não se organizam em sequência. De algum modo difícil de entender, acontecem juntas. Enquanto algo começa, outra coisa termina. Enquanto se ri em um lugar, em outro já se apagou o que parecia continuar.
E a gente segue no meio disso.
Sem saber exatamente quando algo será a última vez. Sem perceber, na hora, o que já está se despedindo. Vivendo como se houvesse sempre mais tempo, quando, na verdade, o tempo nunca avisa o quanto ainda resta.
Talvez viver seja isso mesmo.
Ir passando pelos dias sem conseguir segurar nada por completo, mas ainda assim atravessando tudo, como quem carrega sem perceber aquilo que, em algum momento, já não estará mais ali.


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